Desporto

Gigi Becali. "Dou cinco milhões de dólares para acabar com os homossexuais na Roménia"

Após a primeira mãodo playoff de acesso à fase de grupos da Liga Europa, o dono do Steaua assegurou que cortava a cabeça se o “fraco” Vitória de Guimarães marcasse um golo no segundo jogo. Racista, xenófobo, machista e homofóbico, Gigi Becali é uma das personagens mais controversas da Roménia – e do mundo do futebol em geral.

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“Vamos vencer em Guimarães por 2-0. A equipa deles é demasiado lenta, não tem valores individuais, não tem qualquer hipótese de nos vencer. Se nos marcarem um golo, corto a cabeça. Não têm hipóteses de nos marcar, nem que joguemos três dias seguidos. Não têm nada, nada”. Se havia seguidores do fenómeno futebolístico em Portugal que nunca tinham ouvido falar do nome Gigi Becali, estas declarações, ditas após o nulo conseguido pelo Vitória de Guimarães no terreno Steaua de Bucareste, na semana passada, na primeira mão do playoff de acesso à fase de grupos da Liga Europa, servem perfeitamente como cartão de apresentação.

Palavras, aliás, que já tiveram sequência após a jornada do último fim de semana, na qual o Steaua perdeu por claros 4-0. “O Vitória de Guimarães é bastante pior que o Gaz Metan. Parecem o Concordia Chiajna [despromovido na última temporada]. Se jogassem na Roménia lutavam para não descer, não vão conseguem vencer-nos”, disparou o proprietário de um clube histórico na Roménia e na Europa (venceu a Taça dos Campeões Europeus em 1985/86), mas que passa por uma fase conturbada... precisamente desde que passou para as mãos de uma das mais controversas personalidades da sociedade romena.

Fortuna obscura George “Gigi” Becali, nascido há 61 anos na localidade romena de Vadeni, é um homem sem filtros. De origens humildes, tornou-se milionário no fim da década de 90, através de um negócio imobiliário pouco claro a envolver o exército e o Governo de então – e pelo qual seria condenado a três anos de prisão efetiva em maio de 2013. Por essa altura, tornou-se acionista do Steaua, acabando por comprar o clube na totalidade em 2003, e também uma personalidade política, candidatando-se às eleições legislativas em 2000 pela Liga das Comunidades Italianas na Roménia. De 2004 a 2012, liderou o partido Nova Geração Democrata-Cristã, pelo qual foi candidato à presidência da República, e chegou ao Parlamento Europeu em 2009 e ao Parlamento romeno em 2012 – viria a abandonar o cargo poucos meses depois, devido à condenação referida anteriormente.

Ortodoxo e ultra conservador, não se furta a declarações públicas de cariz xenófobo, racista, homofóbico e machista – a comunidade LGBT romena atribuiu-lhe o “galardão” de “Personalidade mais homofóbica da Roménia” em 2006. Poucos meses depois, viria a dizer que, se um dia fosse eleito para liderar o país, fechava todos os bares e discotecas gay e criava bairros especiais “para que eles nos deixem em paz”, e ainda hoje o tema que passa no estádio se o Steaua ganhar um título é qualquer um menos o tradicional We Are the Champions, banido por ter sido “escrito por um homossexual”.

Mas há mais – muito mais. “Não gosto de pretos, mas não posso fazer nada, pois ele é um jogador bom demais para o deixarmos com os húngaros”, dizia em 2008, após contratar o avançado português António Semedo ao Cluj. Dois anos antes, respondeu assim ao ser questionado sobre o alegado interesse de Bétis e Sevilha no guarda-redes luso-angolano Carlos Fernandes: “Pago 100 mil dólares a quem o levar daqui!” Em 2010, despediu o técnico Ilie Dumitrescu por o considerar “muito muçulmano” – a rapidez com que muda de treinador é, de resto, uma das suas imagens de marca. “Quem manda aqui sou eu, isto não é uma democracia!”, disse já várias vezes, como o comprova esta temporada, tendo já trocado Bogdan Andone por Bogdan Vintila.

Acusado de desvios de dinheiro, participação em esquemas de apostas desportivas ilegais e até rapto, dizem ainda que em 2005 terá encomendado um quadro inspirado pela Última Ceia de Leonardo da Vinci, no qual aparece no lugar de Jesus, rodeado de 11 jogadores e do treinador de então. Gigi garante que se tratou unicamente de uma oferta de um admirador, na mesma medida em que promete abandonar o desporto se a UEFA alguma vez o obrigar a criar uma equipa feminina no Steaua: “As mulheres não foram feitas para jogar futebol, isso é contra as ideias de Deus. O corpo feminino foi criado para ser belo e atrair o sexo oposto!”

Já esta temporada, voltou-se para mais um jogador português: Diogo Salomão, que em tempos foi visto como uma grande promessa do Sporting. Contratado há mês e meio, o extremo luso foi brindado com estas declarações do dono do Steaua após realizar somente quatro jogos: “Não sei quando o voltaremos a ver Salomão jogar. Agora que outros jogadores voltaram de lesão, ele que vá com Deus!” Curiosamente, o atacante português já atuou depois destas palavras de Gigi Becali, cumprindo os 90 minutos no tal desaire sofrido em casa do Gaz Metan.

No berço ninguém treme Como se pode ver, o rol de tiradas polémicas de Gigi Becali é infindável, e desta vez tocou ao Vitória de Guimarães. Ainda assim, os vimaranenses não atribuem especial importância ao assunto, como se pode perceber pelas palavras do técnico Ivo Vieira e do capitão Douglas na antevisão da partida desta noite, no Estádio D. Afonso Henriques. “Pouco me importa o que dizem ou especulam. Estamos muito focados no jogo e no que vai acontecer em campo. Vamos dar uma resposta é aos nossos adeptos, à nossa claque”, frisou o treinador; “É a opinião dele, pode falar o que quiser. O nosso papel é trabalhar bem, preparar o jogo e se temos de dar alguma resposta, tem de ser dentro de campo. Sabemos o que temos a fazer”, corroborou o guarda-redes, que no domingo completou 200 jogos com a camisola vitoriana.