Quem era o filho de Bin Laden que foi morto pelos EUA

Era oferecida uma recompensa de 880 mil euros por informações sobre Hamza Bin Laden, treinado por Osama para liderar a al-Qaeda. Foi morto numa operação militar norte-americana, segundo o New York Times. 

Pouco se sabe sobre como e quando morreu Hamza Bin Laden, o filho favorito do fundador do grupo terrorista al-Qaeda, Osama Bin Laden. Era oferecida uma recompensa de um milhão de dólares (880 mil euros) por informações sobre Hamza, apontado como um dos novos rostos da organização do pai, que quer recuperar o terreno perdido para o Estado Islâmico. O New York Times avançou que as forças norte-americanas terão tido um papel direto na operação que matou Hamza, e que esta terá ocorrido durante os dois primeiros anos da administração de Donald Trump, que começou em janeiro de 2017. Conheça a vida do filho favorito de Bin Laden, num perfil para o SOL, publicado em março.  

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Poucos ambientes são menos adequados a uma infância feliz que os campos de treino da Al Qaeda no Sudão e no Afeganistão. Foi neste ambiente bélico, rodeado de AK-47’s, granadas, RPG’s e talibãs prontos a morrer que cresceu Hamza bin Laden, considerado o favorito entre os mais de vinte filhos do mais infame terrorista do mundo, Osama bin Laden. As primeiras imagens conhecidas do jovem, divulgadas pouco depois do 11 de setembro, mostram uma criança sorridente, com pouco mais de 12 anos, a brincar com os destroços de um helicóptero norte-americano abatido em Ghazni, no Afeganistão. Desde então, Hamza protagonizaria uma série de vídeos de propaganda jihadista, recitando poemas em louvor dos talibãs que o rodeavam, armados até aos dentes. 

Hamza nasceu por volta de 1989, na Arábia Saudita. Seria de esperar que sua a mãe, Khairiah, a terceira mulher de Osama, uma pedopsicóloga de uma família saudita abastada, soubesse criar um ambiente mais saudável para o filho que os campos de treino. A família acabaria a ser obrigada a fugir do Afeganistão logo após a queda das Torres Gémeas e o derrube dos talibãs, tendo Osama encontrado refúgio no Paquistão, de onde continuou a montar ofensivas contra as forças da NATO, e os seus familiares se esconderam no Irão, onde uns anos depois acabariam por ser detidos pelas autoridades. Hamza passaria a maior parte da sua adolescência sob custódia, sendo-lhe concedidas condições relativamente confortáveis em Teerão. Serão deste período as imagens do seu casamento com a filha de Abu Mohammed al-Masri, um dos mais proeminentes comandantes da Al Qaeda. O vídeo do evento foi encontrado pelos Navy SEALS na casa em que foi morto Osama, em Abbottabad, no Paquistão. Mostra um casamento animado, com os convidados a rir e cantar, enquanto Hamza se mantinha reservado, falando pouco com quem o rodeava. Os confortos concedidos à família daquele que foi o terrorista mais procurado do mundo por parte de Teerão é ilustrativo da relação complicada entre a Al Qaeda, composta de sunitas, e a República Islâmica do Irão, liderada por xiitas. Osama dirigiu uma série de cartas ao Aiatola Khamenei, pedindo a libertação da sua família, acabando por consegui-la numa troca de prisioneiros, após raptar um diplomata iraniano.

Hamza conseguiria chegar ao Paquistão em 2011, na esperança de se reunir com Osama, menos de um mês antes deste ser morto. Numa carta recuperada no ataque, o jovem, agora com cerca de trinta anos, escreve ao seu pai: «Fui separado de ti quando era uma criança pequena, ainda não tinha 13 anos… Podes não reconhecer-me, as minhas feições mudaram». Hamza desabafou com o pai: «O que verdadeiramente me deixa triste, é que as legiões de Mujahidin tenham marchado e não me tenha juntado a elas». Um dos comandantes de Osama descreve o jovem como «muito doce e muito bom», cheio de desejo de ser treinado para combater, sempre «recusando favoritismos por ser filho de quem é».

Vingança O desejo de Hamza tomar a liderança na jihad do pai parece ter aumentar desde o ataque a Abbottabad. Após alguns anos sem se saber nada dele, lançou uma série de mensagens em 2016, prometendo vingar o pai, garantindo que se os norte-americanos pensavam que «podiam escapar ao castigo estavam errados». Hamza foi nomeado comandante da Al Qaeda esse ano, apesar da maioria dos analistas duvidar que venha a substituir o atual líder, o médico egípcio Ayman al-Zawahiri, num futuro próximo. Contudo, o apelido de Hamza e a sua juventude tornam-no numa ferramenta importante para a propaganda da organização, que tem sido colocada em segundo plano pela morte dos seus líderes mais carismáticos e o surgimento dos seus rivais do Estado Islâmico, para onde foi canalizada a maior parte dos jovens muçulmanos sunitas radicalizados.

No entanto, enquanto o Estado Islâmico se tornou o principal alvo das ofensivas anti-terroristas, a Al-Qaeda teve margem para se reorganizar. A organização foi obrigada a adaptar-se, abandonando um modelo mais centralizado, dirigido por antigos mujahideen. Estes combatentes veterenos, muitos deles treinados pela CIA para enfrentar a invasão soviética do Afeganistão, foram sendo mortos um por um nas diversas frentes de combate. Agora, quem assume a ribalta são as várias franchises da Al Qaeda, seções locais com autonomia quase completa, que partilham pouco mais que o nome, os contactos e alguns apoios logísticos com a organização central. É o caso da Al Qaeda do Magrebe Islâmico, sediada na Argélia, ou a Al Shaab, um grupo somali que jurou lealdade à organização em 2012. Desde 2016 que a Al Qaeda praticamente abandonou os seus esforços de organizar atentados em países ocidentais, focando-se em ganhar terreno em conflitos regionais em África e no sudeste asiático. Com o califado do Estado Islâmico em ruínas, o seu projeto político de construir um Estado territorial, em desafio aos poderes estabelecidos no Médio Oriente, perde credibilidade ante a estratégia de guerrilha global favorecida pela Al Qaeda. Nesse cenário aumenta a importância da reputação da organização para o recrutamento, tornando ainda maior o peso do apelido de Hamza, tal como o facto de ter casado com uma filha de Mohammed Atta, o principal cérebro por trás do 11 de setembro. Algo que não terá sido alheio ao recente anúncio de uma recompensa de até um milhão de dólares, oferecida pelo departamento de Estado dos Estados Unidos, por informações sobre o paradeiro do filho favorito de Osama Bin Laden, que ameaça continuar o legado do pai.