Sociedade

Um pequeno passo para o homem

Há 50 anos, dois homens caminharam pela primeira vez num objeto celeste fora da Terra, o único onde foi possível registar pegadas humanas até hoje. Neil Armstrong meditou nas palavras que disse em direto para todo o mundo e fez questão de corrigir que não queria dizer um pequeno passo para o Homem, mas um pequeno passo para um homem, ele. Levaram quatro dias a chegar à Lua. Pousaram a Águia às 20h17 de 20 de julho, hora em Portugal. O mundo parou para ver.

Os três homens da Apollo 11

Dois deles pisaram o solo da Lua. O terceiro elemento ficou a assistir à distância, enquanto o módulo de comando orbitava o satélite natural da Terra.

 

Neil Armstrong. A paixão de voar

A sua ficha da NASA especifica: «Louro, olhos azuis, 1,80m, 75 kg». Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua, tinha dois filhos (perdeu uma filha de dois anos, que seria a do meio) e uma experiência de mais de 40 mil horas de voo. Era um homem de poucas palavras – segundo um dos filhos, limitava-se a responder ‘sim’ ou ‘não’ –, por isso todos ficaram espantados com a sua frase eloquente em direto para todo o mundo: «Um pequeno passo para um homem, mas um salto gigante para a humanidade».

Um apaixonado pela aviação desde a infância, no dia em que fez 16 anos recebeu de presente a possibilidade de começar a aprender a pilotar aviões no aeródromo local.

Estudou engenharia aerospacial em Purdue, uma universidade com pergaminhos nas ciências, engenharias e tecnologia. Depois de entrar para a Marinha serviu como piloto naval em porta-aviões e participou em 78 missões na guerra da Coreia. Foi piloto de testes na NACA, a antecessora da NASA, notabilizando-se pelas suas proezas aos comandos. Antes da Apollo 11 participou em três missões espaciais: em março de 1966 conseguiu a primeira acoplagem bem sucedida de dois veículos no espaço.

Segundo John Glenn, o primeiro americano no espaço, Armstrong «era um homem humilde, e assim permaneceu depois do voo à Lua». Outros descreveram-no como ‘taciturno’. Após a missão da Apollo 11 decidiu que não voltaria ao espaço e foi dar aulas de engenharia aeroespacial para uma universidade. Trabalhou também com algumas grandes empresas, mas não gostava da exposição pública. Em 1994, após 38 anos de casamento, separou-se da sua primeira mulher, voltando depois a casar. Morreu a 25 de agosto de 2012, aos 82 anos, após uma intervenção para desobstruir as artérias coronárias que aparentemente tinha corrido bem.

Michael Collins. O homem que não foi à Lua

Na conferência de imprensa que antecedeu a partida da Apollo 11 para a missão histórica, apenas um repórter se dirigiu ao ‘terceiro homem’: «Sr. Collins, como é não ir à Lua?». O astronauta respondeu com fleuma: «Eu vou fazer 99,9 por cento do caminho até lá e isso basta-me perfeitamente».

Porém, talvez interiormente Michael Collins não estivesse assim tão pacificado com a ideia, mas mesmo que assim fosse não havia nada a fazer: no módulo lunar só cabiam duas pessoas, e Collins não era uma delas. Talvez por isso, mesmo antes da missão arrancar, já tinha apresentado a sua demissão da agência espacial.

Nascido em Roma, Itália, em 1930, Michael Collins passou a infância com a família a saltitar de cidade em cidade, consoante o local onde o pai, um militar, era colocado.

Estudou, como Aldrin, na academia militar de West Point, e tornou-se piloto de testes da Força Aérea. Descrito como «uma combinação de competência e sofisticação», candidatou-se a um lugar na NASA em 1962, mas não foi escolhido. Voltou a tentar no ano seguinte e entrou.

Praticante de andebol, em 1968 apercebeu-se de que havia algo de errado com as suas pernas. Diagnosticado com uma hérnia discal, teve de ser operado, o que o afastou da equipa da Apollo 8. Foi graças a isso que a NASA o destacou para a missão à Lua. E Collins teve um papel decisivo como piloto do Módulo de Comando, tendo executado a difícil manobra de rodar a nave 180 graus e acoplá-la ao módulo lunar que levaria Armstrong e Aldrin ao satélite.

Depois da Apollo 11, entrou para o Departamento de Estado em 1970, e em seguido foi nomeado diretor do National Air and Space Museum, em Washington D.C., supervisionando a construção do edifício. O museu, dedicado à conquista espacial, tornar-se-ia o mais visitado da América. Em 1978 Collins deixou a instituição para ocupar um cargo de relevo no Instituto Smithsonian.

Buzz Aldrin. Ciência e espiritualidade

seu nome de baptismo é Edwin, mas a irmã chamava-lhe Buzzer, porque não conseguia dizer ‘brother’ (irmão). Na década de 80, ele adotaria o diminutivo Buzz como nome oficial nos documentos. Curiosamente, o apelido de solteira da mãe era Moon.

Formou-se na academia militar de West Point e obteve um doutoramento em ciência pelo MIT. Veterano da Guerra da Coreia, onde tinha abatido dois MIG, possuía uma grande experiência de voo, tanto em caças como em helicópteros, quando foi contratado para a NASA. Em 1966 participou na missão Gemini 12, que orbitou a Terra durante quatro dias.

Apesar das suas credenciais científicas, Buzz Aldrin sempre foi muito dado à espiritualidade. Membro da Igreja Presbiteriana de Webster, onde detinha um cargo de administrador, obteve uma permissão do Papa para distribuir a comunhão na Lua e levou a bordo um cálice, algumas gotas de vinho e hóstias para celebrar a Eucaristia. A sua pertença à Maçonaria também é conhecida.

Fernando Carvalho Rodrigues, o pai do satélite português, o PoSAT-1, foi o seu anfitrião quando Buzz Aldrin visitou Portugal. «É um parceiro muito introvertido», revela o cientista português. «Falei muitas vezes com ele e ele diz que não há como não ficar místico depois de um processo daqueles. Ver o espaço. Ver a escuridão e a imensidão. Olha-se e vê-se triliões». Em Lisboa, o astronauta só fez um pedido ao seu anfitrião: «Das vezes que cá esteve, a única coisa que me pediu mesmo foi que gostava de ser fotografado ao lado do Vasco da Gama». E, numa conferência perante jovens na Madeira, revelou aos alunos o que pensou quando olhou para a Terra a partir do espaço. «Naquele momento, a única coisa que eu pensava é que eu precisava de muitos cuidados, amor e carinho».

 

Como eles descreveram o que viram lá em cima

Neil Armstrong

A  «Tem uma beleza agreste, como muito do deserto de altitude dos Estados Unidos. É diferente, mas é muito bonito aqui em baixo» 
«Ao entrarmos na zona de sombra víamos o reflexo do nosso rosto, que obscurecia tudo o resto. Uma vez o meu rosto passou para a sombra e demorou uns vinte segundos até que as minhas pupilas se adaptassem e eu conseguisse ver os pormenores»

«O horizonte parece muito próximo porque tem uma curvatura muito mais pronunciada do que aqui a Terra. É um sítio interessante para se ir. Recomendo»

«Praticamente não tem cor. É um cinzento muito esbranquiçado [...]; e é um cinzento consideravelmente mais escuro, se olharmos com o sol a noventa graus»

«O céu é muito escuro. Mesmo assim parecia mais de dia do que de noite quando olhámos pela janela lá para fora. É uma coisa peculiar, mas a superfície parecia quente e convidativa. Parece que seria um sítio bom para tomar um banho de sol»

Buzz Aldrin

«A superfície da Lua era como pó de talco muito fino. Quando se pisava, a marca da bota ficava lá delicadamente preservada. A cada passo, um pequeno semicírculo de poeira espalhava-se à minha frente. Era estranho porque a poeira não se comportava nada como aqui na Terra. [...] Na Lua, estamos a lidar com esta poeira farinhenta que viaja através de um espaço sem ar, por isso a poeira levanta e depois cai toda ao mesmo tempo num semicírculo perfeito»

«Atravessei com a mão o limiar da sombra para o sol e foi como dar um murro que entrasse por outra dimensão adentro»
«Quando estás na Lua há muito poucos sons à tua volta, apenas os do teu fato – o sussurro das bombas a pôr os fluidos a circular. Mas não se ouve a respiração amplificada dentro da máscara; isso é uma artimanha de Hollywood».

 

O arquivista da Apollo 11

Ao longo de 30 anos, Eric M. Jones mergulhou nos arquivos do Programa Apollo e reuniu o acervo disperso no Lunar Surface Journal. A pedido do B,i, escolheu seis imagens para ilustrar a odisseia da Apollo 11. 

Em 1969, Eric M. Jones estava a terminar o doutoramento em Astronomia no Instituto de Tecnologia da Califórnia. «Esperava que a missão tivesse sucesso, mas o incêndio na Apollo I tinha-nos mostrado como as coisas podiam correr terrivelmente mal», lembra ao B, i. Viria a trabalhar no Laboratório Nacional Los Alamos, em programas de Defesa. Em 1988, numa visita a Houston, descobriu as transcrições das comunicações da missão Apollo e percebeu a quantidade infinita de registos que estavam dispersos. Começou a juntar as peças do puzzle, um trabalho que levou mais de 30 anos e está hoje disponível no Apollo Surface Journal, no site da NASA. Parece impossível o quão longe foram há 50 anos, com a tecnologia daquele tempo, num mundo sem telemóveis, sem internet? Jones fala do esforço de uma multidão: «Cerca de 400 mil pessoas trabalharam no programa Apollo. Todos os que contactei nos últimos 50 anos olham para a missão como o ponto alto do seu trabalho de anos». Porque não voltámos? Também não há dúvidas: terminada a corrida espacial, o apoio público esmoreceu e a NASA perdeu orçamento. «Muitas pessoas apoiaram a Apollo como uma forma de ganhar a corrida espacial que os russos tinham começado. Quando essa corrida terminou, muitos perderam interesse no programa e faltou entusiasmo para continuar a trazer amostras lunares e para pensar num presença humana permanente na Lua». A NASA já anunciou planos para regressar à Lua na próxima década, a que se junta o sonho de enviar uma missão tripulada a Marte – tanto EUA como a Agência Espacial Europeia (ESA) apontam para o início da década de 30. Aos 75 anos, Jones não acredita que ainda vá a tempo de assistir. A pedido do B.i, escolheu as seis imagens para retratar a que continua a ser, por agora, a maior aventura do Homem no Espaço.  

NEIL EM AÇÃO | A Durante algum tempo, a NASA pensou que Buzz Aldrin não tinha feito imagens de Armstrong nas atividades extra-veículo, o que uma pesquisa de investigadores britânicos deitou por terra em 1990. Nesta imagem, garantem que era Armstrong junto ao módulo lunar.

 

O PÂNICO | A Assim que Armstrong viu o local onde era suposto pousar o módulo Eagle na superfície lunar, apercebeu-se de uma cratera rodeada de rochas do tamanho de pequenos automóveis, conta Eric Jones. Sem que a audiência mundial se apercebesse, decidiu passar ao comando manual e contornou o obstáculo. Nesta imagem, Charlie Duke, responsável pela comunicação com a cápsula e os pilotos Jimm Lovell e Fred Haise, em Houston, no momento em que Armstrong declara que já estão em solo firme com o famoso«The Eagle has landed». «Tinhas aqui um conjunto de tipos a ficarem roxos. Já estamos a respirar outra vez, obrigado», responde Duke. 

 

PARA MAIS TARDE RECORDAR | A Buzz Aldrin vira a cabeça para ver se Neil Armstrong já lhe tinha tirado a fotografia junto da bandeira americana. Há 50 anos que a Annin & Company garante ter sido a fornecedora deste símbolo da ida dos EUA à Lua, o que a ser verdade coloca Portugal na história: Isilda Ribeiro, de Vagos, fazia costuras nesta fábrica de Nova Jérsia e terá feito os remates no pano. A NASA diz que as bandeiras do programa Apollo 11 foram compradas à pressa à hora de almoço em lojas locais de Houston e que os registos não permitem confirmar a história.

 

 

AÍ VÃO ELES | A Fotografia tirada uma câmara no topo da estrutura de lançamento do  Saturn V logo após a ignição no Centro Espacial John F. Kennedy. Era o dia 16 de julho de 1969, 9h32 na Florida. O foguetão mais potente de sempre colocaria a Apollo 11 na trajetória da Lua.   

 

 

 

 

 

 

 

DA AUSTRÁLIA PARA O MUNDO | A Mais de 600 milhões de pessoas em todo o mundo assistiram  na TV à caminhada na Lua. Os primeiros oito minutos de sinal televisivo foram recebidos numa antena de 26 metros da NASA em Honeysuckle Creek, perto de Camberra. Depois a receção passou para o radiotelescópio Parkles, também na Austrália. 

 

60 METROS | A Com o tempo na superfície da Lua a esgotar-se, Neil correu cerca de 60 metros até uma cratera de 30 metros (Little West Crater) onde pensou que poderia encontrar rochas. No filme O Primeiro Homem, conta-se que deixou lá uma pulseira da filha que tinha perdido com dois anos, uma história de que não há registos. Foi o mais longe que os astronautas se afastaram do módulo lunar. 

 

Se fosse viajar para a Lua, que objetos levaria consigo?

Apesar do exíguo espaço a bordo, os astronautas puderam levar alguns objetos pessoais. Collins optou por artigos de higiene, Aldrin levou um cálice de igreja e Armstrong um pedaço da história da aviação.

Além de todo o equipamento de navegação e de pesquisa científica, os astronautas puderam também escolher alguns objetos pessoais de pequena dimensão que quisessem levar consigo, desde que coubessem dentro de um pequeno saco ou bolsa de pano – o chamado Personal Preference Kit.

Michael Collins optou por três bandeiras: a americana (a chamada Stars and Stripes), a do distrito de Columbia e a da Força Aérea, cuidadosamente dobradas dentro da bolsa.

Além disso, o astronauta levou consigo vários artigos de higiene: uma escova de dentes, uma lâmina de barbear de aspeto futurista (tipo gillette) e um tubo de espuma de barbear Old Spice. Já que era para ir para o espaço, convinha fazê-lo em grande estilo.

Cristão, místico e membro da Igreja Presbiteriana de Webster, Buzz Aldrin partiu para a Lua com uma intenção bem definida: celebrar a primeira eucaristia extraterrestre. A NASA não se opôs, mas preferiu que não fosse dada muita publicidade ao acontecimento para evitar a polémica. Para cumprir o seu objetivo, Aldrin levou no saquinho do seu kit pessoal um cálice de igreja, um pouco de vinho dentro de um recipiente de plástico e hóstias. Assim que o módulo lunar aterrou pediu, através do rádio, alguns momentos de silêncio e comungou. «Deitei o vinho para o cálice que a nossa igreja me deu. Com um sexto da gravidade, o vinho enrolou-se devagar e graciosamente no bojo do copo. Foi interessante pensar que o primeiro líquido derramado na Lua e o primeiro alimento ali consumido eram elementos da comunhão». Em seguida leu uma passagem do Evangelho Segundo S. João:
«Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
[...]
Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor.
Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor.
Tenho-vos dito isto, para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo.

O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei».
Armstrong nunca revelou que objetos pessoais escolhera levar consigo na Apollo 11. No entanto sabe-se que no interior do seu saco seguiam dois pedacinhos de madeira da hélice do avião dos irmãos Wright, pioneiros da aviação que realizaram o primeiro voo num aparelho mais pesado do que o ar em 1903. Como apaixonado pela aviação, Armstrong idolatrava os irmãos Wright.

O filme O Primeiro Homem, de Damien Chazelle, mostra também o astronauta a caminhar sozinho pela superfície da Lua e a depositar no côncavo de uma cratera uma pulseira que pertencera à filha Karen, falecida em janeiro de 1962, aos dois anos. Armstrong fez de facto esse percurso que não estava previsto, mas ninguém sabe o que aconteceu enquanto esteve sozinho.