O Mundo em Calções

De repente, o céu ficou negro

Ninguém acreditava na alegria daqueles rostos do documentário de Kurt Gerron sobre Terezin. Eram mortos ainda por morrer

Uma fita azul e corde-rosa de céu estende-se sobre o mar, de horizonte a horizonte. Uma melancolia que se entranha e não se explica de Agosto no fim. «La festa è appena cominciata/È già finita/Il cielo non è più con noi», cantava o Sergio Endrigo. Uma sensação de morte que veio de véspera, a morte que o Luís, o Luís Miranda, o Peran, esperava desde miúdo, como se tivesse vivido afeiçoado a ela e revoltado contra ela ao mesmo tempo. O mesmo destino comum da doença espalhada pela família, o Luís que tinha ainda tanto para conversar, ele que adorava conversar, que tinha tanto para polemizar, ele que era o mestre da polémica, que tinha tanto ainda para discutir, ele que adorava estender uma discussão pela madrugada.

Talvez haja algo de azul e cor-de-rosa na fita de céu do seu adeus injusto, bruto, repentino.  «È stato tanto grande ormai/Non sa morire...» Ele sabia morrer. Tinha este dia atravessado na garganta como se lhe fosse impossível de engolir. Observo uma fotografia nossa. Eu e ele juntos num abraço que vinha de um lugar qualquer da infância, quando vivíamos no mais tranquilo de todos os enganos, convencidos de que o tempo dura para sempre e a morte não existe e tudo é plano como um nada.

Há muitos anos que, tal como Vinicius, não vou a funerais: «Prefiro recordar vivos os meus mortos». Sento-me a escrever com um peso por dentro, como se o nevoeiro tivesse tomado conta do lado esquerdo do meu peito. Vinha preparado para falar da morte. Ou da morte para lá da vida em Terezin. «Is there death after life?», li um dia numa parede angustiada de Belfast.

Em alemão, Terezin tinha um nome bem mais sinistro: Theresienstadt. Campo de concentração e de extinção criado por um canalha chamado Reinhard Heydrich. Terezin começou por ser um gueto de judeus. Os sete mil habitantes checos da cidade foram expulsos para dar lugar a 50 mil prisioneiros. Um deles era Fredy Hirsh, um judeu alemão que chegou a Theresienstadt em Dezembro de 1941. Fredy não tardou a aproveitar a política de propaganda falsa que os nazis criaram em redor do campo. Goebbels teve a ideia de apresentar Theresienstadt como um lugar modelo para os prisioneiros do nazismo. Permitiu a abertura a actividades fora do trabalho forçado._E Hirsh tratou de criar um campeonato de futebol.

Fredy Hirsh sobreviveu a Terezin mas não aguentou Aushwitz. Entetanto, transformara o futebol na vida do campo da morte. Doze equipas foram criadas com base nas profissões existentes: os Electricistas, os Cozinheiros, os Talhantes... Os jogos eram de sete contra sete e duravam 35 minutos. Disputavam-se no pátio principal de  Theresienstadt e milhares de prisioneiros debruçavam-se nas varandas que o rodeavam para vibrar com os golos e os movimentos mais excitantes.

A morte foi alterando a mecânica da organização. Terezin perdia habitantes a uma velocidade impossível de controlar. As doze equipas que iniciaram o campeonato em Outubro de 1943 foram reduzidas a seis em Agosto de 1944. As profissões, desbastadas a esmo, passaram a ter de funcionar como equipas mistas: Transportes, Cozinheiros e Talhantes, Departamente de Apoio Infantil. O prémio de vitória era meio limão para cada jogador da equipa triunfante, um bem escasso pelo qual valia a pena lutar até à última gota de suor.

Vários foram os jogadores profissionais que participaram no Campeonato de Terezin. Pavel Mahrer, internacional pela Checoslováquia; Jiker Taussig, seu colega guarda-redes na selecção; Honza Burka, um goleador impressionante que após a II_Grande Guerra recusou numerosas ofertas de vários grandes clubes europeus. Mas todos eles sabiam. A morte é uma coisa que se sabe. Tal como o Peran, todos eles sabiam que ela os esperava até ao limite da sua paciência velhaca.

O jogo derradeiro de  Theresienstadt disputou-se no final de Agosto de 1944. Entre Roupeiros e o Departamento de Apoio Infantil. Kurt Gerron, que dirigira Marlene Dietrich em Anjo Azul, foi o realizador escolhido para fazer um documentário sobre Terezin que serviria de base para Liga Terezin, um filme de Michael Schwartz. Kurt filmou quilómetros de fita com a felicidade em redor de um campo de futebol deixando, convenientemente, de parte o crematório que, logo ali ao lado, incenerava cerca de 200 cadáveres por dia.

O documentário de Gerron é tão melancólico como um Agosto no fim. Não há forma de se acreditar na alegria daqueles rostos descarnados, de olhos encovados, absolutamente certos da proximidade da morte. Todos eles, jogadores e espectadores, não passam de mortos ainda por morrer.

Caminho pela areia, entretanto fria. Tiro uma foto a fita azul e cor-de-rosa de horizonte a horizonte. Prometo guardá-la para ti, Luís, que tinhas lenços com um L, de lenço. Como se fosse um gesto profundamente amigo de adeus.Depois, em segundos, o céu ficou negro e sem estrelas.

afonso.melo@newsplex.pt