Cultura

Felipe Oliveira Baptista. Desenhar, somar e seguir

O designer de moda português é o novo diretor criativo da Kenzo. Depois da Lacoste, que dirigiu durante oito anos, Felipe Oliveira Baptista salta para a cadeira mais importante de outra marca de luxo mundial – fundada pelo japonês Kenzo Takada em 1970 –, continuando assim a somar e seguir na difícil e competitiva alta-roda da moda.

Quando, no ano passado, Felipe Oliveira Baptista anunciou nas redes sociais que estava de saída da Lacoste, o espanto foi denominador comum nas reações. Afinal, tinha conseguido uma aproximação da marca do crocodilo tanto às novas gerações como às grandes passerelles. O anúncio foi feito, a saída consumada, e, daí por diante, fez-se silêncio. Esta espécie de licença sabática terminou na passada segunda-feira, dia em que foi anunciado que o designer de moda português iria assumir de «imediato» o lugar de diretor criativo da marca de luxo Kenzo – mais um passo gigante na carreira do açoriano que, aos 44 anos, consolida um curriculum inédito para um designer de moda português. Desde 2011 que a Kenzo – que conta atualmente com 525 trabalhadores e 122 lojas em todo o mundo – era liderada pela dupla norte-americana Carol Lim e Humberto Leon.

Nascida em Paris, em 1970, pela mão do japonês Kenzo Takada, a marca pertence desde 1993 ao gigante francês Louis Vuitton Moët Hennessy (LVMH). Do portefólio do grupo empresarial, que continua paulatinamente ao longo dos anos a agregar marcas de luxo, constam ainda insígnias como a Fendi, a Marc Jacobs, a Louis Vuitton, a Christian Dior ou a Givenchy.

«O que nos fez escolher Felipe, acima de outros candidatos, foi o facto de ter uma abordagem artística global (...). Ele tem uma visão criativa de 360º e irá supervisionar a direção artística a nível global, lidando tanto com as coleções como com a comunicação», disse a diretora executiva da Kenzo, Sylvie Colin, à Women’s Wear Daily, citada pela Vogue.

Já em comunicado disponibilizado pelo grupo LVMH, Felipe Oliveira Baptista definiu assim o traço do criador da sua nova casa: «Tudo o que [Kenzo] Takada fez foi cheio de alegria, elegância e de um senso de humor frio e atrevido».

Para Sylvie Colin, a matriz do designer português é compatível com o espírito imaginado por Takada. «Tem a ver com uma certa sofisticação diária, silhuetas que são ao mesmo tempo chique e desportivas», referiu à mesma publicação.

 

As linhas do sucesso

Felipe Oliveira Baptista, de 44 anos, é natural dos Açores e licenciou-se em Design de Moda em 1997 pela Universidade na Kingston, em Londres. Começou cedo a dar nas vistas e construir reputação em solo francês – em 2002, venceu o Festival Internacional de Jovens Criadores de Hyères. Em 2003, venceu o ANDAM, um concurso impulsionado pelo Ministério da Cultura francês e pela Association Nationale pour le Développement des Arts de la Mode.

Ainda nesse ano – curiosamente pela mão do seu novo empregador, o grupo LVMH – venceu uma bolsa que lhe permitiu dar gás à marca que tinha lançado juntamente com a mulher, Severine Oliveira Baptista. Mostrou várias coleções na ModaLisboa e no Portugal Fashion, trabalhou em marcas como a Max Mara, Christophe Lemaire a Cerruti. Colaborou também em coleções da Nike ou da Uniqlo, até se ter tornado, em 2010, diretor criativo da Lacoste que, nessa altura, procurava um novo rumo.

Conseguiu deixar a sua assinatura na marca, que duplicou as vendas sob a sua batuta e se tornou apelativa às gerações mais jovens. Deixou ainda o seu cunho na bem sucedida ação Save Our Species – em que a Lacoste substitui o tradicional símbolo do crocodilo por um animal em vias de extinção num número limitado de polos, sendo parte desse valor posteriormente entregue à União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A edição foi lançada pela primeira vez em março do ano passado, cerca dois meses antes da saída do designer da marca, e as peças esgotaram num ápice.

Radicado em Paris, Felipe Oliveira Batista foi condecorado pelo então Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique em 2015 e o Mude dedicou-lhe uma exposição em 2012. O novo cargo na Kenzo só vem reforçar aquilo que já se sabia: sem falar de modelos, Felipe Oliveira Baptista é o nome português mais internacional de sempre do mundo da moda.