Política a Sério

O ‘chumbo’ de Capucho

Capucho deixou-se instrumentalizar pela esquerda no ataque ao Governo de Passos porque isso lhe dava uma posição privilegiada. Dava-lhe um palco que de outra forma não teria.

No princípio dos anos 80, António Capucho impunha-se como um político moderado e ponderado.

Não falava por falar – e o que dizia fazia sentido.

Assim, foi para mim uma completa surpresa um episódio que teve lugar em 1984 ou 85, quando Capucho era ministro do Ambiente do Governo do ‘bloco central’, presidido por Mário Soares.

O semanário Expresso convidou-o então para almoçar, no âmbito dos almoços que realizava semanalmente no restaurante Pabe com figuras públicas.

Capucho começou por elogiar largamente o Executivo de que fazia parte, disse que funcionava lindamente, que o PS e o PSD se davam como irmãos, que tudo corria às mil maravilhas.

Mas a certa altura voltou-se para nós e pediu: «Podem desligar o gravador?».

Desligado este, Capucho começou a dizer exatamente o contrário do que dissera antes: o Governo não funcionava, os dois partidos não se entendiam, a confusão era total.

Com o gravador de novo ligado, o ministro fez rasgados elogios a Mário Soares, disse que dirigia com competência o Governo, chefiava os ministros com autoridade, enfim, era um excelente líder.

Mas desligado o gravador, passou a dizer o oposto: Mário Soares era um péssimo primeiro-ministro, deixava que cada um puxasse para o seu lado, a bagunça era completa.

E todo o almoço decorreu neste duplo registo: Capucho dizia uma coisa em on e o contrário em off.

Saí desse almoço estupefacto.
Como era possível uma pessoa não ter problemas em assumir dois discursos diametralmente opostos, um para consumo público e outro em privado, perante pessoas com quem não tinha qualquer intimidade (além de mim, que era o diretor do jornal, estavam presentes mais dois ou três jornalistas)?

A partir daí, os meus contactos com António Capucho foram escassos, e não acompanhei de perto a sua atuação como presidente da Câmara de Cascais.

Mas não se disse mal dele, o que já é alguma coisa, e foi reeleito.

O seu nome voltou a ser muito falado no início do consulado de Passos Coelho, dizendo-se que queria ser presidente da Assembleia da República, mas o líder do PSD preferiu Assunção Esteves.

E a partir daí Capucho entrou em guerra aberta com o partido.

As suas críticas ao Governo de Passos tornaram-se quase diárias e demolidoras.

Indiferente ao facto de o país estar sob o controlo da troika, começou a dizer o pior das políticas seguidas pelo Executivo, colocando-se ao lado da esquerda.

E nas legislativas de 2015 apelou ao voto no Partido Socialista.

Os leitores sabem quanto prezo a liberdade de opinião.

Mas quem quer opinar livremente, faz como eu: não se inscreve num partido.

A inscrição num partido supõe lealdade para com a direção e para com os militantes.

É bom que faça ouvir as suas opiniões nos debates internos – mas é suposto que, em público, não ataque os companheiros.

E, quando o seu partido está no Governo, é de esperar que não faça coro com a oposição, muito menos quando o país está sob intervenção externa.

Mas foi isso mesmo o que Capucho fez.

E fê-lo, pelo menos em parte, por razões pessoais, ou seja, por não lhe terem dado o lugar que ambicionava.

Ora, se António Capucho não podia ou não queria apoiar a política do Governo liderado pelo PSD, só tinha uma coisa a fazer: demitir-se do PSD.

Mas não: ficou.

E ficou, porquê?

Porque como militante do PSD as suas críticas ao Governo do seu partido teriam muito mais impacto.

Capucho deixou-se instrumentalizar pela esquerda no ataque ao Governo de Passos porque isso lhe dava uma posição privilegiada.

Dava-lhe um palco que de outra forma não teria.

Agora, Capucho decidiu regressar. Com o pretexto de que se identifica com Rui Rio.

Mas pergunto: se Rio sair depois das eleições, Capucho voltará a juntar-se aos inimigos do partido?

Daqui para a frente, Capucho será ou não solidário com o PSD consoante simpatize ou não simpatize com o líder?

Será este o comportamento normal de um militante partidário?

Não é.

Por isso, o PSD faz bem em não o aceitar de volta.