Sociedade

Ficheiros secretos da infertilidade

Testes de ADN revelaram, em abril, que o médico holandês Jan Karbaat usou o próprio esperma em inseminações artificiais que resultaram no nascimento de pelo menos 49 crianças. Nos EUA, casos semelhantes já levaram seis médicos a tribunal. Jody Lynée Madeira, investigadora da Universidade do Indiana, recolheu testemunhos e é uma das defensoras, nos Estados Unidos, de legislação mais blindada. Em Portugal não são conhecidos casos.

Maggie (nome fictício) sabia que tinha sido concebida através de inseminação artificial, só queria desvendar um pouco mais das suas origens. O que podia ser uma viagem relativamente comum - estimam-se 30 a 60 mil nascimentos nos EUA por ano fruto de espermatozoides ou óvulos de dadores - viria a tornar-se numa das peças do maior caso de fraude em tratamentos de fertilidade nos EUA no passado recente. Descobriu que afinal o médico que seguiu a mãe tinha usado o próprio esperma. Como ela, terão nascido 48 crianças entre o final dos anos 70 e a década de 80 após tratamentos da clínica de Donald Cline, em Indianopolis. O caso chegou à justiça em 2017 e levou nos últimos meses o Estado do Indiana a alterar a legislação para permitir a criminalização de uma prática durante anos desconhecida. Quão comum terá sido, o que terá movido os médicos a omitir ou a mentir mesmo aos casais, acabando por usar as suas células nos tratamentos? Jody L. Madeira, investigadora na Universidade do Indiana, dedica-se a estas questões e tem estado a recolher informações sobre os casos que têm vindo a público no país e a entrevistar filhos e famílias. Foi o caso de Maggie, que entrevistou no ano passado e lhe relatou como acabou por descobrir a verdade.