Politica

Marcelo provoca PSD e PS

O discurso do Presidente no Congresso dos Economistas irritou os sociais-democratas próximos de Rio - por antecipar uma vitória do PS nas próximas legislativas - e os socialistas seguidores de Costa - por afastar uma maioria absoluta. ‘Por que não te calas?’, perguntam uns e outros. Marcelo vai calar-se, mas só depois de marcar a data das eleições, formalmente, dentro de dias.

A três meses das legislativas, o Presidente da República apelou  à estabilidade, pelo menos até 2021, ano em que Portugal vai assumir a presidência da União Europeia, sendo este um período «crucial» e uma «oportunidade para o país».

Antes de convocar oficialmente as legislativas, previstas para 6 de outubro, o chefe de Estado aproveitou para lançar recados aos partidos.

Até porque, dentro de uma semana o Presidente da República vai passar a remeter-se a «um quase silêncio».

Numa altura em que já se sente o clima de campanha eleitoral, e no mesmo dia em que decorreu o debate do Estado da Nação - que marcou o fim da legislatura da ‘geringonça’ -, Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou o 8.º Congresso Nacional dos Economistas para apelar aos partidos para que exerçam «uma governação estável» que não esteja dependente de «acordos pontuais», que não passe por uma gestão «à vista da costa».  

E dentro destes dois anos, Marcelo Rebelo de Sousa espera que existam condições para se decidir em consenso sobre matérias que considera serem estruturantes, dando como exemplos a Segurança Social, as alterações climáticas, a descentralização ou a demografia.

Além disso, nos próximos dois anos, até 2021, Marcelo Rebelo de Sousa disse esperar a que se construa uma «imprescindível alternativa».

Sem referir diretamente partidos, a ideia de Marcelo Rebelo de Sousa foi entendida, no PSD, como um recado para o principal partido da oposição ao Governo da ‘geringonça’.

Numa altura em que o PSD atravessa um período conturbado, o SOL sabe que entre alguns sociais-democratas, sobretudo da ala de Rui Rio, estes recados do Presidente da República foram acolhidos com incredulidade e irritação, considerando que as declarações do chefe de Estado acabam por fazer, de alguma forma, uma previsão dos resultados eleitorais. Alguns membros da entourage de Rio consideram que Marcelo está a ser «igual a ele próprio», que «não resiste» e acaba por ferir alguns deveres constitucionais, como a imparcialidade e distanciamento em relação à campanha eleitoral.

Recorde-se que já em maio, no rescaldo das europeias, o Presidente previu que nos próximos anos devemos assistir a uma «forte possibilidade» de crise nos partidos da direita, considerando ainda que há uma «impossibilidade de diálogo» entre PSD e CDS.  Já nesta altura, as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa foram mal acolhidas no PSD.  No CDS a ordem é para não comentar ou falar sobre o Presidente da República.  

Mas há quem concorde com o posicionamento de Marcelo Rebelo de Sousa. É o caso de Silva Peneda, antigo presidente do Conselho Económico e Social (CES) e membro do Conselho Estratégico Nacional do PSD, que lembrou ao SOL que o pedido de consensos estruturais é discurso do Presidente desde há muito anos. E a ideia de necessiadde e de «cultura de compromisso» é partilhada por Silva Peneda.

Também o antigo líder do PSD, Luís Filipe Menezes, disse ao SOL  que não lhe parece «que haja muita diferença em relação ao tradicional discurso do Presidente da República» recordando que «sempre apelou a maiorias estáveis». Para o antigo autarca de Gaia a leitura que se pode fazer das declarações é que Marcelo  «revela que começa a ter dúvidas de que a atual maioria seja coerente, duradoura e estável».  Luis Filipe Menezes admite também que Marcelo poderá ter dúvidas da capacidade de um entendimento futuro entre os parceiros de esquerda, sendo certo que «as meninas do Bloco de Esquerda morrem de coração se um dia não forem ministras».

Mas em maio, no rescaldo das europeias, durante uma entrevista à RTP3, o antigo líder do PSD foi mais crítico com o Presidente, considerando que a previsão de Marcelo Rebelo de Sousa para a crise na direita era-lhe conveniente de forma a conseguir a maior votação de sempre nas próximas presidenciais.

 

Caderno de encargos para o próximo Executivo

O Presidente da República aproveitou ainda o seu discurso no congresso nacional dos economistas, para deixar um caderno de encargos ao próximo Governo, lançando sete desafios, que devem ser alvo de reflexão dos eleitores.

O chefe de Estado começou por voltar a falar para quem não vai às urnas, defendendo que é preciso «mobilizar a abstenção para o voto». Em segundo lugar, é preciso saber se, os portugueses, pelo seu voto, mantêm «o essencial do sistema partidário» para que o mesmo se «possa reformar sem ruturas mais ou menos drásticas». Além disso, o Presidente apontou como  prioridade a forma como se configura «o equilíbrio de forças» que permitam «consensos essenciais de regime» que «sejam viáveis» através dos quais se consiga uma «governação estável» que «se afirme e garanta a efetiva vitalidade do sistema político».

Para Marcelo Rebelo de Sousa, é preciso também que os parceiros políticos e económicos consigam «dar expressão cabal ou pelo menos mínima a anseios da sociedade»  para minimizar «riscos sistémicos» e  «escaladas pontualmente tentadoras».

Em suma, para Marcelo é fundamental manter «aquilo que existe de mais adequado e significativo hoje nas finanças e na economia, e que não pode e deve ser perdido».

No fim de discurso, Marcelo lembrou  aos portugueses que não se pode «falhar» nas respostas a estes desafios que colocou.