Contra a Corrente

A dignidade e a falta dela

O livro de Freitas do Amaral mostra-nos como uma pessoa honesta pode rever as suas apreciações políticas e a avaliação dos ‘amigos’...

Assisti, há pouco mais de um mês, ao ato de lançamento do último livro de Diogo Freitas do Amaral, Memórias Políticas III (1982-2017). Tendo notícia de algumas dificuldades de saúde do autor, não quis deixar de ir prestar a minha homenagem ao antigo colega do Conselho de Estado entre setembro de 1974 e a extinção desse Órgão após o 11 de março de 1975.

Tendo sido um dos primeiros Conselheiros civis (julgo que logo a seguir à Prof. Magalhães Colaço) a pronunciar-se contra a pretendida, pelo General Spínola, declaração do estado de sítio na sua tentativa de tomada pessoal do poder em 28-set-74, Freitas do Amaral demonstrou, para quem tivesse dúvidas, a sua sincera adesão ao processo democrático e a sua oposição a golpismos. Valorizámos também as suas importantes contribuições políticas e técnicas para o processo legislativo de implantação da Democracia, incluindo a lei eleitoral para a Assembleia Constituinte, para além de nos ter ajudado, a alguns de nós, ‘militares de Abril’, a melhor compreender a diversidade da sociedade portuguesa e a noção dos ‘justos equilíbrios’ em cada momento. Com a criação do CDS, Freitas do Amaral proporcionou a muitos setores mais conservadores da sociedade portuguesa uma plataforma de matriz democrata-cristã de participação e intervenção democrática essencial para a democracia portuguesa.

Contudo, a leitura deste seu último livro, especialmente nos capítulos relativos à sua Presidência da Assembleia Geral da ONU e à sua participação como MNE no Governo Sócrates, veio reforçar ainda mais o respeito que já sentia por esse português, apesar das nossas diferentes leituras e conceções em muitos aspetos da vida política.

Ressalto as considerações que tece quanto à forma como os EUA desprezam o ‘direito internacional’, quanto à sua postura imperial de exercício do poder, sobre os interesses de todos os outros povos, assim como à forma como pretende mandar nos seus ‘aliados-vassalos’ europeus na hostilidade para com a Rússia (designadamente quanto à Ucrânia e a sua inclusão na NATO).

No plano mais direto da posição de Portugal no mundo, destaco os impulsos que foram dados, no seu tempo de MNE, na diversificação e aprofundamento das relações com os países árabes, com os países latino-americanos de fala espanhola, no âmbito da CPLP e das relações cordiais com a Rússia, a China e a Índia. Seria uma política prudente para evitar o ‘afunilamento relacional’ com uma UE que pode vir a revelar-se um ‘buraco’.

Apesar de, sempre, Freitas do Amaral ter referido razões de saúde para a sua saída do Governo Sócrates, a minha leitura, eventualmente ‘abusada’, é de que tal política externa, ditada pelos interessas nacionais portugueses, irritou o Império ao ponto de este exigir a substituição do MNE, patriota e independente, por um seu empregadote de que não me lembro já do nome.

O livro de Freitas do Amaral mostra-nos como uma pessoa honesta pode, perante realidades que antes não conhecia, rever as suas apreciações políticas e a avaliação dos ‘amigos’, e enfrentar, com coragem, poderes hostis e desumanos, por muito poderosos que pareçam ser.

O que ainda não consegui compreender é como pessoas vindas da extrema esquerda, ‘comunistas revolucionários internacionalistas’, vêm acabar, na ‘maturidade clarividente’, como lacaios dos EUA, fazendo a estes todo o tipo de fretes, desde andar com o Guaidó ao colo a ‘dar punições’ ao Irão, arrastando a ‘geringonça’ para a maior indignidade internacional.

Desgraçados, da Europa e de Portugal, se não se defendem destes tipos...