Internacional

Trump e os ataques racistas

Trump sobe fasquia de discurso de ódio para fins eleitorais e colar os democratas a um partido de esquerda «extremista».

A campanha eleitoral de Donald Trump pode nunca ter encerrado porque afinal é oficialmente candidato desde a sua tomada de posse. Mas os ataques às quatro congressistas de minorias étnicas – conhecidas como ‘O Pelotão’ – e da ala progressista do Partido Democrata, durante a semana, são os primeiros sinais de como poderá conduzir a corrida para a sua reeleição. As presidenciais são já em 2020 e Trump está a usar declarações racistas para mobilizar a sua base e dividir os democratas.

O Presidente esticou todos os limites com os seus comentários, como defendeu o historiador presidencial, Timothy Naftali, à CNN. «Já tivemos Presidentes racistas. Mas eles nunca expressaram o seu racismo como chefes de Estado da mesma maneira que Donald Trump».

«Porque é que não voltam para lá e ajudam a melhorar os lugares totalmente falhados e infestados de crime de onde vieram?», escreveu o Presidente na mensagem do Twitter que desencadeou a polémica. Referia-se a Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar, Ayanna Pressley e Rashida Tlaib, que são, na verdade, cidadãs norte-americanas. Omar é a única que não nasceu nos Estados Unidos, tendo ido em criança para o país como refugiada da Somália. 

Os comentários do Presidente provocaram o terramoto político que se esperava em Washington. Os democratas, em lutas internas, foram céleres a denunciar as palavras do Presidente e pela primeira vez em 100 anos foi passada, na Câmara dos Representantes, uma moção a condenar os comentários de um chefe da Casa Branca. No seu discurso, Nancy Pelosi, líder da Câmara dos Representantes e a democrata mais poderosa do país, reiterou que as palavras de Trump eram «uma vergonhosa abdicação do juramento de posse para proteger o nosso povo». Declarações que contrastam com a posição do Partido Republicano: votou quase unanimemente contra a moção de condenação aos ataques de Trump, com apenas quatro republicanos a votar a favor.

Pouco depois da votação, num comício na Carolina do Norte, Trump não recuou e concentrou-se em Omar, mulher negra e muçulmana. Conotou a congressista com movimentos terroristas, entre os quais al-Qaeda. Foi o alvo perfeito para exaltar a multidão de apoiantes: «Mandem-na de volta! Mandem-na de volta!», cantaram.

Ataques às congressistas não são aleatórios

O silêncio dos republicanos fez-se notar em Washington, mostrando o domínio de Trump sobre o partido. Alguns dos seus líderes, como Mitt Romney, condenaram as palavras do Presidente, mas não quiseram considerá-las racistas. O líder do Senado, Mitch McConnel, recusou-se a tecer comentários. Outro senador que é hoje próximo de Trump, Lindsey Graham  – que antes do Presidente ser eleito chamou-lhe «racista misógino» – defendeu que os cânticos contra Omar não eram racistas.

Trump tem tido dificuldade em afastar-se da barreira dos 40% de aprovação nas sondagens, uma percentagem historicamente baixa para um Presidente a cumprir o seu primeiro mandato. Os seus melhores resultados, este ano, ficaram-se pelos 45%, de acordo com centro de sondagens da Gallup. Não é por acaso que este ano endureceu a linha com o Irão. E não será por acaso que neste momento decidiu aumentar o tom contra os democratas, puxando o discurso de ódio, acreditando existir ainda uma base a ser mobilizada para o apoiar. Afinal, Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump, defendeu num encontro com a então Frente Nacional Francesa: «Deixem-nos chamar-vos racistas. Deixem-nos chamar-vos xenófobos. Usem-no como uma chapa de honra».

Assim, preocupado com as eleições de 2020, ‘O Pelotão’ encaixa perfeitamente no quadro que Trump quer pintar dos democratas. São mulheres, representam minorias étnicas e foram eleitas com plataformas mais à esquerda do que é comum no Partido Democrata. Ao colar as quatro congressistas, que andam a lutar contra a liderança de Pelosi, Trump quer representar os democratas como uma organização perigosa, «militantemente de esquerda radical» e com «extremistas cheios de ódio que estão constantemente a tentar destruir o país». Uma tática que David Brooks, do New York Times, defende que se tornará habitual. «Esperem que este padrão se repita».

As primárias democratas são o melhor momento para que episódios deste género se sucedam, aprofundando ainda mais as divergências no seio de um dos dois principais partidos nos EUA. David Axelrod, antigo conselheiro de Obama, defendeu que, embora a palavra «estratégia não seja normalmente associada a Trump», os ataques às congressistas não eram aleatórios: «O Presidente é impulsivo, mas tem uma espécie de génio selvagem para fazer estes golpes».