Opiniao

Ocean campus: para o mar ou para o imobiliário?

A requalificação urbana anunciada para a zona ocidental de Lisboa – entre Pedrouços e a Cruz-Quebrada é uma oportunidade para concretizar o discurso sobre a importância do rio e do mar, mas também uma tentação para a ocupação imobiliária. Veremos se se resiste à tentação e se aquele pedaço de zona ribeirinha cumprirá o potencial de afirmar a região de Lisboa como espaço de desenvolvimento da vocação marítima do país. 

Mais de 20 anos depois da última grande intervenção urbana na zona ribeirinha de Lisboa – a Expo 98 – é anunciada uma nova requalificação na margem do rio Tejo. Com uma área de cerca de 64 hectares, estende-se desde a Fundação Champalimaud, passando pela doca de Pedrouços, terrapleno de Algés, até à Cruz Quebrada, na foz da ribeira do Jamor, onde confina com um polémico empreendimento imobiliário anteriormente previsto.

O ‘Ocean campus’ – assim foi anunciada a intervenção – pretende desenvolver um ‘cluster do mar’, um espaço dedicado às atividades náuticas, às ciências marítimas e à ‘economia azul’, suportado num investimento (maioritariamente privado) de cerca de 300 milhões de euros a concretizar, faseadamente, até 2030.

Sucede que, durante a apresentação, foi também afirmada a pretensão de desenvolver um eixo de recreio, lazer e turismo marcado pela construção de ‘edifícios icónicos’ – ‘marcos da paisagem da entrada do Tejo’.

Ora, se é verdade que Lisboa carece de elementos icónicos tão explorados noutras cidades, que a concretização dos objetivos propostos implica alguma ocupação do território e que a participação de investimento privado (importante para a viabilização do projeto) implica a perspetiva de rentabilização, importa que não prevaleça a lógica da ocupação excessiva do território, especialmente em zona ribeirinha – espaço privilegiado para a vivência do espaço público e usufruto da relação com o rio.

A afirmação histórica de Portugal no mundo concretizou-se na sua relação com o mar. Nos séculos XV e XVI os portugueses determinaram o desenvolvimento mundial com a aposta no desenvolvimento científico e tecnológico ligado ao mar (à luz das condições de então), com exemplos como a cartografia e instrumentos de navegação, e na ‘economia azul’ (que então não usava essa designação), com exemplos como a indústria de construção naval e o comércio internacional.

As condições naturais de Portugal mantêm-se hoje como então. Hoje chama-se investigação científica e desenvolvimento tecnológico, mas os fundamentos são equivalentes. Hoje chama-se ‘economia azul’ e é enriquecida pelo potencial turístico e de lazer, mas os fundamentos são idênticos.

O ‘Ocean campus’ pode ser o ‘click’ que faltava para desenvolver e afirmar a região e o país enquanto referências internacionais nas atividades ligadas ao mar, na ciência e na investigação, no empreendedorismo e na economia, na exploração sustentável dos recursos, no turismo e nos desportos náuticos. Assim se privilegie a criação das infraestruturas para o efeito e se resista à ocupação imobiliária incaracterística.

Mas a requalificação da zona ribeirinha ocidental de Lisboa pode ser ainda mais: pode ser fator de promoção da vivência do rio e do mar numa comunidade habituada a voltar as costas ao rio. Deve ser um espaço desafogado e de acesso ao rio, de promoção de atividades náuticas desportivas e de lazer e da sua democratização, criando condições de acesso para todos. Deste modo cria-se também o ambiente social para que o Mar volte a ser o foco de desenvolvimento e afirmação nacionais.