Desporto

Barbosa. O imediato não quer água

Primeiro português a lançar-se na dureza do Tour (ou não), Alves Barbosa ainda cometeu a proeza de acabar no 10.º lugar da geral.

Apraça que fica no centro da cidade, em frente à catedral de Reims, estava apinhada de gente desde as oito horas da manhã daquele dia 5 de julho de 1956. A Volta à França regressava à estrada pela 43.ª vez e os corredores tomariam o caminho de Liége, na Bélgica, para um total de 223 quilómetros da primeira etapa. Iam chegando em pequenos grupos, assinavam uma folhinha de presença e recebiam um cantil com água. Tudo simples, essencialmente prático, mas seriamente profissional. Afinal o total dos prémios excedia a quantia de quatro mil contos. E o rendimento do Tour, que combinava desporto-espetáculo com o maior empreendimento publicitário do país, ultrapassava em dez vezes essa importância. Uma desilusão perpassava pela assistência: a ausência de Louison Bobet, o francês que vencera as três últimas edições, abatido ao contingente por doença. Por entre os demais 120 ciclistas que se acotovelavam à espera que o ‘maire’ de Reims desse a ordem de partida, jovens futuros ases mastigavam o nervosismo: o luxemburguês Charly Gaul, o espanhol Fernando Bohamontes, o italianoNino de Filippis, o belga JeanBrankart. E, pela primeira vez, também um português, quase anónimo, nascido em Fontela, Vila Verde, não longe de Buarcos, Figueira da Foz. Chamava-se António da Silva Barbosa mas decidira, desde criança, quando se lançara nas primeiras provas velocipédicas, usar o nome do pai, também ciclista, Alves Barbosa, antigo empregado na Casa de Bicicletas Cardoso, em Lisboa, na Av. Saraiva de Carvalho, a Campo d’Ourique.

‘Le portugais’

Quando arrancou de Reims naquele dia 5 de julho que prometia um calor de fazer derreter alcatrão ao longo da tarde, Alves Barbosa já tinha ganho a Volta a Portugal (1951), façanha que viria a repetir nesse ano. Fizera-o com apenas 19 anos e acrescentara-lhe o pormenor impressionante de ter envergado a camisola amarela da primeira à última etapa. Encaixado na equipa Mista do Luxemburgo (ao tempo corria-se ora por países, ora por regiões), Barbosa não esteve pelos ajustes e deixou de lado as habituais tamanquinhas nas quais se enfiam, envergonhados, os estreantes. O L’Équipe não lhe  poupou elogios, no final da etapa, em Liége: «Graças a um português e a um inglês, o Luxemburgo ganhou o prémio Martini (combatividade).Os mais brilhantes corredores da equipa luxemburguesa durante o primeiro dia da Volta à França foram os portugueses Alves Barbosa e o inglês Brian Robinson».

O seu sexto lugar na etapa fez sensação num país pequenino que fitava o mar com saudades de grandeza e não estava habituado a proezas desportivas de monta. Dizia-se à boca cheia, nos cafés e nas conversetas de passeio, que Alves Barbosa tivera o terceiro lugar à mercê mas que uma queda maldita lhe tirara essa glória ainda maior.

O vencedor do Tour de 1956 seria novamente um francês, Roger Walkowiak, simplesmente conhecido por Walko, e que corria pela França do Centro e Noroeste. Por seu lado, o luxemburguês Charly Gaul conquistou o Prémio da Montanha. Ora, este Charly era, por assim dizer, o padrinho de Barbosa. Não teve motivo para lamentar a decisão de convidar o português, que corria, entre nós, pelo Sangalhos, a lançar-se na grande aventura francesa. O Tó, como alguns dos companheiros o tratavam, já era sexto na classificação geral. E, com pompa e circunstância digna de Elgar, Nicolas Frantz, diretor da equipa doLuxemburgo, apresentou-se perante os jornalistas para anunciar oficialmente que o português passava a ter, dentro do grupo, a categoria de imediato, dando-lhe uma independência quase completa (a seguir a Gaul) e garantindo-lhe o apoio dos restantes companheiros. Frantz revelou que a decisão fora tomada após ter sido 19º na etapa de contra-relógio, modalidade que Barbosa considerava ser o seu ponto mais fraco. Como era natural, não cabia em si de contente: «Desta vez, e apesar do grande esforço de ontem, não sinto qualquer cansaço, tal como havia acontecido nas primeiras duas etapas. É bom sinal. Acho que estou mais forte do que nunca! E como não tenho necessidade de estar sempre a beber água, perco menos tempo que os meus adversários».

Se, inicialmente, a estreia de um português tinha sido vista publicamente com ceticismo, já para não dizer negativismo, e as habituais chalaças à mistura, agora Alves Barbosa estava no pináculo da popularidade nacional. Manteve-se firme na luta pelos lugares de topo até ao fim e acabou em décimo na geral, disputando nos Alpes uma célebre etapa com o espanhol Bahamontes que fez com que oTour tivesse o seu Portugal-Espanha particular.

Primeiro português?

Entretanto, questionava-se se Alves Barbosa era ou não, de facto, o primeiro português a correr a Volta à França. Os registos davam como tal um algarvio chamado Custódio dos Reis como tendo disputado o Tour de 1951, atingindo o 24º lugar final. Houve matéria para discussão, como tanto gostam os portugueses. Defendiam uns que, por ter vivido em França desde a infância, Custódio era mais francês do que português e que até escolhera competir pela equipa de Marrocos, na altura um protetorado do governo do Hexágono. O facto é que, com o tempo, Alves Barbosa ganharia esse estatuto definitivamente. E, se não foi o primeiro, foi sem dúvida o primeiro a bater-se com os primeiros. 

No dia 28 de Julho, à chegada a Paris, no Estádio de Saint Claud, mais famoso por Parque dos Príncipes, Barbosa ainda foi capaz de um arranque no final dos 331 quilómetros iniciados Montluçon e cortou a meta em oitavo. O imediato ficava à frente do capitão Charly. E perdia-se, outra vez anónimo, na multidão de franceses que saudavam os seus heróis...