Sociedade

A330. ‘Não somos ratos de laboratório!’

Continuam a ser reportados casos de forte indisposição a bordo dos novos A330. Testemunho de uma hospedeira da TAP foi partilhado nas redes sociais. Notícia do SOL deu origem a nota interna, com a companhia a pedir contenção aos trabalhadores e a lembrar-lhes regras de conduta.

 

Seis meses depois de ter sido detetado o primeiro caso de enjoos nos A330, os novos aviões da TAP continuam a ser reportados casos de tripulantes que se sentem mal durante os voos. Comissários e hospedeiras dizem que querem fazer-se ouvir e exigem que a companhia aérea faça algo para travar os problemas.

O mais recente testemunho, a que o SOL teve acesso, é o de uma hospedeira que viajou no sábado de Lisboa para Toronto e que entrou em pânico ao sentir que não conseguia respirar bem: «Ontem fiquei sem conseguir respirar no crew rest [local onde a tripulação descansa], o que me levou a ter um ataque de pânico a bordo que, felizmente, eu acabei por conseguir controlar», descreve a funcionária da TAP, que diz que já reportou a situação a entidades superiores.

No texto, a hospedeira da companhia aérea descreve os sintomas que sentiu na altura: «Náuseas, tonturas, sensação de desmaio, respiração muito dificultada, como se o ar estiivesse cheio de grão e não houvesse ar limpo para eu respirar». «Tive muitas dificuldades em subir as escadas do crew rest. Estava sozinha, fui a última a sair - por favor saiam sempre acompanhados, nunca vão para o crew rest sozinhos, nem fiquem lá sozinhos. Isto trata-se de segundos! Não estava a conseguir destrancar a porta do crew rest (provavelmente por estar desnorteada e fraca) e mais uns segundos poderia ter caído ali e estaria sozinha», alerta a hospedeira, que partilhou esta mensagem num grupo de WhatsApp.

Ao conseguir sair da zona, a funcionária da companhia aérea dirigiu-se para a galley - espaço onde preparam as refeições - para procurar uma zona onde conseguisse respirar melhor. Mas a situação piorou. «Não sentia ar suficiente a passar na zona das portas dois! Sentia-me mais apertada e fui, então para as portas um, onde notei diferença», descreve. 

No dia a seguir a este episódio, a hospedeira continuava a apresentar alguns sintomas: «[durante o voo] Pedi para me administrarem oxigénio e açúcar. Estabilizei ao fim de algum tempo (não tenho noção de quanto), mas até hoje de manhã [domingo] sentia-me bastante exausta, confusa, apática e com alguma dificuldade em respeirar, apesar de estar controlado (respirava e ainda respiro ‘às prestações’ como se o ar não passasse bem nas minhas vias respiratórias)».

Segundo o testemunho, esta foi a terceira pessoa num período de dois meses a passar por esta situação neste avião em particular. «Acredito que existam mais casos desconhecidos», acrescenta.

«O importante aqui é a passagem de informação sem medos, é a partilha das nossas experiências, principalmente as que prejudicam a nossa saúde, que é o bem mais valioso que temos. Reportem sempre! Façam análises por fora! Façam-se ouvir! Não somos ratos de laboratório!», conclui.

Notícia motiva nota interna

A divulgação de testemunhos como este não são bem vistos pela companhia aérea: depois de o SOL ter noticiado que os pilotos da TAP estavam a aterrar com máscaras colocadas, a transportadora emitiu um comunicado interno no qual apela ao pessoal de voo para não publicar nas redes sociais o que se passa dentro dos aviões.  «A notícia do Jornal SOL da passada sexta-feira [deve ler-se sábado], edição 675 de 3 de agosto de 2019, veio expor alguns perigos que decorrem da utilização das redes sociais, dos riscos que se assumem pela disseminação de informação sensível, da responsabilidade que a todos deve assistir aquando da sua utilização e da forma como a informação pode ser descontextualizada», lê-se na nota a que o SOL também teve acesso. Em causa está a manchete da semana passada, na qual o SOL divulgou uma imagem de dois pilotos da TAP que aterraram num A330, o ‘avião dos enjoos’, com máscaras de emergência colocadas. A imagem divulgada nas redes sociais, segundo fontes da companhia aérea que não quiseram ser identificadas, não ilustra apenas um caso isolado: «Alguns pilotos já chegaram a dizer que tencionam falar superiormente para expressar a sua preocupação em relação ao que se está a passar».

Confrontada pelo SOL, a TAP confirmou o uso das máscaras, dizendo que foram seguidos todos os passos essenciais à segurança da tripulação e dos passageiros: «Não houve qualquer risco de segurança para clientes, tripulantes ou avião. As máscaras foram corretamente usadas, a título meramente preventivo e em conformidade com os procedimentos operacionais estabelecidos face à incerteza da origem do odor». «O avião aterrou em total segurança, sem necessidade de qualquer prioridade ou acompanhamento especial, não tendo sido registados quaisquer efeitos posteriores em tripulantes ou passageiros», acrescentou a companhia aérea, frisando que «em nenhum das centenas de voos feitos até à data em A330neo houve qualquer plano de aterragem alterado ou declaração de emergência relacionada com episódios de odores». 

Agora, a TAP está a pedir aos seus funcionários para que não partilhem conteúdos deste género nas redes sociais. A companhia aérea admite que «a todos assiste o direito de livremente aderir e utilizar as redes sociais assim como o dever de fazê-lo de forma responsável», mas apela «ao elevado sentido de responsabilidade, individual e coletiva, na utilização das numerosas plataformas disponíveis no mercado».

Para justificar esta posição, o diretor de Operações de Voo (DOV), que assina a nota, cita o código de ética da companhia aérea: «A Empresa, através do Código de Ética e Boa Conduta Empresarial elucida que ‘A atuação por parte dos colaboradores do Grupo TAP deverá pautar-se por sentido de responsabilidade norteado por regras, valores, princípios e práticas eticamente corretos, que devem ser observados, defendidos e cumpridos por todos’ e ainda, que todos os colaboradores do Grupo TAP deverão ‘Adotar uma conduta responsável que os prestigie a si próprios e ao Grupo TAP, usando de reserva e discrição e prevenindo quaisquer ações suscetíveis de comprometer a reputação da Empresa na qual desempenham funções’» . 

«O Regulamento das Operações de Voo (ROV) define claramente alguns princípios a observar no particular da captação e utilização de imagens, a saber, ‘No entanto, não é permitido a captação de imagens de tripulantes ou passageiros, salvo com expressa autorização dos envolvidos. Neste contexto, durante o PSV e quando ao serviço da empresa, os tripulantes não se devem envolver neste tipo de atividades lúdicas e de lazer, exceto em situações de caráter extraordinário e devidamente justificadas. Devem ainda abster-se de publicar ou partilhar publicamente fotografias ou filmagens que possam de alguma forma afetar a imagem ou credibilidade da TAP Air Portugal ou dos seus colaboradores. Na dúvida, deve ser obtida a necessária autorização junto das Chefias diretas’», acrescenta a TAP na nota interna, que data de 7 de agosto.

A verdade é que o problema dos enjoos continua e ninguém sabe explicar porquê. 

A presidente do Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC), Luciana Passo, confirmou que «o número de casos baixou, mas continuam a ser detetadas situações.

Enjoos e sonolência

«Aos tripulantes nada é dito. Por isso, resolvemos fazer por nós - e temos autorização da TAP - os testes. Temos uma entidade certificada, que tem tudo para que seja possível realizar análises ao sangue e urina e depois uma oximetria [exame que serve para medir a saturação do oxigénio do sangue], para tentar perceber o que é que se passa. Alguns exames vão ser feitos em agosto e outros em setembro», explicou a responsável ao Jornal i.

Luciana Passo aproveitou ainda para denunciar outro problema nos A330, que representa uma «falha grande na segurança dos tripulantes»: «Acontece que chegam a trabalhar quatro tripulantes na zona de trás do avião e se houver uma emergência, uma instabilidade, turbulência que não seja esperada e que seja de intensidade moderada a severa, é necessário as pessoas sentarem-se e apertarem imediatamente o cinto de segurança. Para que todos estejam em segurança, é necessário que alguns tripulantes atravessem várias filas a correr para chegarem a um sítio onde se possam sentar». Isto porque os novos aviões não têm lugares suficientes para o número de tripulantes que estão na parte de trás do avião. «Este é um avião novo, que veio da fábrica para ser estreado pela TAP. Era conveniente que tivessem tido em conta essa especificidade e que pensassem na segurança dos tripulantes durante os voos. Estamos a tentar ver o que a TAP vai fazer, sabendo nós, desde logo, que vai ser complicado, porque tudo o que implica mexer no interior ou exterior de um avião acarreta custos», explica. 

Um dos sintomas que muitos passageiros destes aviões têm testemunhado é que dormem muito mais durante a viagem. A explicação que lhes pode ser dada é que, existindo menos oxigénio na cabine, a sonolência aumenta e daí dormirem muito mais tempo.