Desporto

João Rodrigues. O menino que nasceu numa bicicleta fez-se homem e é o Rei da Volta

Uma das edições mais renhidas da história da Volta a Portugal terminou com os Aliados em ebulição com a vitória de um jovem que representa desde 2016 a W52-FC Porto, mas que não troca por nada o conforto do Faz Fato, a pequena localidade da serra algarvia onde viveu toda a vida.

Dizem os entendidos que a 81.ª edição da Volta a Portugal, aquela que terminou no passado domingo no Porto, foi uma das mais especiais da história. Joaquim Gomes, atual diretor da Volta, havia sido o último a festejar nos Aliados, já no longínquo ano de 1989, e não tem grandes dúvidas. «Alguém me desminta se houve alguma vez o que aqui vimos hoje em termos de público», disse no fim de uma prova que viu pela primeira vez dois ciclistas chegarem empatados à última etapa.

No fim, uma Avenida dos Aliados em completa ebulição explodiu de felicidade. E tudo por causa de João Rodrigues, um menino algarvio de 24 anos que protagonizou uma Volta incrível - coroada com o contrarrelógio final irrepreensível - e que garantiu a quarta vitória consecutiva à W52-FC Porto (sétima seguida para o conjunto nascido em Sobrado, anteriormente designado OFM-Quinta da Lixa e W52-Quinta da Lixa), terminando com 27 segundos de vantagem sobre Jóni Brandão, da Efapel.

«Nunca tinha ido ao Porto. Fui pela primeira vez para ver a etapa final. Estava um ambiente que nem dá para descrever, era uma onda de som ensurdecedora que se gerava de cada vez que se aproximavam ciclistas da W52-FC Porto», conta ao b,i. Irene Rodrigues, a mãe do novo rei do ciclismo português, ainda a tentar recompor-se de uma experiência «incrível». «Senti-me noutro planeta! Quando as pessoas à minha volta começaram a perceber que eu era a mãe do João, abriam alas para eu passar e poder ver melhor a corrida, cumprimentavam-me, davam mensagens de apoio. E no fim, as felicitações, pessoas a abraçar-me... Foi superior ao que tinha sonhado. Esta Volta foi especial, dizem que foi o percurso mais difícil de sempre e o facto de ter sido mesmo até à última, com dois corredores empatados pela primeira vez... Foi um sabor a dobrar», admite a progenitora.

Da serra de Tavira para a consagração Tudo aqui foi inesperado - pelo menos para o João Pedro, como é tratado no seio da família. «Ele não sabia que eu ia vê-lo, foi uma surpresa. O [Samuel] Caldeira [colega de equipa] é que me viu e lhe disse ‘Está aqui a tua mãe!’ Ele deitou-se no chão para me dar um beijo e foi lá à vida dele (risos)», conta a mãe Irene, que só nesse momento se apercebeu do que o feito do filho representava em termos mediáticos. «De repente, enquanto ele me dava o beijo, tinha máquinas fotográficas e câmaras em cima de mim! Não gosto muito desta exposição, de aparecer. Sou fã do Facebook, mas é para mim. De um dia para o outro choveram pedidos de amizade (risos), mensagens e telefonemas ainda nem consegui responder a todos! Mas claro que nos sentimos acarinhados pelas pessoas, e muito orgulhosos e felizes», salienta, com o b,i. a ter a oportunidade de testemunhar, ao longo da conversa, uma mão cheia de tavirenses a felicitar a família e a manifestar o seu orgulho no feito do menino da terra.

Sim, João Rodrigues é natural de Tavira, apesar de uma corrente que se gerou nos dias seguintes a dá-lo como farense. «O João nasceu em Faro e foi registado na freguesia da Sé, mas toda a vida viveu no Faz Fato [pequena localidade no interior da serra e pertencente à freguesia da Conceição de Tavira], como ainda hoje acontece - só não está em casa quando tem estágios no norte ou em Espanha. E diz que só sairá um dia de casa se os pais o puserem fora (risos)», explica Irene, dando conta de um «bom menino, calminho, que nunca foi problemático e sempre teve muita facilidade em fazer amigos».

A escola é que não fazia parte dessa lista de amizades: «Nunca gostou muito de estudar, aliás, ele não estudava nada, as notas que tinha nos testes eram só com o que fixava das aulas. Mas nunca chumbou, isso fazia parte do nosso acordo com ele: podia dedicar-se ao desporto, mas tinha de acabar o 12.º ano». E assim foi: depois de cumprir o primeiro ciclo no Faz Fato e o segundo e terceiro em Tavira, João Rodrigues foi para Vila Real de Santo António tirar um curso profissional de energias renováveis, equivalente ao ensino secundário, que concluiu com sucesso. «O que ele queria era desporto, mas essa área deixou de haver em Tavira, só havia para os lados de Albufeira, e acabou por escolher aquele curso porque tinha saída e tinha uma grande componente prática - que era a parte onde ele tinha melhores notas», revela a mãe.

Então e a paixão pela bicicleta, onde entra nesta história? Pois bem: entra quase no início. «Oferecemos-lhe a primeira bicicleta aos três anos, ainda com rodinhas, e ele quis logo tirá-las, disse que não precisava daquilo para nada. Parece que nasceu em cima de uma (risos)! Nessa noite até perguntou se podia dormir com ela. E gostava muito de dar boleia à irmã, que é 22 meses mais nova. Eu dizia que aquilo era muito peso para ele, porque o João Pedro era magrinho - e isto tendo ele quatro ou cinco anos -, mas ela respondia ‘Ele gosta!’ e lá iam! E foi ele que ensinou a irmã a andar de bicicleta», conta Irene Rodrigues, assumindo que a cabeça do filho esteve sempre direcionada unicamente para o desporto: «A irmã, por exemplo, dizia que queria ser veterinária, mas ele só queria andar de bicicleta e jogar à bola! Jogou futebol no Ginásio [Clube de Tavira] do quinto ao nono ano. Quando passou para o décimo, o Lusitano [de Vila Real de Santo António] queria contratá-lo, mas o Ginásio não o deixou sair. Ele estava a estudar em Vila Real e não conseguia conciliar os horários com os treinos e os transportes, por isso acabou por deixar o futebol e dedicar-se só ao ciclismo. E também gostava muito de natação e atletismo. Ele podia ter seguido qualquer desporto, porque era bom em todos».

Tudo começou com um projeto pioneiro O primeiro contacto de João Rodrigues com o ciclismo ‘de competição’ deu-se em 2003, tinha apenas nove anos, através do projeto O Ciclismo na Escola, uma iniciativa do Clube de Ciclismo (CC) de Tavira - ainda hoje o mais antigo do pelotão internacional, agora a competir sob a designação Sporting-Tavira. «O projeto pretendia conciliar a vertente técnica com a prevenção rodoviária e era essencialmente para tentar arranjar miúdos para o ciclismo. Depois das primeiras impressões, selecionávamos os que nos pareciam ter mais capacidades para se tornarem federados, e o João foi dos que mais se destacou desde o início», explica ao b,i. Telmo Santos, então diretor-geral do CC e coordenador técnico de um projeto «pioneiro». «Mais do que treinador, era uma espécie de professor que dava a iniciação ao ciclismo», salienta.

Telmo Santos acabou por deixar o CC poucos anos depois, mas mantém ainda hoje a proximidade com os atletas - entre os quais João Rodrigues. «Sempre o apoiei, particularmente numa fase de indefinição da carreira, e fiquei orgulhoso pela decisão que ele tomou e pelo atleta que se tornou. Tavira devia valorizar mais os seus atletas», adverte, num lamento partilhado pela família do novo campeão da Volta a Portugal. «No fim da primeira Volta em que ele participou, ainda como neoprofissional, teve convites de várias equipas. Ficou até à última à espera do Tavira, mas havia uma grande indefinição em relação ao patrocinador e à composição da equipa e ele acabou por se decidir pelo FC Porto», diz a mãe Irene, corroborada pela tia Cidália: «Parece que aqui se valoriza menos as pessoas da terra, preferem ir buscar grandes nomes, bem pagos, mas que depois na prática rendem menos que os de cá».

E foi assim que, em 2016, João Rodrigues deu o primeiro passo rumo à glória atingida no último domingo. Inesperada? Se calhar, nem tanto. «Do que sei que ele tem trabalhado, sabia que tinha potencial para vencer. Nunca teve aqueles resultados de grande destaque na formação, mas trabalha muito, aplica-se muito e tem sido sempre muito bem acompanhado. Os resultados dependem de como trabalha a equipa: o Alarcón lesionou-se, o Veloso teve um azar, o João fica à frente e a equipa de imediato trabalhou para ele. E se o fizeram, é porque sabiam que tinha condições para ganhar. Na Volta ao Algarve (que atualmente é bem melhor que a Volta a Portugal, com ciclistas da World Tour), ele já tinha sido o melhor ciclista português e o melhor de uma equipa portuguesa. Venceu a Volta ao Alentejo, ganhou na Torre e aí mostrou que era um sério candidato. E depois fez o contrarrelógio que se viu», frisa Telmo Santos, garantindo acreditar que o ainda jovem atleta pode chegar bem mais longe: «Agora a responsabilidade cresce e espero que mantenha os pés bem assentes no chão - pelo que conheço dele, vai acontecer. É um miúdo da serra, de famílias humildes, e de certeza que vai manter a mesma postura. É humilde, trabalhador - não se chega a este patamar sem trabalhar muito -, de fácil trato, gosta de ouvir conselhos e já provou que é possível ganhar. Se ficar no FC Porto ou for para outra equipa que participe na Volta, o objetivo tem de ser vencê-la novamente, mas eu acho que muito dificilmente se manterá em Portugal. Mostrou já ser um ciclista completo, que nunca rejeitou ajudar os colegas, e tem o sonho de participar numa Volta de maiores dimensões. Se outros conseguiram, porque não?»

Uma das palavras mais utilizadas para descrever João Rodrigues é «humildade». Telmo Santos utiliza mesmo um exemplo concreto para identificar esse traço característico do novo herói algarvio: «A imagem dele em cima do pódio a apontar para o cartaz com a fotografia do Alarcón mostra a pessoa que ele é». A família concorda. «Mesmo nos festejos, as palavras dele foram sempre de elogios aos colegas e ao treinador [Nuno Ribeiro], de quem ele gosta muito. Valoriza sempre quem o ajuda, não se importa de trabalhar em prol do sucesso dos outros», realça a tia Cidália, que teve uma crença férrea na vitória desde o primeiro dia: «Dizíamos-lhe, nós e os amigos: ‘Esta Volta é tua!’ O meu marido até ganhou um almoço numa aposta com amigos - se bem que agora ainda vai ter prejuízo, porque tem de pagar copos pela vitória do sobrinho (risos)!»

Em casa, este cenário começou a traçar-se já há alguns anos. «Agora já percebo minimamente de ciclismo, quando ele começou aquilo era chinês para mim (risos). Mas comecei a seguir com mais atenção, a ouvir o que as pessoas diziam e a perceber que ele tinha perfil para a coisa. Quando ele subiu a profissional e foi à primeira Volta a Portugal percebi que podia ir mais longe, pela seriedade, o sentido de compromisso, a vontade de abraçar a profissão. Ele dizia-me ainda há pouco tempo: ‘Ainda estou em crescimento, em amadurecimento. Se ganhar uma Volta é aos 26 ou 27 anos!’ Mas ali, sentiu aquela necessidade de disparar e conseguiu», atira a mãe, que agora até já consegue debruçar-se sobre as qualidades do filho enquanto ciclista: «Ele era trepador. Não é sprinter, mas tem trabalhado muito para se tornar um ciclista completo, já tem feito vários contrarrelógios bons. Não é a especialidade dele, mas está a aperfeiçoar-se cada vez mais. Já no Alentejo ganhou assim».

Uma enciclopédia que namora... pela calada «Discreto, mas nada tímido nem envergonhado», João Rodrigues sabe acima de tudo «adequar o comportamento a cada situação». «É mais maduro do que parece, sabe avaliar muito bem cada momento. Não é de falar muito, nunca fala dele como se fosse o maior, não é de gabarolices», salienta Irene, realçando ainda o facto de não haver qualquer relação prévia da família Rodrigues com o ciclismo. Ao contrário do que acontecia, por exemplo, com a caça. «Gostava muito de ir com o pai quando era mais novo. Ele não ia caçar, ia só ver, mas era aquela coisa da aventura. Tinha uma roupa camuflada, punha a cartucheira ao ombro e lá ia!», revela a mãe sobre o filho que é também «um bom garfo». «Adora os folares da tia», atira Cidália, frisando no entanto que «agora não pode ser, porque tem de ter sempre muito cuidado com a alimentação».

Não dispensa saídas à noite com os amigos - «quando pode, claro», diz a mãe. E namoradas? «Isso é que nunca lhe conhecemos nenhuma. Vamos ouvindo aqui e ali, mas nunca nenhuma nos foi apresentada oficialmente. É muito discreto», referem mãe e tia. Os tempos livres são passados «a treinar e a ver desporto». «Grava tudo, a Volta a Espanha, a França... e é fanático por futebol também. Sabe tudo sobre futebol e ciclismo, os colegas nas viagens até brincam com ele. Qualquer coisa que têm dúvidas em relação a datas ou equipas, dizem logo: ‘Pergunta ao Rodrigues!’, que é como ele é conhecido na equipa. Ou Joãozinho, também lhe chamam assim», conclui a progenitora, sempre com indisfarçável orgulho no seu JP.