Cultura

Almodóvar na Dor e na Glória

De forma mais pessoal do que nunca, o realizador espanhol entrega-nos um filme que dá acesso direto à sua alma. Dor e Glória acaba de chegar às salas portuguesas.

Não gosto de autoficção», diz, já no hospital, Jacinta ao seu filho, Salvador. Salvador Mallo, realizador de cinema numa Espanha ficcionada para este tempo em que, se não há Almodóvar, há ele. Omaior realizador espanhol deste tempo, o único capaz de cruzar o Atlântico e fazer os seus filmes ecoarem em continente americano – e por outros.

Palavras que não saíram alguma vez da boca da mãe de Pedro Almodóvar mas que poderiam ter saído. «A minha mãe nunca me disse que não gostava de autoficção, mas adoro que a Julieta [Julieta Serrano, que assume o papel de Jacinta nos últimos anos de vida] o diga. Autobiografia não é», esclareceu o realizador acerca deste seu 21.º filme numa entrevista à revista do El País por ocasião da estreia em Espanha. Dor e Glória chegou esta semana às salas portuguesas. «É autoficção, como ponto de partida. A autoficção, que na literatura é um género e produziu maravilhas, mas não tem no cinema grande prestígio».

Argumentar-se-á que quase tudo na obra de Almodóvar se monta entre recortes autobiográficos, e não discordará o realizador, que por aí prosseguiu nessa mesma entrevista, publicada antes ainda de, em maio, o filme ter tido a sua estreia internacional em Cannes. «Estou sempre projetado nos meus filmes. Mas é certo que, ainda que todos me representem, este me representa como nenhum. Fui um pouco mais longe. Mais do que nunca, a minha alma está neste filme, e isso não tem que ver com se aconteceu ou não».

Eis então Almodóvar retratando-se por fim, à beira de completar 70 anos, naquele que, diz o próprio, é o seu projeto mais pessoal nos quase 40 anos que o separam do início de carreira marcado por Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón (1980), a sua segunda longa-metragem.

A história é a de um grande realizador chegado à meia idade, enfrentando os seus fantasmas, numa fase da carreira em que teme a possibilidade de, por problemas de saúde, não voltar a ser capaz de realizar um filme – e para quê escrever o que não será capaz de rodar? A partir daí, vai regressando, entre as memórias e o consumo da heroína que o ajuda a suportar as dores, ao seu passado. À infância, à mudança de região, com a mãe, aos 9 anos, ao «primeiro desejo», numa das cenas que mais marcam este seu novo filme, ao primeiro amor.

Um filme sobre reconciliações

Mas será em Madrid que de início o encontramos, num cenário que nos diz logo ao que vamos. A casa é como imaginaríamos a de Pedro Almodóvar. O cabelo, os problemas de saúde. O lugar da infância, que não foi aquele mas poderia ter sido, palavras do próprio logo na conferência de imprensa em Cannes. O seminário, forma única de prossecução dos estudos dos pobres naqueles anos de 1960. Depois, Madrid, sempre Madrid. Mais o cinema como o viveu na infância, quando, diante da tela, rezava para que às personagens «no pasase nada», como contará Alberto (Asier Etxeandia), ator com quem reata ao fim de 32 anos de relações cortadas e a quem entrega o monólogo pelo qual não tem coragem de dar o nome – e ainda menos a cara. Dirá ainda Alberto, depois de discorrer sobre a forma como ele (na verdade, Salvador) assistia aos filmes em criança: «Depois tentei salvar o Marcelo e a mim. Se o Marcelo se salvou, foi longe de mim, enquanto fiquei em Madrid. Onde o cinema me salvou».

É o exercício de autoficção, como Almodóvar o descreve, que deu origem a este filme dentro do filme, na forma de um monólogo encenado num pequeno teatro exatamente na rua em que tinha vivido com Frederico (Leonardo Sbaraglia), o seu primeiro amor – no monólogo, Marcelo.

Se Salvador Mallo (Antonio Banderas), à beira de chegar aos 70, escreve pedaços da sua história confinado à sua casa por problemas de saúde e a braços com uma quase crise criativa, também assim veio Dor e Glória ao mais bem sucedido realizador espanhol desde Buñuel. Recuperando a entrevista citada: «Começou tudo quando os problemas de coluna me deixaram confinado à minha casa. Um dia olhei para mim mesmo como um personagem. Como os analgésicos não me faziam nada, sonhei que o meu personagem recorria ao cavalo [heroína] para suportar a dor. Uma ironia, claro».

Em Cannes explicaria que, de vício, tem o cinema, voltar a rodar, e que, no fundo, também esse será o de Salvador neste que vê sobretudo como um filme sobre reconciliações. «Pus-me a escrever a partir de uma pequena ideia, para me divertir, e saiu-me uma cena muito engraçada. Deixei-a por aí e nem pensei em voltar [a pegar-lhe] até que me cruzei com um monólogo feminino que tinha escrito e que era uma memória dos anos 80. Falava de drogas e do cinema na minha infância, do cheiro a brisa de verão e a urina. Intitulava-se O cinema e os líquidos».

‘Tudo poderia ter-me acontecido a mim’

Viria então esta história que haveria de ser a primeira a juntar Antonio Banderas e Penélope Cruz como protagonistas num dos seus filmes. Ele, como seu alter-ego nesse tal exercício de autoficção; ela como a sua mãe (personagem partilhada com Julieta Serrano, que lhe dá corpo aos últimos anos de vida), para uma viagem no tempo que levará Mallo – e a Almodóvar e ao espectador – de volta às memórias de infância partilhadas entre o cineasta ficcionado e o que o ficcionou.

E abrir as portas da sua vida porquê, neste momento particular da sua carreira, depois de um contido Julieta, adaptado à realidade espanhola a partir de três contos da canadiana Alice Munro? «Tinha acabado de escrever um argumento que não me convencia de todo e larguei-o. Comecei então a pensar que preferia escrever algo que fosse portas adentro, com documentação em mim mesmo». 

Ainda que nem sempre de forma literal, Dor e Glória é, de facto, como diz o realizador-argumentista, um filme que vai direto à sua alma. Sobre os episódios da sua infância, notou em Cannes como tudo o que não aconteceu como se vê, poderia ter acontecido. «Algumas das coisas aconteceram, outras são ficcionadas, mas tudo aquilo que acontece a esta personagem poderia ter-me acontecido a mim. Quando se começa a escrever, as primeiras linhas vêm das memórias, mas depois entra a ficção. E, nesse momento, como argumentista, tenho que me agarrar à ficção, não à realidade. Tem que resultar e tem que parecer credível como ficção». 

Mas muito se encontrará de verdadeiro aqui. Também a mãe de Almodóvar carregava uma caixa com a sua mortalha, como Julieta. E as instruções sobre como deveria ser enterrada não lhe foram dadas a ele, mas a Antonia, a sua irmã mais velha, que se encarregou de cumprir esse desejo. 

De resto, ninguém melhor do que Banderas para nos trazer este quase-Almodóvar que é Salvador. Na glória – «a glória é o lugar em que ele vive, a minha ambição foi sempre contar histórias, fazer filmes, da forma mais pessoal possível», disse em Cannes – mas também na dor. «Os erros que cometi foram meus, não tiveram a ver com agentes externos, eu fui o responsável. Conduzi a minha própria carreira, e essa é a minha definição de sucesso».