Opinião

Sim, senhor ministro

Portugal hoje vive uma realidade bem diferente da do passado próximo: o respeito desapareceu por completo do horizonte de quem exerce os mais altos lugares de decisão no Estado

Há duas semanas, durante a cerimónia de celebração do Dia da Polícia, data em que se comemorava igualmente o 152º aniversário da Polícia de Segurança Pública, centenas de elementos daquela força de segurança que assistiam ao evento viraram ostensivamente as costas em direcção à tribuna, onde, entre outras individualidades, se encontravam o primeiro-ministro e o ministro da administração interna.

Este gesto de reprovação ocorreu no preciso momento em que o director-nacional da PSP iniciava o seu discurso, culminando com o abandono da cerimónia, por parte daqueles protestantes, quando o responsável pela pasta ministerial fez uso da palavra.

Desde sempre nos habituámos a uma postura de respeito e de decência por quem enverga uma farda, mesmo durante acções de protesto e de contestação às políticas impostas pelo poder político a quem tem a responsabilidade de zelar pela defesa e pela segurança da Nação, sendo absolutamente reprováveis comportamentos de desobediência e de desrespeito institucional pelos superiores hierárquicos e pela tutela.

Mas Portugal hoje vive uma realidade bem diferente da do passado próximo: o respeito desapareceu por completo do horizonte de quem exerce os mais altos lugares de decisão no Estado.

Para sermos respeitados temos que nos dar ao respeito e a classe política que ascendeu nos últimos anos ao patamar superior há muito que perdeu a noção da respeitabilidade.

Os políticos de Abril desprezam os militares e os polícias, não se cansando de lançar constantes farpas contra quem abraçou uma difícil e penosa carreira de protecção das populações e seus bens e de garante da integridade territorial.

Os políticos temem quem, no sector público, pode congestionar a sociedade, ou mesmo pará-la, como, entre outros, os magistrados, os médicos e os operadores de serviços de transporte de passageiros, pelo que a cedência às exigência e caprichos daqueles tem sido uma constante.

Mas nunca recearam verdadeiramente quem arrisca a vida ao serviço do bem comum, em particular os militares, os polícias e os bombeiros, porque sabem que estes nunca baixam os braços e, independentemente dos ultrajes a que são frequentemente submetidos, comparecem sempre no seu posto de trabalho.

No entanto, estes homens e mulheres que diariamente se fardam também são responsáveis pela degradação das suas condições de trabalho, porque, através do seu silêncio e apatia, permitiram que as Instituições nas quais prestaram o seu juramento de fidelidade à Pátria fossem sendo descaracterizadas pelos políticos, que as vêm desprovendo de meios humanos e operacionais e de protecção jurídica perante os bandos que as confrontam.

Recentemente o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, num raro rasgo de coragem e ousadia, veio publicamente pôr a nu as fragilidades com que se debatem os militares, denunciando a manifesta falta de efectivos que torna insustentável o cumprimentos das missões que estão atribuídas às Forças Armadas.

O desinteresse do poder político pelo sector levou a um considerável rombo nos recursos humanos da Instituição Militar, debatendo-se esta com a falta de seis mil efectivos previstos no seu quadro orgânico.

Perante o desabafo do chefe militar, o ministro responsável pela defesa nacional, uma criatura que nem à tropa foi, presumindo-se, assim, que perceba tanto de vida militar como eu percebo de plantação de abóboras, em vez da dar a mão à mais alta entidade militar de que o País dispõe, comprometendo-se a trabalhar mais e melhor para que este problema possa ser contornado, muito pelo contrário, veio a público retratá-lo, como se este não passasse de um miúdo de escola que fora inconveniente para com um professor.

Num acto de pura cobardia do assumir de responsabilidades, veio insinuar que o almirante insatisfeito já se deveria ter demitido caso não conseguisse desempenhar o seu papel com os efectivos que tem à mercê.

Não contente, teve ainda o desplante de se desculpar com erros do passado, como se não pertencesse a um governo, em funções há quatro anos, e que logo no início da legislatura apregoou a intenção de corrigir as deficiências que herdara.

Humilhado perante todos pelo ministro de quem depende, esperava-se, do oficial-general destratado, uma nova atitude de coragem, a qual somente poderia seguir um caminho: a imediata demissão e a solidarização dos seus pares, recusando-se todos a ocupar o cargo deixado vago.

Mas não, passada uma semana nem uma palavra do chefe militar desconsiderado. Comeu e calou!

E também um silêncio absoluto dos seus subordinados no activo, não havendo qualquer gesto  destes que indicie uma tomada de posição de apoio ao seu superior.

O próprio Comandante Supremo das Forças Armadas, especialista em falar de assuntos nos quais não se deveria imiscuir, parece sofrer de amnésia nas matérias que lhe dizem directamente respeito, remetendo-se igualmente a um incompreensível silêncio.

Os políticos que Abril fabricou devem os poleiros onde se pavoneiam aos militares que derrubaram o Estado Novo, mas como a gratidão não consta nos dicionários de que se socorreram para os seus estudos, tudo têm feito para ferir a Instituição Militar, afectando-a seriamente na sua dignidade e credibilidade e reduzindo-a à mínima expressão possível.

No entanto não podemos responsabilizar em exclusivo a classe política, em particular todos quantos nas últimas décadas têm exercido funções governativas na área da defesa nacional, pelos desastres que cada vez mais afligem as Forças Armadas.

Também os oficiais-generais que emergiram com Abril são culpados pela falta de seis mil efectivos, porque o silêncio e submissão a que sempre se sujeitaram tornaram-nos cúmplices dos desavergonhados políticos em cujas veias não corre uma pinga de sangue de patriotismo.

Daí o amouxar do almirante, acenando com a cabeça, ao seu ministro, num gesto afirmativo.

Limitou-se a seguir o triste exemplo dos seus antecessores!

  

Pedro Ochôa