Internacional

Novo impasse em Itália

Movimento 5 Estrelas quer manter política migratória de Salvini. Di Maio mostra-se intrasigente no programa de Governo e ameaça com novas eleições. 

Luigi Di Maio, líder do Movimento 5 Estrelas e o homem que fez finca-pé ao Partido Democrático para que o primeiro-ministro demissionário, Guiseppe Conte, continuasse ao leme do Governo italiano, tomou uma posição aparentemente irredutível nas negociações entre o seu partido e a formação de centro-esquerda. 

Uma nova reviravolta na crise política italiana, já que, até quinta-feira, a coligação entre o M5S e o PD parecia ter pernas para andar.

«Apresentámos alguns pontos que ao Presidente [primeiro-ministro] Conte que consideramos essenciais. Os nossos pontos programáticos são claros. Se forem incluídos no programa de Governo, então podemos avançar. Se não, é melhor voltarmos a ter eleições, e, acrescento, o mais rápido possível», ameaçou Di Maio no seu discurso, depois da primeira ronda de negociações com Conte. 

Nos pontos programáticos que o líder do M5S apresentou ao primeiro-ministro demissionário, nesta sexta-feira, estão prioridades já antes avançadas por Di Maio, tais como a redução de deputados no Parlamento ou uma maior flexibilidade orçamental que evite a subida do IVA - a qual Conte quer evitar, prevendo que a nova Comissão Europeia flexibilize as regras orçamentais, ou então terá que encontrar 23 mil milhões de euros noutro lado. 

No entanto, o líder do M5S mostra-se agora intransigente e pede que todas as medidas (20) do seu partido entrem no programa de Governo. 

No que parece não querer mesmo recuar é na política imigratória implementada por Matteo Salvini, ministro do interior do antigo Executivo e líder da extrema-direita. 

Em causa estão os decretos de segurança de Salvini - que o PD quer ver completamente revogados - que visam multar as organizações não-governamentais que resgatarem refugiados no mar Mediterrâneo, num valor até um milhão de euros, e que as proíbe de navegar em águas territoriais italianas.

O secretário-geral do PD, Nicola Zingaretti, apontou que a revogação desses decretos é um pedido expresso do Presidente da República, Sergio Mattarella, pois este prefere que os decretos estejam de acordo com os tratados internacionais sobre o resgate de migrantes no mar. 

Di Maio recusa revogação de decretos

Mas Di Maio contrariou os argumentos de Zingaretti e disse que não valia a pena negar os últimos 14 meses de Governo: «Mudar os decretos não faz sentido nenhum». Ou seja, defendeu que as observações do Presidente deviam ser «tidas em conta», mas sem que isso mude «o alcance das medidas». 

Os dois partidos acordaram tentar formar uma coligação de Governo na quarta-feira. 

Embora nunca se tenham entendido anteriormente - e o M5S sempre foi muito hostil em relação ao PD -, a perspetiva de Salvini se tornar primeiro-ministro (uma vez que as sondagens mostram o líder da extrema-direita à frente) fez com que as formações concretizassem um princípio de acordo para formar um Executivo. 

Na sequência do acordo de coligação, na quinta-feira, Mattarella encarregou o independente Conte de formar Governo novamente, relegando Salvini para a oposição. 

No discurso imediatamente após a audiência com o Presidente Mattarella, em que este o mandatou para formar Governo, na quinta-feira, Conte disse que queria «modernizar o país» e apelou a transformar o atual período de «crise numa oportunidade para recuperar». 

A crise política foi provocada por uma moção de desconfiança de Salvini a Conte, que levou o primeiro-ministro a demitir-se.