Politica

Filipa Roseta. ‘Vou receber todas as pessoas que me enviem um email’

Filipa Roseta garante que, quando for deputada, vai exercer um mandato de proximidade. Promete receber todos os eleitores que lhe quiserem falar e admite que foi apanhada de surpresa pelo convite de Rui Rio.

Foi apresentada como uma das novidades nas listas do PSD nestas eleições legislativas. Acha que vai conseguir levar alguma coisa de novo para a política nacional e para o Parlamento?

Sempre que entra alguém novo há algo de novo. Por isso é que é bom haver uma certa renovação e as pessoas não permanecerem nos cargos para sempre. Acho que cada pessoa pode levar para a política a sua maneira de fazer. Eu vou levar a minha, que tem muito a ver com a proximidade e com a necessidade de resolver problema a problema. Sou uma pessoa muito pragmática. Olho para os problemas e tento resolver. O que é importante a nível de renovação é termos a ideia de que os eleitos não ficam a vida toda nos mesmos cargos. Não tenho nada contra os deputados que lá estão agora, mas é bom haver renovação. É normal e saudável.

Não estava à espera de ser convidada?

Não. De todo. Não estava mesmo. Não estava no meu horizonte. Estou aqui [Câmara de Cascais ] num trabalho na área do urbanismo. É um trabalho muito técnico e muito próximo da minha área de conhecimento como arquiteta e como investigadora da cidade. E agora é uma experiência nova.

Não é tanto um cargo de proximidade como numa autarquia...

A minha atitude é continuar a fazer aquilo que faço aqui. Tenho o conceito da vereação acessível. Atendo toda a gente que me manda um email. Desde o dono do hotel à senhora que quer legalizar a casota do cão. Atendi todas as pessoas que me mandaram um email e quero levar isso para o Parlamento. E, portanto, vou atender e receber qualquer pessoa que me mande um email.

É uma promessa arrojada.

É assim que eu faço e é assim que eu gosto de fazer. Gosto de andar no terreno e no meio das pessoas. É isso que me motiva. Não é uma promessa arrojada. Vou acompanhar os problemas das pessoas que me mandarem um email. 

Julga que os políticos estão longe da realidade e não conhecem os problemas reais das pessoas que representam?

Não há uma proximidade tão grande com as pessoas como devia haver. As próprias pessoas não sabem, muitas vezes, quem são os seus representantes. As pessoas têm de saber quem são os seus eleitos. Temos de fazer esse esforço. As pessoas têm que sentir que se falarem com aquela pessoa podem ver o seu problema resolvido.

Os deputados não têm essa preocupação?

Há muitos deputados que fazem esse trabalho. Essa vai ser a linha da minha atuação e todas as pessoas que quiserem falar comigo vão falar comigo. Vou seguramente acompanhar os problemas de todas essas pessoas. Não quer dizer que consiga resolver os problemas de toda a gente. Não é essa a promessa. A promessa é que vou ouvir toda a gente e tentar perceber como posso ajudar. 

Há muita gente que vai para o Parlamento e se desilude com a maneira com as coisas funcionam. Não tem medo de se desiludir?

Não estou com ilusão nenhuma. Sou militante há pouco tempo [desde 2012], mas como deve imaginar há muitos anos que acompanho a ação política. A vantagem de conhecer esse historial é que não tenho ilusões. Sei que vai ser difícil, mas vale sempre a pena lutar pelo país.  

Os seus pais [Pedro Roseta e Helena Roseta] eram os dois do PSD. Quando era criança andava com eles nas iniciativas políticas?

Sim. Levavam-me para todo o lado. A minha vida era andar nisto e a grande amiga da minha mãe que era a Natália Correia acabou por ser uma grande influência na minha vida. Toda a envolvente da família enquanto eu fui crescendo eram discussões políticas, artísticas e culturais. Conheço e sei o que se foi passando. Não vou ingenuamente a acreditar que as coisas são fáceis, porque não são, mas é normal que não sejam. Mas acho que qualquer pessoa pode fazer a diferença. Cada um dos eleitos tem de pensar assim. Eu gosto de sentir que resolvo problemas.   

Tenciona cumprir apenas um mandato ou admite fazer uma carreira política? 

A minha carreira é professora universitária. Essa é a minha carreira. Sou professora auxiliar na Universidade de Lisboa e arquiteta. Tudo o resto é um serviço público que a pessoa vai fazendo. Acho que posso contribuir. Não tenho muito essa ideia da carreira política. As pessoas têm de ter a sua vida e vão abraçando as coisas à medida que elas vão aparecendo se, naquele momento,  acharem que têm competências.

Já revelou que entrou para a politica com José Sócrates. Ficou chocada com o envolvimento de um ex-primeiro-ministro num processo judicial daquela dimensão?

Sim. Há um momento em que me lembro de pensar: pronto, lá tenho de entrar. Não queria e não tinha essa intenção. 

O que a impressionou no caso Sócrates?

Há dois momentos marcantes e que levam uma pessoa a pensar que tem de fazer alguma coisa porque é mau demais para ser verdade. Um foi quando ele foi à televisão pública  assumir que vivia de envelopes de dinheiro de um amigo. Uma pessoa ouvir um ex-primeiro-ministro dizer isto na televisão nacional...  

Não é aceitável...

Não perdoo isto ao Partido Socialista, porque não acredito que eles não tenham percebido o que é que o senhor era. Não é uma questão de justiça é mesmo a personalidade daquela pessoa. A maneira como ele vivia e aquilo que ele fazia. A verdade é que deixaram-no fazer aquilo que ele quis e deixaram-no chegar ao ponto mais alto do nosso Executivo. 

E qual foi o outro momento em que ficou chocada...

Há outro momento em que o Teixeira dos Santos diz: nós temos de pedir dinheiro, porque não há dinheiro para pagar salários,  e o Sócrates continua a dizer que não é preciso. Foi um ministro que disse: o senhor está noutro planeta. Custa-me que o PS tenha chegado a este ponto e ainda me custa mais que agora finjam que isto é passado. Eu perdi completamente a confiança neste grupo de pessoas que são as mesmas [do tempo de José Sócrates]. Não são outras. Se fossem outras e tivesse havido uma renovação era como o outro, mas não houve. São as mesmas pessoas que deixaram aquele senhor chegar àquele ponto. Não sei o que se passa com algumas pessoas que acham isto normal. Não acho. A sério. A minha opinião é que não é aceitável e não é perdoável o Partido Socialista fazer o que fez. Se as pessoas querem continuar a confiar neles eu estarei na oposição.

Como é que vê o atual momento do PSD? Por um lado tem resultados fracos, nas europeias em Lisboa conseguiu apenas 16%, e por outro lado aparece muitas vezes aos olhos dos portugueses como um partido em que ninguém se entende.

Vocês conhecem a história do partido. Não sei se sabem todas as turbulências que já teve. Assassinaram o nosso primeiro-ministro. Quer mais complicado do que isso. O PSD já sofreu cisões brutais, mas acaba sempre por afirmar-se como partido de poder e a grande chave está na força das nossas ideias. A maioria dos portugueses quer aquilo que nós queremos. 

Não tem receio de uma na direita nos próximos anos como disse o professor Marcelo Rebelo de Sousa?

Isso tem de perguntar ao Marcelo. O meu receio é que o PS aliado ao PCP ocupem o poder. Isso é que é um grande receio. Aquilo a que vocês chamam divisões internas são opiniões internas. Como partido personalista e de liberdade de expressão que somos acabamos por ser o partido que mais exprime isso enquanto os outros se fecham. Ou pensam todos da mesma maneira ou não falam. Ninguém no PCP pode dizer mal do Jerónimo... Nós aqui temos liberdade de expressão.

No PS também não se ouvem críticas ao António Costa.

Não. Não tenho visto muitos críticos da ação do governo e também não tenho ouvido críticas ao Sócrates. Se eles não são críticos e têm liberdade de expressão é uma coisa que me angustia. Isto é o que pensa uma pessoa normal. Já devia ter havido mais gente do PS a dizer que não aceitava que um primeiro-ministro vivia para a televisão dizer que vivia de envelopes de notas de amigos. 

Alguns socialistas, até amigos deles, já condenaram o comportamento de José Sócrates. O presidente do partido disse que o PS se sente envergonhado. 

Sim. Muito depois e poucos. 

Voltando ao PSD: não está preocupada com as sondagens?

Não vou entrar nesse achismo sobre sondagens. Temos de continuar a dizer às pessoas o que é que nós queremos. A defesa da dignidade da pessoa, a iniciativa privada como motor da economia... A força do PSD é que a maioria dos portugueses estão neste espaço politico. São pessoas moderadas que só querem viver as suas vidas o melhor possível sem que ninguém as chateie. Sem que o Estado entre a dizer como é que as coisas devem ser. A maior parte dos portugueses está neste espaço em que a liberdade e a dignidade das pessoas está acima dos desígnios do Estado. O Estado aparece apenas para funcionar como rede quando a pessoa está a cair. Este é o nosso espaço político. É o espaço da moderação e acredito que a maioria dos portugueses seja moderada. 

O PSD está a conseguir conquistar esse espaço mais moderado?

O PSD surgiu para combater os partidos totalitários. Custa-me ver este tipo de alianças e o primeiro-ministro a apontar o Partido Comunista como a grande referência. Fico muito preocupada porque o Partido Socialista nunca esteve tão à esquerda. 

É impossível um entendimento entre o PSD e António Costa?

Para soluções de Governo? Não faz sentido nenhum. Aquilo que eles estão a defender é o oposto das nossas políticas. Vejam os programas dos dois partidos. O programa do PS é Estado, Estado, Estado... O programa do PSD aposta na iniciativa privada e nas empresas. Isto não é compatível. São modelos de desenvolvimento diferente.

Como olha para a governação de Passos Coelho? Não houve um exagero de austeridade?

Tenho muito respeito por ele. Ele foi a pessoa neste país que disse não a Ricardo Salgado e muitas coisas que descobrimos a seguir foi porque ele disse que não a Ricardo Salgado. Isto é importante e tem de ficar na história. Nós estávamos numa emergência nacional. Foi péssimo aquilo que nos aconteceu, mas nós tivemos um primeiro-ministro que não queria pedir um empréstimo. 

Está a falar de José Sócrates?

É um momento inacreditável da história do nosso país. Mas a União Europeia poderia ter sido mais rápida a agir e a ajudar as pessoas. A própria União ficou mais frágil por causa da crise. Mas não podemos voltar a passar por isto. O país não aguenta isto outra vez. O país estava completamente falido. Agora é muito fácil falar.

A direita manifestou-se as novas regras para as crianças transgénero nas escolas. Concorda com esta posição? 

Considero que temos de garantir a dignidade de todos e, portanto, a lei que está na base deste despacho era importante para resolver certas questões. Aliás, o PSD já disse formalmente que apoiou o diploma nesse sentido. O problema que aqui surgiu foi sobre as casas de banho, o que para mim é inacreditável, porque estamos a falar de um universo de 200 a 500 pessoas no país inteiro. Obviamente, que estas pessoas devem ser protegidas e ver os seus direitos salvaguardados, mas onde houve casos as escolas, os pais e as comunidades já estavam a acompanhá-los. Ou seja, os problemas relativos às casas de banho já estavam a ser resolvidos com o bom senso da sociedade.  

Mas a direita é que levantou o problema com muitos deputados a criticarem o despacho. 

O que o PSD e Rui Rio disseram é que aquele despacho foi mal feito, está mal escrito, não é claro e levantou em toda a comunidade certas dúvidas, até nas escolas,  sobre o que queria estabelecer. O que me preocupa é que se estão tão importados em salvaguardar a dignidade destas pessoas, todas as pessoas têm esse direito. Em 2017, foi concluído um inquérito que revelou que as casas de banho nas escolas públicas são um problema de saúde pública. Há alunos que chegam a não ir às casas de banho das porque não têm condições para ninguém.

Não foi só isso. O PSD afirmou que estas medidas podiam mesmo promover situações de bullying...

A tomada de posição de Rui Rio e do PSD foi bastante clara, mesmo considerando que é um partido que tem uma grande latitude de opiniões nestes temas porque não tem um dogma. 

A esquerda tem liderado estas matérias mais frecturantes e com sucesso. Não considera que a direita tem sido menos ativa e nem sempre tem uma posição clara?

Falei sobre este despacho com pessoas até bastante conservadoras que entendem perfeitamente que não há interesse nenhum em prejudicar a dignidade dos outros. Especialmente, quem vem da doutrina social da igreja. No meu caso, até já foi divulgada uma fotografia minha no Arrail Lisboa Pride [o maior evento LGBTI do país]. Eu defendo a noção de que todas as comunidades têm de ter o seu espaço e liberdade na sociedade. Nós estamos aqui para dar voz áqueles que não têm. Portanto, não vejo nada disto como uma bandeira de esquerda ou de direita. Vejo estes temas como questões sobre a dignidade das pessoas. E mesmo enquanto católica, oiço o Papa Francisco a ter um discurso muito mais tolerante do que alguns discursos que nós vemos na sociedade. 

Mas partilha algumas causas da comunidade LGBTI...

Não tenho qualquer problema em assumir-me como defensora dos direitos de todas as pessoas, incluindo da comunidade LGBTI. Mas a grande questão de fundo aqui, é que se conseguirmos resolver o problema no seu todo também resolvemos o daquela parte.

O Governo deve-se preocupar com todos e com todos os problemas graves da escola pública. Assim estamos a estigmatizar mais as pessoas que já são estigmatizadas, o que é dramático. 

Tem um percurso muito semelhante ao de sua mãe. Foi uma grande influência para si? 

Desde sempre que troco ideias com a minha mãe. Tanto a minha mãe como o meu pai são enormes referências para mim. O meu pai é uma pessoa muito católica muito ligada à igreja e a minha mãe não tanto, o que até me permitiu ter acesso a duas visões sobre a sociedade completamente diferentes, mas que se encontram na crença de que o serviço público é para ajudar os outros. Falo muito com ambos. Com o meu pai, converso muito sobre as ideias históricas do PSD e tenho acesso a uma opinião mais conservadora. Ele contribuiu muito para a construção das ideias da social-democracia, do personalismo, da teoria inicial do partido. Com a minha mãe, considerando que também é arquiteta e foi vereadora, falo muito sobre questões relacionadas com a Habitação e Urbanismo, mas também sobre ideias de uma ala mais progressista. Portanto, acabam por ser duas pessoas que respeito imenso e falo muitíssimo.

O que é que os seus pais acharam da sua ida para o Parlamento?

É difícil... Eles sabem o que me espera e eu também porque vi desde pequena a dificuldade que é alguém querere fazer a diferença e contribuir realmente  para a sociedade. Nada disto se faz com facilidade, é difícil porque é complicado. Uma pessoa tem de conseguir ter uma grande margem de diálogo e bom senso. Se eles estão satisfeitos ou não, isso já vai ter de lhes perguntar diretamente (risos). Mas, tanto o meu pai como a minha mãe têm sido um enorme apoio e realmente são pessoas muito importantes para mim. 

Discute política com eles? 

Sim e para mim é importante, porque posso discutir ideias com dois espetros muito diferentes. O meu sonho, o meu ideal é que conseguíssemos encontrar um discurso comum para andarmos para a frente.