Cultura

‘O que temos é um negócio, mas acima de tudo amamos muito os livros’

Como se constrói um bestseller? O que é qualidade em literatura? O responsável da HarperCollins, gigante editorial com 200 anos de história, explica a filosofia do grupo e quais os seus objetivos para Portugal.

E m 2016 fez uma entrada discreta, sem levantar ondas, no mercado português. Esta semana, a HarperCollins anunciou oficialmente a sua chegada a Portugal e diz que veio para ficar. Com 10 mil novos títulos lançados e milhões e milhões de exemplares vendidos cada ano, este é o segundo maior grupo editorial a nível mundial. Para o nosso país, as metas são ainda relativamente modestas – 20 títulos por ano, entre ficção e não ficção, mais seis do segmento infanto-juvenil. Aideia é publicar só o melhor do catálogo, que inclui autores como Daniel Silva, o lusodescendente cujos thrillers de espionagem são bestsellers a nível mundial.

Conversámos com Luis María Pugni, diretor-geral do grupo para a Península Ibérica, e a editora María Eugénia Rivera sobre como nasce um bestseller e quais os planos deste gigante editorial para o mercado português. 

A HarperCollins é o segundo maior grupo editorial em todo o mundo. Quantos livros vendem por ano?

Editamos dez mil novos títulos por ano e estamos em 18 países.

Antes de entrarem cá fizeram algum estudo do meio editorial português?

Não realmente. Quer dizer, temos estudos do mercado feitos por empresas de auditoria e consultoras de cá. Além disso, temos conhecimento do que se passa através dos distribuidores, dos livreiros, de toda a indústria. Temos a informação necessária. Isto é um processo, chegámos em 2016, começando a publicar ficção, e imagino que num futuro não muito distante teremos também uma representação fixa em Portugal.

Por que acharam que este era um bom momento para entrar em Portugal?

Temos no catálogo autores de fama internacional, como Daniel Silva, Karin Slaughter, que não é tão conhecida em Portugal mas é muito forte a nível mundial, Don Wislow ou Mario Escobar, um escritor espanhol com projeção internacional. Oque queremos é levá-los a mais leitores. Em todos os mercados e segmentos há bons momentos e maus momentos. Mas não te podes atender a essas circunstâncias particulares do mercado, é preciso uma visão mais ampla das coisas. Temos mais de 200 anos de história, portanto a nossa perspetiva do tempo é diferente. Viemos para ficar muitos anos.

Conhece o mercado editorial português?

A que te referes?

O que oiço dizer das pessoas do meio com quem falo, é que há cada vez menos leitores e que a competição é muito forte.

Mas isso não acontece só em Portugal, é um fenómeno mundial. A competição é muito forte em todo o mundo. Creio que apesar de tudo o mercado português é muito estável. Muita gente fala da morte do papel, mas não é isso que vejo. Agora, que há muita oferta, isso sim.

E com tanta oferta há espaço para mais uma editora?

Nós achamos que sim. É complicado, mas pensamos que vale a pena. Se olharmos para outros segmentos, outras indústrias, todas são muito competitivas e todas têm mudanças constantes – mudança de hábitos, mudanças de consumidores, mudanças de gosto. Por outro lado, quando se fala em mercado... o mercado não é um bloco homogéneo. Há idades distintas, segmentos distintos, gostos, há muita diversidade.

Que tipo de livros vão editar?

A nossa intenção é começar pela ficção, basicamente, e dentro desse segmento estamos a publicar ficção feminina, ficção mais ou menos literária, thriller, suspense, romance histórico. E também temos um ou outro livro de não ficção. Além disso, há pouco incorporámos uma linha infantil com um livro que foi um êxito mundial, chamado Mapas, que é um atlas e uma obra de arte. Diria que o nosso catálogo é muito concentrado – não estamos a publicar muitos títulos, procuramos selecionar os melhores e oferecer ao leitor português o melhor do nosso catálogo. Por agora, vamos trazer por ano uns 20 títulos de ficção e não-ficção, e seis infantis.

Por que apostam tanto nesse nicho do thriller, do policial e do suspense? São os livros que vendem mais?

São os autores que temos e que achamos que são importantes. Sim, o suspense, o thriller – e atenção que dentro do thriller há vários segmentos –, o romance histórico e a novela feminina são os géneros mais fortes do mercado.

Quando decidem que vão apostar num livro é porque já sabem que pode vender muito?

Há dois pontos: há livros e há autores. Há autores que sabes que são importantes, que têm um percurso, como Karin Slaugther, Daniel Silva ou Mario Escobar. Depois, há livros com um conteúdo que consideramos que tem uma mais-valia para o leitor, alguma novidade interessante, e apostamos especificamente neles.

E vão editar novos autores portugueses?

Não no curto prazo, mas a ideia é num par de anos começar a publicar autores portugueses de todo o tipo. Como fizemos em Espanha. Começámos com autores consagrados e autores jovens, em que dizemos ‘aqui está um autor em que devemos apostar para crescer’. O mesmo caminho que estamos a fazer noutros países vamos seguir em Portugal. Ter uma presença local com força implica ter autores portugueses e isso é algo que vamos fazer no médio prazo, mas é um processo, que começa com o que tens, com a construção da marca, dar a conhecer ao leitor quem é a HarperCollins. Quando se tem um autor como o Daniel Silva é mais fácil, porque as pessoas identificam de imediato o autor com a marca.

OLuis nasceu na Argentina, já trabalhou na América do Sul, em Espanha e tem um conhecimento profundo do mercado editorial. Cada país tem a sua especificidade?

Sim, sim, sim. Cada mercado tem umas categorias mais fortes do que outras. Por exemplo, no México a não-ficção e o thriller são muito mais fortes do que noutros países. E os autores locais são sempre muito importantes. Por isso é que acreditamos que uma forma de crescer é trabalhar com os autores locais.

Disseram-me que o Luiz sabe tudo sobre bestsellers...

Eu? Sei tudo sobre bestsellers? [ri-se divertido] Não, não sei tudo...

Quais são os ingredientes para um livro se tornar um bestseller?

Se todos conhecêssemos essa fórmula, seríamos todos ricos.

Alguns parecem já ter descoberto essa fórmula, como o Daniel Silva.

Hummmm... O Daniel Silva é um bestseller, mas foi um autor que se trabalhou. Mas veja a história de outros bestsellers, como o Harry Potter, por exemplo, ou a série Millennium [ambos rejeitados por várias editoras antes de se tornarem fenómenos de vendas estrondosos]. Se um editor soubesse qual é a fórmula para obter um bestseller... não é assim tão simples. Depende de quem o lê, da comunicação, do boca a boca, das oportunidades. Construir um bestseller, descobrir um bestseller? Não há uma fórmula para isso.

[María Eugénia Rivera entra na conversa]

Às vezes é como apostar na roleta. Tu fazes aquelas que te parecem as melhores apostas, investes nos números que te parece mais provável calhar, mas no final não depende de ti. Nós, os editores, fazemos tudo o que podemos, tudo o que está ao nosso alcance, porque isto é a nossa vocação e acreditamos em cada livro que publicamos. É a nossa forma de amar os livros.

Se a J.K. Rowling lhe tivesse levado o Harry Potter teria apostado nele?

Luís Maria Pugni – Como disse um amigo meu, no dia depois, com o jornal na mão, é muito fácil decidir. A verdade é que não sei se teria. Ninguém sabe.

O Luis falou em ‘construir’ um bestseller. Não é só o trabalho do autor, portanto...

‘Construir’ um bestseller é, quando o autor começa a ter um certo nível de vendas, então investes mais, desenvolves mais o marketing, começas a colocá-lo a nível internacional, a promovê-lo. A certa altura não estamos a falar de um autor daqui, do Uruguai ou de Espanha, mas de um autor internacional. E isso é um trabalho internacional…

E depois há o fator sorte, não é?

Sim, se não tens esse fator do teu lado, nada feito. É preciso editar o livro oportuno no momento justo. 

Se calhar há por aí bestsellers nas livrarias à espera que os descubram...

Ou livros que estão adormecidos um ano e de repente descolam. Por exemplo, um livro que se chama A Subtil Arte de Dizer Que se F*da. Esse livro esteve quase um ano ‘adormecido’ e de repente, por uma razão que ninguém sabe explicar, levantou voo. O mesmo se passou com um livro nosso que se chama El Chico que se comió el universo, de Trent Dalton, uma história que se passa na Austrália, um livro fantástico. Esteve uns sete ou oito meses parado e de repente descolou e agora está no top3 ou top5 há seis ou sete meses. Há muitos fatores e a sorte, sim, é um deles. E também acontece termos o livro há bastante tempo, sai o filme, e aí as vendas disparam. Isso nunca sabemos. Houve um produtor que leu o teu livro, gostou e pronto. É o acaso.

MER – Há livros que têm os ingredientes para que triunfem e esses têm mais possibilidades de chegar a bestsellers. Mas a última palavra pertence sempre ao leitor.

O editor tenta influenciar o autor? Dizer-lhe, por exemplo, ‘agora devias escrever sobre a Rússia ou sobre refugiados, porque está na moda’?

MER – Isso depende de o autor querer trabalhar com o editor. Há autores a quem fazes sugestões, com quem partilhas o teu ponto de vista. ‘Funcionava melhor se desses aqui uma volta, ficava mais fluido’ e há autores que se deixam guiar.

LMP – E também há autores de não-ficção a quem podes pedir expressamente para escrever um livro sobre aquele tema.

MER – Ficção e não ficção são dois campos distintos. A maioria dos bons autores deixa-se aconselhar pelo editor. E um livro é como uma criança – todos estamos dependentes do bebé que nos calha! [risos]

Disseram-me que não há fórmula para descobrir ou construir um bestseller. Mas há pequenos segredos?

LMP – Quando leio um livro posso perceber que tem certas características. Posso trabalhar para que tenha um certo êxito. Mas para ser bestseller tem chegar a outro patamar.

Qual é a fasquia?

Depende da magnitude do mercado. Há mercados em que pode ser 10 mil, noutros cinco mil, noutros 25 mil... E há aqueles livros de que toda a gente fala e são um bestseller mundial. Para onde quer que viajemos, vemo-los em todo o lado.
 

Já lhe aconteceu ler um livro que é um sucesso enorme e não percebe porquê, porque não vê nada de especial naquele livro?

[risos] É muito difícil responder a isso. O que posso dizer é que há quem publique certos livros sem grande fé e depois eles tornam-se bestsellers. 

Em todo o caso, não existe uma proporção direta entre a qualidade do livro e a quantidade de exemplares que vende, pois não?
 

O que é a qualidade? Isso é muito relativo. O que significa qualidade? O livro é cultura, mas também é entretenimento.

E se um livro entretém, tem ou não qualidade? Existe um compromisso entre entretenimento e cultura, compreendes?

Há livros que têm um nível literário profundíssimo, lê-los é como ouvir uma composição de Mozart ou de Beethoven. Mas um livro que te entretém e que porventura não tem esse nível literário, deixa de ser bom? Acho que não.

MER – Há critérios que qualquer livro deve cumprir. A história tem de ser coerente, bem escrita, independentemente de ser literário ou não, porque aí já entramos noutra discussão. Mas como editores temos de entregar ao leitor o melhor livro possível. Qualidade é um livro cumprir a sua função dentro do seu género. Há livros de suspense que são literários e outros que são de entretenimento. Uns não são melhores nem piores do que os outros. 

A lógica de vender muito não destrói um pouco a ideia romântica que temos do livro, como um objeto especial, quase sagrado?
 

LMP – Uma coisa não impede a outra. Para que uma obra perdure no tempo, tem de gerar recursos. Um autor, para continuar a ser publicado, tem de ser rentável, não necessariamente no curto prazo, mas o negócio tem de ser rentável para poderes apostar em autores que vão crescer com o tempo. Sabemos que o que temos é um negócio editorial, sabemos que temos de ser rentáveis, sabemos que essa rentabilidade significa a perdurabilidade do negócio e significa que podemos editar mais. Mas antes de tudo, amamos os livros, lemos muitíssimos livros – eu leio quase tudo o que publicamos e mais ainda. Independentemente de isto ser um negócio, a primeira condição para qualquer pessoa que esteja no mundo editorial é amar os livros, amar a leitura, amar o que faz. Qualquer pessoa deste meio que entrevistes te vai dizer isso: ‘Estou aqui porque amo os livros’.

A María Eugénia lê muitos manuscritos dos autores? Tem algum processo, algum método, por exemplo abrir numa página ao acaso e ver se interessa?

Começo sempre na primeira página. Se abres o livro na primeira página, lês cinco páginas e pensas ‘O que é que ele está a dizer? Isto não me interessa nada’ – não vale a pena. Quando me chega um manuscrito, tento ler as primeiras páginas com bastante atenção, para ver se a história tem a capacidade de me agarrar, e a partir daí leio mais rápido. Mas há alguns que te fascinam e lês devagarinho porque são estupendos.

Quantos manuscritos lhe chegam à mão todos os meses?

Não estou sozinha, há uma equipa. Mas chegam-me muitos manuscritos, seja através dos agentes, sejam os próprios autores e até espontâneos.

Espontâneos?

Pessoas que te mandam-te um email a dizer: ‘Este é o meu livro’.

Também lê esses?

Sim. Também vejo.

E já houve algum que publicasse?

É raro, mas já aconteceu. Sobretudo novelas