Opiniao

Transições

Os últimos acontecimentos que dominaram a esfera internacional, aparentemente todos ‘decisivos’, (G7, ‘guerra’ ao Irão, UE-Brexit) não passaram de uma mão cheia de nada. É típico dos períodos de férias ou das ‘ondas longas’ da evolução internacional.

A raiva com que os cosmopolitas-guerreiristas democratas norte-americanos atacaram e continuam a atacar Trump só serviu para ‘partir o país ao meio’, dobrar-lhe algumas vértebras dorsais que seriam essenciais para se apresentar como o Rambo do mundo. Assim, para além das farroncas, só ganha é a falta de respeito do pessoal da turma e desenvolve, internamente, o caldo para uma eventual guerra civil e a fragmentação política da ‘União’.

O G7 não passou de uma exibição do ‘galito’ Macron como o ‘grande organizador do mundo’, nos assuntos do Irão e da Amazónia. Quanto a esta, levantou um problema que um dia ainda dará que falar: o da legitimidade de qualquer tipo de poder, político (...até às soberanias), económico (… o dos donos ou proprietários), etc. Sim, a ‘Amazónia é do Brasil’ mas ‘também é do mundo’, do mesmo modo que qualquer ‘propriedade’ (empresa, etc.) é dos seus donos, mas também de toda a comunidade. Portanto, Poder=Responsabilidade Social e não Poder= ‘Quero, Posso e Mando’!

É divertido ver como, em pleno auge do capitalismo liberal baseado no Direito (do mais forte) e não na Ética, ressurgem, com formas variadas, as velhas questões éticas da legitimidade do poder de ‘ordem divina’, ou as próprias da democracia-cristã e do socialismo-comunismo...

Ainda no G7, foi também ‘divertida’ a contradição entre um Trump que queria o ‘regresso’ da Rússia como parceiro (mesmo que seja só para a afastar da China...) e a posição ferozmente contra do polaco presidente do Conselho Europeu. Pois, é que ele é muito menos ‘europeu’ que acólito dos que, nos EUA, controlam a Polónia, a Roménia, os Bálticos e a Ucrânia para fazerem a guerra à Rússia!

Quanto à UE-Brexit, é ‘engraçado’ assistir ao tremendo interesse dos meios de comunicação nacionais e europeus no circo anti-europeu do sr. Jonhson. É, no mínimo, perverso ver com que entusiasmo esses meios relatam como os ingleses nos estão a tramar! Em vez de, como ‘bons europeus’, denunciarem o sacana e as suas manobras chantagistas... Lamentável. Com certeza que o acordo negociado durante dois anos relativo à saída do Reino Unido da UE terá obedecido a critérios justos (e de direito) reconhecidos pelas partes. Porque não cumpri-lo e pretenderem agora ir-se sem assumirem as respetivas responsabilidades, como exploradores e caloteiros desonestos? 

Por cá, na nossa alegre casinha, para além das festas e festinhas ‘cultural-gastronómico-concertais’ que invadem como lepra cada aldeia, colocando-as no centro do mundo turístico pelas suas ‘empadas’ ou ‘roscas’, quem já se lembra que existe Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé, a Guiné, Timor e muito mais para ‘reconquistar’ como amigos, irmãos e parceiros do desenvolvimento? Ao fim de quase 50 anos de afastamento, o que interessa é mesmo a festança modernaça e europeísta onde os municípios e outros gastam fortunas que tanta falta fariam na promoção económica local (designadamente contra a ‘desertificação’), no investimento público socialmente reprodutivo, na promoção da cooperação, etc.

Ainda ninguém percebeu que, em variados aspetos, tanto no plano europeu como no plano interno, estamos em fim de ciclo, a gerir ‘modelos’ que fizeram a sua época e que precisamos, urgentemente, reinventar outros que melhor se adequem a um mundo em evolução? Que é necessário outro modelo europeu e outro modelo de gestão nacional em Portugal?