Opiniao

Bloco de Esquerda reconhece que condenação de Israel é discurso de ódio intolerável (e crime monstruoso)

Há muito que nós temos defendido que o Bloco de Esquerda precisa de abandonar o discurso de ódio que importou da extrema-direita assassina nazi. Sempre, no entanto, sem sucesso. Até à presente semana.

1.O Bloco de Esquerda está em processo de mudança acentuado.

De partido de apenas e relativamente insignificantes franjas da extrema-esquerda, o Bloco pretende agora tornar-se partido mainstream. Se tal mudança significa – como, de resto, já assistimos – a um decréscimo de irreverência, de capacidade de avaliar criticamente o Governo, de abandonar o seu estatuto de partido de oposição para se tornar em mero partido da situação, traindo valores, ideias e compromissos assumidos com o seu eleitorado em matérias de políticas públicas – o que é negativo do ponto de vista da sua cumplicidade com os vícios da governação socialista -, acarreta uma virtualidade: a do Bloco de Esquerda abandonar o seu discurso de ódio contra alguns dos nossos compatriotas e amigos internacionais.

Como é público e notório, o Bloco de Esquerda tem alimentado discriminações várias contra os nossos amigos e aliados israelitas e dá fôlego, por conseguinte, à narrativa antissemita da extrema-direita. Nós aqui por diversas vezes o denunciámos: as leitoras e os leitores mais atentos lembrar-se-ão de que Catarina Martins recorreu frequentemente ao discurso e frases paradigmáticas de David Duke, o líder do KKK.

O discurso de ódio contra Israel integrava, pois, o cerne da doutrina política do Bloco de Esquerda.

2.Pois bem, esta semana, registámos um facto muito positivo, que evidencia uma evolução de pensamento (e posicionamento) político do Bloco de Esquerda.

Na sequência da tragédia do massacre de Dayton, no estado do Ohio, o esquerda.net – braço armado intelectual do Bloco na guerrilha político-comunicacional – publicou um artigo sobre as causas subjacentes à prática de actos de tamanha loucura assassina: um artigo – surpresa das surpresas! – que nós poderíamos facilmente subscrever.

Basicamente, o Bloco de Esquerda – através dos «intelectuais» ao seu serviço – acusa a plataforma online 8chain (que garante um anonimato e uma protecção reforçada aos lunáticos e criminosos, sendo mais um exemplo de como a internet se pode converter numa selvajaria incontrolável) pela motivação que promove da violência contra determinados sectores da população.

E tem toda a razão: o problema é que muitos dos aliados internacionais do Bloco são frequentadores, activos e assíduos, da referida rede social dantesca.

Esperemos, pois, que o Bloco não distinga entre os “criminosos amigos” e os “criminosos inimigos”: todos, incluindo aqueles que o Bloco afirma serem “guerreiros revolucionários democratas”, merecem a nossa mais firme condenação.

3.Dito isto, importa realçar (e reter) duas notas.

Primeiro, o Bloco de Esquerda não caiu na banalidade inconsequente e totalmente ridícula de culpar o Presidente Donald Trump pelos ataques de homicidas patológicos.

O Bloco de Esquerda recusou – num exercício de honestidade intelectual louvável – entrar nesse exercício de puro fanatismo que seria criticar o Presidente dos EUA – que prontamente, e bem, respondeu aos actos bárbaros.

Por outro lado, a (impressionante e surpreendente) lucidez política do Bloco de Esquerda mostra que até os radicais de esquerda já reconhecem méritos, virtualidades e capacidades políticas notáveis ao Presidente Donald Trump.

Mariana Mortágua, Catarina Martins e companhia mostraram, desta vez, um bom senso e racionalidade que julgávamos impossível encontrar entre os trotskistas lusitanos. Alguns jornalistas portugueses quiseram ser – na abordagem aos tiroteios assassinos de Dayton e El Passo – mais bloquistas que o próprio Bloco; isto quando já nem o Bloco acredita nas narrativas lunáticas e ridículas do… Bloco de outrora.

4.Em segundo lugar, aplaudimos a repulsa manifestada pelo Bloco de Esquerda pelo discurso de ódio à la Adolf Hitler e David Duke.

Como é público e notório, os bloquistas sempre namoraram a extrema-direita, tentando ultrapassá-los na intensidade do ódio contra o Estado de Israel, que o mesmo é dizer, contra o povo judeu e o seu direito histórico a formar o seu Estado.

O anti-sionismo mais não é, pois, que uma forma maquilhada de anti-semitismo. Noutra formulação, o anti-sionismo é a expressão ideológica do anti-semitismo, que a extrema-esquerda encontrou para recuperar o velho ódio nazi, inculcando-o na matriz do seu discurso político radical.

 Há muito que nós temos defendido esta ideia.

Há muito que nós temos defendido que o Bloco de Esquerda precisa de abandonar o discurso de ódio que importou da extrema-direita assassina nazi. Sempre, no entanto, sem sucesso.

Até à presente semana.

Na verdade, o Bloco de Esquerda parece que já aderiu à nossa tese – ou melhor, à tese que deve ser partilhada por todos os que acolhem uma ideia de humanidade, fundada na dignidade intrínseca a cada pessoa, rejeitando todos os extremismos baseados no ódio para com o outro.

É verdade, caríssimo(a) leitor(a): até já os trotskistas portugueses concordam que o anti-sionismo é uma modalidade de anti-semitismo; por conseguinte, ambos constituem discurso de ódio que deve ser combatido, política e juridicamente.

Com efeito, no texto “8chan, o canal do ódio racista que foi abaixo depois do massacre de El Passo”, publicado no passado dia 7, o Bloco de Esquerda escreve o seguinte: “Em abril, um atirador que matou uma pessoa numa sinagoga de Poway, na Califórnia, tinha colocado uma carta anti-sionista antes de passar ao ato”.

Destaque-se que o Bloco de Esquerda qualifica uma carta anti-sionista como  discurso de ódio que constituiu o leitmotiv determinante da actuação criminosa do agente que atentou contra judeus numa sinagoga na Califórnia.

Note-se que se tratou de uma “carta anti-sionista”, e não de uma “carta anti-semita”: o que significa – com toda a razão! – que o Bloco de Esquerda considera, finalmente, que o anti-sionismo é uma forma qualificada de anti-semitismo.

Que o anti-sionismo conduz à prática de crimes de ódio.

Muito bem, esquerda-net! Estamos plenamente de acordo: bem sabemos que mudaram de posição. Contudo, mudar de posição não é um acto de fraqueza; é um acto de força – moral e intelectual – que engrandece, quando passámos para o lado certo da história.

E não nos interpretem mal: não estamos a ser irónicos, nem é nossa intenção provocar-vos de forma gratuita.

 Pelo contrário, não poderíamos ser mais honestos e sinceros na nossa congratulação pelo facto de, caríssimos amigos bloquistas, terem visto a luz da decência, da dignidade, da tolerância e do personalismo.

 É sempre bom constatar que todos podemos avistar a luz (da razão, da bondade, da humanidade e da tolerância) e caminhar na sua direcção.

5.Doravante, sempre que alguém apelar ao boicote ao Estado de Israel, ao povo judeu, aos cidadãos israelitas ou expressar teorias malévolas e eivadas de anti-sionismo, o Bloco de Esquerda estará ao nosso lado na condenação de tais manifestações de discurso de ódio.

Por nosso lado, caminharemos, com muito gosto, ao lado de Mariana Mortágua na denúncia e repulsa do discurso anti-sionista, que mais não é – como o Esquerda.net escreveu – uma forma de anti-semitismo, disfarçada e qualificada.

Puro discurso de ódio, portanto, censurado pelo Direito pátrio.

Perante o reconhecimento pelo BE de que o discurso anti-sionista é discurso de ódio (no texto que citámos supra, o BE coloca os anti-sionistas ao lado dos que professam actos monstruosos, como o racismo e a pedofilia), não nos passa pela cabeça que os bloquistas possam alguma vez, no futuro, apelar ao boicote a Israel ou a cidadãos israelitas, como fizeram na Eurovisão ou em diversas conferências em instituições académicas dominadas pelos esquerdistas…

Se o fizerem, a Comissão para a Igualdade e a contra a Discriminação Racial terá que actuar contra os bloquistas, aplicando a nova doutrina (sábia e lúcida) do próprio Bloco de Esquerda…

Amigos do Bloco da Esquerda: sejam, pois, bem-vindos ao lado certo da história, da decência, da lucidez, da tolerância e da humanidade! Combateremos lado a lado o anti-sionismo: estamos certos que não quererão ficar do lado do atirador da Sinagoga de Poway, Califórnia, que escreveu uma carta anti-sionista (como bem escreveu o Esquerda.net), matando uma pessoa e ferindo várias outras…

Temos de rejeitar – da esquerda à direita – o anti-sionismo e o  discurso de ódio! O Esquerda.net já deu o seu primeiro passo! Bem-haja!

joaolemosesteves@gmail.com