Sociedade

Professor da Universidade de Coimbra acusado de violência doméstica por ex-aluna

O homem chegou a utilizar a tese de doutoramento da aluna para a tentar pressionar a voltar. "No dia 9 de novembro de 2018, por volta das 22h40, "o arguido enviou um 'e-mail' à ofendida onde alegava ter havido denúncias anónimas" de que a sua tese de doutoramento "era plagiada".

Um professor da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra está a ser julgado por violência doméstica. Uma ex-aluna do acusado e ex-colaboradora da instituição, cuja identidade não é de conhecimento público, afirma ter vivido com este durante sete anos e ter sofrido diversos abusos verbais por parte do homem.

De acordo com o despacho, citado pela agência Lusa, no dia 31 de agosto de 2018, no interior da residência do ex-casal, o acusado chamou a mulher de "doidinha" e "maluca'" e ameaçou-a, afirmando que "ia dar judicialmente cabo dela e que iria mover os seus conhecimentos para a ofendida ser despedida".

Ainda no mesmo documento, a alegada vítima diz que sofreu de maus tratos verbais "inúmeras" vezes e que o ex-companheiro tentava impedir a separação, utilizando o seu poder no instituto universitário. Segundo a ex-coordenadora, o professor da Universidade Coimbra "desvalorizou-a e humilhou-a, dizendo-lhe que não era capaz de acabar a sua tese de doutoramento" sem a sua ajuda, "situações que se foram repetindo num crescendo até à separação do casal".

Quando a mulher de 35 anos dizia que queria sair de casa e terminar a relação, o homem pressionava-a para não o fazer "dizendo que judicialmente daria cabo dela e que ela não deveria querer tê-lo como inimigo". O despacho indica ainda que quando a mulher tentou separar-se do homem e saiu de casa, este pressionou-a várias vezes, através de mensagens e e-mails, pedindo-lhe para regressar.

Em 2018, "nos dias que se seguiram à separação, o arguido começou a enviar mensagens escritas [à vítima], em qualquer hora do dia e da noite, bem como a telefonar-lhe, nomeadamente nos dias 18 e 19 de outubro de 2018 e início de setembro de 2018, pretendendo que a mesma voltasse à relação", descreve a acusação.

O homem chegou a utilizar a tese de doutoramento da aluna para a tentar pressionar a voltar. "No dia 9 de novembro de 2018, por volta das 22:40, "o arguido enviou um 'e-mail' à ofendida onde alegava ter havido denúncias anónimas" de que a sua tese de doutoramento "era plagiada".

O acusado chegou a dizer à mulher que iria "avançar com um processo disciplinar [contra si], enquanto coordenador cientifico do Instituto de Psicologia Cognitiva, Desenvolvimento Humano e Social da Universidade de Coimbra (PCDHSUC)", ao qual a jovem "tinha ligação enquanto colaboradora investigadora".

"O arguido atuou de forma livre, voluntária e conscientemente, desrespeitando e menorizando a ofendida, ofendendo-a na sua honra e consideração, humilhando-a, diminuindo-a, atemorizando-a e fazendo-a recear pelo seu emprego e pelo comportamento vingativo do arguido ao nível profissional, bem sabendo que enquanto sua companheira tinha o dever acrescido de a respeitar", pode-se ler no despacho de acusação do Ministério Público.

O arguido nega ter protagonizado qualquer tipo de violência verbal contra a ex-coordenadora da instituição e, durante a fase de instrução declarou nunca ter realizado "quaisquer maus tratos, quer físicos, que psicológicos". Este afirma ainda ter ficado surpreendido pela denúncia da mulher, sob os alegados maus-tratos ocorridos na residência do casal, no dia 31 de agosto e diz que foi a mulher que o agrediu verbalmente nessa mesma data. 

"Mais relatou que, nesse concreto dia, a arguida saiu de casa, levando consigo os seus pertences, tendo sido ajudada para esse efeito pelos amigos. O arguido confirmou que nos dias seguintes enviou SMS à arguida apenas para saber como a mesma se encontrava e para saber se a separação era definitiva. Mais confirmou que no dia dos factos relatados furou os pneus do carro da arguida", pode ler-se no despacho de pronúncia.

O homem de 60 anos está a ser julgado desde a semana passada, no Tribunal de Comarca de Coimbra, julgamento que irá continuar às 14h00 desta quarta-feira.