Sociedade

40 anos de SNS. A visão de quem está a começar

O SNS chega este fim de semana aos 40 anos. Qual é o estado de espírito de quem está a começar? O trabalho é muito, o amor à camisola está lá, mas há mudanças necessárias.

Tiago Castanheiro é um dos dez novos médicos de família colocados este verão no Alentejo. Nunca pôs a hipótese de trabalhar no privado – e também não teria tempo, diz. Além do serviço numa Unidade Saúde Familiar de Reguengos de Monsaraz, trabalha na VMER do INEM em Beja. Com uma lista de doentes maioritariamente idosos, o horário acaba por esticar quase todos os dias. Eram precisos mais braços, mas no último concurso ficaram por preencher muitas vagas na região. «Se fôssemos fazer apenas o nosso horário de trabalho seguindo as regras todas, a resposta ficava muito aquém, sobretudo quando temos doentes muito idosos, com muitas doenças, a precisar de muitas consultas».

O SNS faz 40 anos este fim de semana e é essa será das maiores diferenças no país: em 1979 havia 42 idosos por cada 100 jovens e hoje são mais do triplo. Na altura, garantir o acesso à saúde a toda a população e quebrar os números negros de mortalidade maternoinfantil eram as preocupações de topo. 

Cuidados primários funcionam

Hoje, Tiago sente que o acesso aos cuidados primários está a funcionar e não tem dúvidas do que se evoluiu, mas há limitações que pesam no dia a dia. O acesso às consultas de especialidade é a que tem mais impacto, sobretudo no interior do país. «Neurocirurgia e neurologia não existem no Alentejo, as pessoas têm de ir para Lisboa e esperam muito tempo», exemplifica. Os pedidos para o hospital também demoram. «Uma pessoa que precise de fazer fisioterapia tem de ir a uma consulta de Medicina Física e de Reabilitação no hospital. Se tem uma tendinite no ombro agora, não consegue levantar o braço, e aqui temos muitos trabalhadores do campo, tem de ficar de baixa até essa consulta que vai ser daqui a quatro ou cinco meses». 

Ajudaria se houvesse maior descentralização e os especialistas pudessem estar mais vezes nos cuidados primários? Admite que sim, mas há outros obstáculos. Em Reguengos só há uma clínica convencionada para  fisioterapia e as vagas, limitadas, acabam depressa.

Tiago Castanheiro diz que ao início ficou um pouco assoberbado, mas admite que é o normal quando se assume uma lista  de doentes e se está empenhado em fazer tudo o que for possível.  Neste momento, tem as vagas de consulta quase todas ocupadas até ao final do ano, o que mostra bem a necessidade. Há um aspeto negativo que regista no arranque: este ano, as vagas carenciadas, que dão acesso a incentivos, só foram conhecidas uma semana depois do concurso. «Se tivesse ido para um centro de saúde a 20 km daqui ficava a ganhar mais mil euros por mês», diz, lamentando a forma como decorreu o processo e também essa diferença salarial em zonas em que existem necessidades. Para o médico, um dos desafios do SNS passa muito por aí: precisa de atrair profissionais e para isso terá de conseguir competir melhor com as ofertas do privado (paga mais e o desgaste é menor).

Generalização das USF

João Soares Ferreira é também médico de família e foi colocado em Almeirim. Estado de espírito de quem começa a trabalhar no SNS nos dias de hoje? «Otimismo», responde. «Sabemos que algumas coisas não estão muito bem mas isso para a nossa geração pode ser uma oportunidade para contribuir para numa estabilização do SNS», diz o médico de 30 anos. 

Do que está por fazer, fala das condições físicas do local onde trabalha, onde não existe ar condicionado quando no verão a temperatura chega aos 40ºC, mas também da dificuldade que ainda existe para garantir médico de família a todos os utentes, o que dificulta um acompanhamento de proximidade. Acredita que esse é um dos papéis do serviço público e foi isso que o levou para medicina geral e familiar. Para o recém-especialista, uma das decisões importantes seria a generalização de Unidades de Saúde Familiar, para que toda a população e profissionais funcionassem no mesmo modelo. Os dados mais recentes indicam que existem 500 USF no país, mas são muitos os concelhos, sobretudo no interior, onde continuam a funcionar os centros de saúde convencionais.

Rosário Barreto é enfermeira e começou em abril a trabalhar no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa. «Para quem está a começar, acredito que o serviço público é uma grande escola, pela experiência e pela forma como o trabalho está organizado, sinto que há mais cuidado», partilha. Ainda se está a adaptar aos ritmos, ao trabalho por turnos. Aos 23 anos, tem pela frente uma vida exigente. E, se fala com entusiasmo da profissão que escolheu, sente ao mesmo tempo que existe desânimo nos colegas mais velhos. «Investiram muito na carreira e não há uma progressão». O que gostaria de melhorar no SNS?  «Aquilo em que mais tenho pensado é na importância de conseguir dar uma melhor resposta à procura. Por vezes não conseguimos preparar as altas como gostaríamos, é preciso mais uma cama. E acabamos por ter os mesmos doentes internados algum tempo depois», responde.