À Esquerda e à Direita

Governo tenta salvar casamento com o povo

Há pessoas que esperam há meses para renovar o cartão do cidadão ou a carta de condução, mas como por artes mágicas o Governo desdobrou-se ontem para anunciar que tudo vai ser resolvido com o recurso aos terminais do multibanco. Extraordinário! Mas não sabiam disso há muito tempo? Foi e é preciso fazer as pessoas sofrerem tanto?

O Governo está  a fazer uma verdadeira ação de charme à população que tão mal tratou nos últimos tempo, fazendo lembrar aqueles casais que se estão a divorciar e uma das partes tenta tudo por tudo para recuperar a confiança. Mas a sorte do Executivo de António Costa é que a população é pouco exigente e come tudo o que lhe dão. Sempre foi assim e assim continuará. 

É certo que o desemprego há muito que não estava tão baixo e a economia parece estar em velocidade de cruzeiro, mas o pesadelo que se vive na Saúde, nos transportes, no Ministério da Justiça - a greve dos profissionais do Instituto de Medicina Legal, que dependem de Francisca Van Dunem, até funerais adiou -, e na Educação, o que é feito de Mário Nogueira?, fariam qualquer um acreditar que o povo iria penalizar o Governo. É certo que as pessoas olham para o lado e perguntam onde estão as alternativas, não existem, é um facto. 

Mas como é que se compreende que nas últimas semanas o Executivo tenha tirado vários coelhos da cartola para, supostamente, resolver os graves problemas dos serviços públicos? Há pessoas que esperam há meses para renovar o cartão do cidadão ou a carta de condução, mas como por artes mágicas o Governo desdobrou-se ontem para anunciar que tudo vai ser resolvido com o recurso aos terminais do multibanco. Extraordinário! Mas não sabiam disso há muito tempo? Foi e é preciso fazer as pessoas sofrerem tanto?

Os transportes estão um caos, mas o ministro da tutela anuncia mais comboios e funcionários que resolverão o problema - calcula-se que em 2020. Como os utentes da Carris e dos STCP são mais ordeiros, ninguém se importa que fiquem quase uma hora à espera de entrarem no autocarro. O mesmo se passa com os barcos que ligam as duas margens da Grande Lisboa, mas aí será preciso esperar por setembro para se perceber como é que o Governo resolveu ou não o assunto.

Nos últimos tempos, porém, há um setor que tem dado muitas dores de cabeça ao executivo, e mais ainda à população: falo do que se passa na saúde, onde operações são adiadas, consultas anuladas, e pessoas sem possibilidade de terem uma morte condigna nos serviços especializados.

É certo que ontem foi anunciado o fim dos contentores onde as crianças com problemas oncológicos do Hospital de S. João no Porto eram tratadas e que, afinal, as urgências das maternidades da Grande Lisboa já não vão fechar durante os próximos três meses. É pouco, muito pouco para tantas vidas infernizadas por causa das cativações do Governo. Mas como em tempo de eleições vale tudo, é natural que as medidas avulsas para encher o olho não parem até outubro.

Percebe-se perfeitamente que este Governo, apesar da ‘geringonça’ governou como se fosse um partido de direita, cujas principais preocupações são o défice. Primeiro as contas, depois as pessoas tem sido o lema da equipa de António Costa. Em muitas áreas a austeridade é mais violenta do que no tempo da troika, mas como existe uma habilidade extrema de camuflar esta evidência, é natural que o PS se aproxime da maioria absoluta nas próximas eleições Legislativas.

Governo e Presidência da República podem pois fazer o que entenderem que continuam na maior. Ainda há dias um polícia me contava que teve vontade de se demitir quando viu Marcelo a confortar um dos homens envolvido nos confrontos com a PSP no Bairro da Jamaica. O tal homem que tem seis processos crimes contra si a ser confortado pelo Presidente. É um bom retrato da governação à portuguesa.

vitor.rainho@sol.pt