Opiniao

Interesses dissimulados

O mundo está a ficar um lugar muito complexo. As afrontas explodem na exata medida do poder de cada ator. 

Todos nós usamos um filtro que determina quais os factos, assuntos ou problemas que efetivamente nos interessam. Tecnicamente tal atitude é designada por atenção seletiva. Isto é, cada um de nós seleciona, através do uso de tal filtro, ao que deve ou não tomar atenção.

Deixando de parte a retenção e distorção seletivas ligadas ao mesmo fenómeno, percebe-se a importância vital do esforço que é feito pelos emissores de mensagens para captarem e manterem a nossa atenção. Trata-se de um exercício comum a todas as comunicações, sendo especialmente agressivo quando aplicado no campo da política, em especial, sempre e quando se está a viver em ambiente crítico, seja ele eleitoral ou não.

Os últimos tempos da política portuguesa têm sido marcados pela agressividade na comunicação, embora algumas vezes adocicada por recuos feito via esclarecimento posterior, que, no limite, funcionam igualmente como mecanismos de ativação da estimulação de atenção por parte das audiências. As polémicas (reais ou aparentes) são exercícios particularmente profícuos neste capítulo.

A agressividade da recente narrativa política trouxe a lume um conjunto de epítetos nem sempre lisonjeiros. Do cinismo à hipocrisia, da ingratidão ao medo, da comoção ao taticismo de curto prazo, da seriedade à dignidade, da comoção á razão, da arrogância à cobardia, de ataques injustos a voluntarismos que criaram sérias dificuldades e bloqueamentos, tudo tem sido chamado á colação.

Tudo é apresentado como preocupante. Preocupação que se adensa quando investigamos o verdadeiro significado dos termos usados. Senão vejamos: hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, ideias e sentimentos que na verdade não se possuem, sendo o termo também usado para encenar qualidades e para ocultar defeitos. No fundo, para dissimular a realidade.

Por seu turno, o termo arrogância espelha uma atitude de extremo convencimento de importância, tendo por base a sobrestimação das próprias competências ou capacidades. O cinismo tem por significado uma disposição de descrença na sinceridade ou bondade das motivações e ações. A cobardia é a antítese da coragem ou valentia tendo, na base, a deslealdade ou fingimento. 

Podíamos agora continuar a escalpelização de significados, nomeadamente, os relativos à ingratidão e ao medo, à comoção e ao taticismo de curto prazo, à seriedade e à dignidade, à comoção e à razão, à injustiça e ao voluntarismo.

O exercício é não só desnecessário como até desmesurado se direcionado apenas para extrapolar os excessos de linguagem que a conquista do poder incentiva.

Se isto é o que por cá se passa, é também bom que atentemos que não somos únicos. Bastará ver o que vai ocorrendo pelo mundo e nomeadamente nos nossos mais antigos aliados para percebermos que nesta fase de transição decisiva as reações são não só inesperadas, como também desesperadas para manutenção do poder. Antes do referendo, os defensores do Brexit, argumentavam que a vitória lhes permitiria negociar um extraordinário acordo com a UE, para agora os mesmos atores defenderem sair sem nenhum acordo. Na verdade, as perspetivas na Grã Bretanha não são de benefício generalizado para o seu povo. Se a Grã-Bretanha sair sem acordo, tudo se complicará, incluindo a relação com a UE.

O mundo está a ficar um lugar muito complexo. As afrontas explodem na exata medida do poder que cada ator julga deter e dos interesses económicos que lhe estão subjacentes. Sempre assim foi, especialmente nas grandes mudanças. A esperança é que a democracia, com todos os seus defeitos, seja capaz de sobreviver e impor-se à avalanche de interesses particulares evidentes e sobretudo aos dissimulados, sejam quais forem os protagonistas.