Politica

Financial Times elogia Costa... Passos e Sócrates

Jornal de referência escreveu na semana passada um artigo no qual elogia o Governo de Portugal, mas esta não é a primeira vez que aplaude a postura de um primeiro-ministro português.

Um símbolo de «esperança» para o resto da Europa. Foi assim que a direção do Financial Times (FT) descreveu Portugal num editorial publicado na segunda-feira. No artigo, são feitos elogios ao «hábil» António Costa, que conseguiu manter a geringonça mesmo depois de todos olharem com desconfiança para este modelo político. Mas esta não é a primeira vez que o jornal britânico elogia um primeiro-ministro português.

Numa altura em que a Europa vive tempos conturbados – as preocupações em relação aos sinais de recessão na Alemanha, a instabilidade política e económica em Itália e a aproximação do Brexit –, «a esperança vem de um sítio pouco expectável: Portugal viu o seu rating revisto de forma positiva pela agência Moody’s na semana passada. Este sucesso deve-se tanto às escolhas políticas acertadas como a uma boa dose de sorte», destaca o jornal neste novo texto.

Para justificar esta afirmação, o FT faz um retrato do que se está a passar na economia portuguesa: «os salários na função pública regressaram aos níveis em que estavam pré-crise e o défice pode chegar a zero no final deste ano. O desemprego está nos 6,7%, metade dos 14% na vizinha Espanha. A baixa taxa de criminalidade e a atmosfera convidativa do país ajudaram a atrair tanto imigrantes como investidores estrangeiros».

Estes resultados devem-se, segundo a publicação económica, às políticas implementadas pela geringonça, à recuperação da economia mundial e ao boom do turismo. Mas o Governo de Pedro Passos Coelho, que teve o «trabalho difícil» de liderar o país após o resgate financeiro de 78 mil milhões de euros, também não é esquecido: Costa colheu os «benefícios das ações duras [do Governo] centro-direita, mesmo depois de se ter apresentado como o candidato antiausteridade. Os seus opositores dizem que não manteve esse compromisso, descrevendo algumas das medidas que implementou como políticas de ‘austeridade leve’».

Aliás, o jornal diz que ainda há muitos problemas por resolver, como a reposição do tempo de serviço dos funcionários públicos, a luta dos motoristas de matérias perigosas e a dívida pública, que é superior a 100% do PIB.

Apesar disso, o FT prevê que António Costa vença as próximas eleições legislativas. E deixa alguns conselhos: «nas eleições de outubro, Costa deverá ser eleito primeiro-ministro de uma coligação de esquerda. Poderá até conseguir uma maioria absoluta. Deve continuar a seguir o caminho que tem feito de prudência fiscal, mas sem uma austeridade punitiva. O primeiro-ministro deve implementar reformas mais profundas na administração pública. Também há trabalho que tem de ser feito na banca, apesar de a estabilidade no setor ter melhorado nos últimos anos. Enquanto as nuvens negras começam a cobrir a economia mundial, Portugal tem de delinear uma visão clara da sua direção e das suas estratégias económicas para o futuro».

António Costa reagiu ao artigo dizendo que o texto corresponde «àquilo que genericamente a imprensa internacional tem sinalizado em relação a Portugal». «Houve uma recuperação muito grande que o país teve nos últimos anos e que se traduz não só no reconhecimento dos órgãos de comunicação social, designadamente a imprensa económica, mas sobretudo daqueles que investem. Temos números recorde de atração de investimento direto estrangeiro, como não se conseguia em muitas décadas», disse o primeiro-ministro.

Costa disse ainda que os bons resultados obtidos são consequência do «reconhecimento internacional, das boas políticas económicas seguidas, da estabilidade que conseguimos e importa conservar isso para podermos manter esta trajetória».

E esta não é a primeira vez que o Financial Times elogia o governo português: em setembro de 2017, o jornal económico descreveu Portugal como uma «raridade na Zona Euro», pois «um governo liderado por socialistas que realizou uma consolidação orçamental com a popularidade em alta». Em março do mesmo ano, a publicação analisou o primeiro mandato do Governo, escrevendo que o primeiro-ministro tinha «indubitavelmente registado um desempenho que superou as previsões iniciais para o seu governo de minoria socialista» que, lembra o jornal, «depende dos votos parlamentares dos radicais do Bloco de Esquerda e do rígido Partido Comunista». As expectativas de que esta «parceria improvável ia falhar» eram tão altas que a sobrevivência de Costa foi uma surpresa para a maioria dos críticos, lia-se no artigo.

 

A coragem de Passos Coelho

O FT também escreveu artigos sobre outros primeiros-ministros portugueses. E nem sempre foram artigos positivos: em 2013, o jornal dizia que Pedro Passos Coelho e os restantes governantes tinham de ter «coragem» para lidar com os tempos adversos que se adivinhavam.

«Portugal tem visto a sua base industrial erodir rapidamente nos anos recentes. O que sobra não é competitivo e a força laboral é pouco qualificada. A sua economia estava a estagnar uma década antes da crise. Não há garantia de que, mesmo se Lisboa cumprir as condições da “troika” [Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia], o crescimento retorne. Sem isso, a capacidade de Portugal alcançar níveis de dívida sustentáveis está em causa», escrevia o jornal britânico.

«Tanto os devedores como os credores devem usar este tempo para elaborar medidas que vão ajudar o país a construir uma plataforma para o crescimento futuro (...) Isto vai exigir coragem por parte dos políticos de Portugal», lia-se no artigo, publicado um dia depois de Paulo Portas, líder do CDS-PP, se ter demitido do cargo de ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, logo a seguir a Vítor Gaspar deixar a pasta das Finanças.

No entanto, dois anos depois, o FT acabou mesmo por escrever um texto a elogiar a postura de Pedro Passos Coelho. Um dia depois das eleições de outubro de 2015, o jornal escrevia que o primeiro-ministro tinha «provado que, em certas circunstâncias, um governo que implementa reformas difíceis pode ser reeleito».

«Pedro Passos Coelho teve muita força durante a campanha, mostrando que conseguiu tirar Portugal da alçada da troika, colocando a economia no caminho certo para o crescimento», refere o artigo. «De certa forma, os resultados eleitorais em Portugal ilustram um problema com o centro-esquerda na Europa. Apesar de terem passado pela crise mais grave dos últimos 80 anos, os eleitores continuam a preferir os partidos de centro-direita», acrescentava.

Este artigo foi escrito antes de o PS, o PCP e o BE terem começado a negociar para formarem um governo de esquerda com maioria parlamentar, evitando assim que a coligação de direita assumisse o poder. Costa assumiu assim o cargo de primeiro-ministro a 26 de novembro.

 

Sócrates, o eterno otimista

Em 2007, o FT elogiou os resultados económicos alcançados por José Sócrates desde que este tinha assumido funções como primeiro-ministro, dois anos antes.

«Em menos de dois anos, o défice de Portugal (...) desceu para 3,9 por cento. É esperado que caia para perto de 3%, o máximo permitido segundo as regras da Zona Euro, no final deste ano», lia-se no artigo. «Quando visitar Lisboa em julho, altura em que Portugal vai assumir a presidência rotativa da União Europeia, vai encontrar o país num ambiente muito mais positivo do que quando o abandonou na sombra da recessão».

Três anos depois, em 2010, o mesmo jornal escrevia que, em cinco anos enquanto primeiro-ministro, «o inveterado otimismo de José Sócrates nunca tinha sido tão severamente posto à prova como nos últimos seis meses. Ao mesmo tempo que a crise da dívida pública europeia o obrigou a adotar pacotes de medidas de austeridade, tem também sido muito criticado na imprensa na sequência das alegações não comprovadas de que terá tentado condicionar num grupo de media».

Além disso, a pressão europeia para que fizesse alterações nas suas políticas financeiras e o fraco crescimento económico também são fatores que, segundo o FT faziam com que Sócrates enfrentasse um dos momentos mais difíceis.

«Apesar de tudo, continua com um espírito positivo, defendendo que faz parte do trabalho dos políticos dissipar o negativismo», escrevia o económico, explicando que a perspetiva otimista de Sócrates «era fortalecida por dados económicos encorajadores. Nos primeiros quatro meses do ano, o crescimento económico de 1,1% estava entre os mais altos da União Europeia. Até maio, refere Sócrates, a receita fiscal estava acima dos objetivos e a despesa pública abaixo da prevista».

A verdade é que, em abril de 2011, José Sócrates anunciou ao país que tinha sido feito um pedido de assistência financeira, demitindo-se do cargo de primeiro-ministro a 21 de junho.