Viver para Contar

Ai, esta pena de mim

Só na família monogâmica a herança é possível: porque se sabe a quem os filhos pertencem. E a sua criação ganha outra qualidade e estabilidade: as crianças crescem entre um pai e uma mãe, dentro da sua propriedade. Não andam em bolandas, daqui para ali, no meio de bandos sem eira nem beira.

A tristeza de Amália Rodrigues não é caso único entre gente do espetáculo. Quantas estrelas idolatradas por muitos, invejadas por milhões, são infelizes?

Ouvi por estes dias uma comovente entrevista de Amália Rodrigues. Em que a fadista pedia desculpa a Deus por, tendo-lhe este dado tudo, nunca ter conseguido ser feliz. Note-se que Amália não culpava Deus pela sua infelicidade. Pelo contrário – culpava-se a ela. Por não lhe faltar nada e apesar disso não ser capaz de ultrapassar a angústia que a consumia.

Esta pungente confissão torna mais compreensíveis as letras de algumas das suas canções. Canções que interpretou, que foram grandes sucessos, mas cujas letras também escreveu e que ressumam essa tristeza. São disso exemplo a ‘Estranha Forma de Vida’ ou ‘Ai, Esta Pena de Mim’.

A primeira reza assim:

Foi por vontade de Deus

Que eu vivo nesta ansiedade

Que todos os ais são meus

Que é toda minha a saudade.

Foi por vontade de Deus

Que estranha forma de vida

Tem este meu coração

Vives perdido entre a gente

Teimosamente sangrando

Coração independente.

E a segunda:

Ai, esta angústia sem fim

Ai, este meu coração

Ai, esta pena de mim

Ai, a minha solidão

Ai, esta grande ansiedade

Ai, este não ter sossego

Ai, tudo que não entendo

Ai, o que entendo e não quero.

A tristeza de Amália Rodrigues não é caso único entre gente do espetáculo, pelo contrário.

Quantas estrelas idolatradas por muitos, invejadas por milhões, são infelizes? Quantos cançonetistas, atores, etc., têm o público a seus pés e vivem numa profunda tristeza?

Direi mesmo que, no mundo do espetáculo, do show business, da televisão, a dificuldade é mesmo ser feliz. Porquê? Porque a felicidade não se conquista com a fama nem se compra com dinheiro. Essas pessoas parecem ter tudo mas falta-lhes o essencial. E qual é o essencial? O essencial, para muita gente, é ter uma família ‘normal’. Porque uma família não representa apenas o conforto do lar, os pais, filhos e netos – significa também a primeira forma de integração do indivíduo na sociedade.

Sem ela, isolado, o indivíduo fica só perante a sociedade. E isso gera um sentimento de insegurança, de fraqueza, muitas vezes de angústia – para lá da inevitável solidão.

É curioso constatar que os tiranos tiveram com frequência infâncias traumáticas. Perante condições adversas na infância, as pessoas ou se apagam ou querem desforrar-se e dominar os outros, tiranizá-los.

Dito isto, torna-se fácil perceber que a desagregação da família a que estamos a assistir terá terríveis consequências no futuro – sendo mais um sinal da decadência civilizacional.

Note-se que a ideia de família, como a concebemos, deu muito trabalho a criar e a consolidar. Milénios. Os povos nómadas andavam a vaguear de terra em terra e a promiscuidade era enorme. Só quando os povos se tornam sedentários é que começa a construir-se o conceito atual de família. A família que cria os filhos. A família que cuida da terra e a amanha. A família que transmite a propriedade de pais para filhos. A família onde há organização das tarefas e cada um desempenha o seu papel.

Só na família monogâmica a herança é possível: porque se sabe a quem os filhos pertencem. E a sua criação ganha outra qualidade e estabilidade: as crianças crescem entre um pai e uma mãe, dentro da sua propriedade. Não andam em bolandas, daqui para ali, no meio de bandos sem eira nem beira.

É sobre esta estabilidade familiar que se constroem as sociedades modernas. E é sobre as suas ruínas que se dará o desmoronamento da civilização ocidental.

De facto, a desagregação das famílias que hoje observamos já está a ter consequências desastrosas – e cada vez será pior. As crianças deixam de ter estabilidade. As heranças complicam-se. As economias domésticas e a divisão das tarefas também. A solidão aumenta. As pessoas envelhecem sozinhas e sem apoio. Os crimes chamados passionais crescem assustadoramente. É todo um mundo que cai.

A conquista civilizacional que a família representou entrou em crise. Começou lá fora e chegou cá. Amália Rodrigues, pela forma como se impôs, pelo mito que representou, nunca conseguiu ter uma família ‘normal’. Diz-se que teve paixões, casou com um brasileiro ao qual nunca deu muita importância, mas nunca teve um contexto familiar.

Era uma mulher perante o mundo, isolada, vivendo a sua enorme solidão. Os outros celebravam-lhe o talento – mas de dentro dela nunca veio a felicidade.

Ai, esta grande ansiedade

Ai, este meu coração

Ai, este não ter sossego

Ai, a minha solidão.