Política a Sério

À beira do KO técnico

Parecia estarmos a assistir a um combate de boxe em que um dos contendores achava que já ganhara e não precisava de atacar mais – bastando-lhe gerir o tempo e esperar pelo gong final.

Antes de o debate começar, uns comentadores diziam que ia ser muito mais complicado para Rui Rio do que para António Costa.

Não percebi porquê, mas com certeza que iria perceber a seguir.

Mas sucedeu o contrário: iniciado o confronto, viu-se logo que Rio ia ganhar.

Porque estava descontraído, desenvolto, à vontade – enquanto Costa se mostrava acabrunhado, de cara fechada, pouco confortável.

Como diria Pacheco Pereira, Rio apresentava-se como uma «pessoa normal», enquanto Costa não tirava de cima a canga do primeiro-ministro.

Um homem que muitas vezes sorri a despropósito, a ponto de se perguntar ‘este homem ri de quê?’, não esboçava sequer um sorriso.

Começando ao ataque, embora sem ser agressivo, Rui Rio foi desmontando um a um os sucessos do Governo.

Crescemos acima da média europeia? Sim. Mas dos países com quem nos comparamos, Portugal foi o que cresceu menos.

As exportações continuam a subir? Sim. Mas as importações ultrapassaram-nas, a ponto de termos de novo um défice externo.

A dívida diminuiu percentualmente? Sim. Mas aumentou em volume, tendo crescido sempre.

Os impostos sobre os rendimentos baixaram? Sim. Mas os indiretos subiram muito mais, levando a receita fiscal a crescer muito acima do crescimento do PIB.

O consumo aumentou? Sim. Mas muito à custa das poupanças, que estão num mínimo histórico.

O défice público nunca foi tão baixo? Sim. Mas as cativações nunca foram tão altas.

E assim por diante.

O primeiro-ministro perdeu em quase todos os rounds do debate.

Perdeu na economia, perdeu nos impostos, perdeu na saúde, perdeu na justiça, perdeu na educação – só não perdeu nas obras públicas, embora também não tenha ganho.

Na economia, como se disse, Rio conseguiu desmontar a ideia de que o país está muito melhor do que estava no tempo de Passos Coelho, pelo que estes 4 anos foram tempo pedido. E deu como exemplo final a emigração, que não parou: foram cerca de 85.000 pessoas por ano.

Na saúde, Rio conseguiu passar a ideia de que estamos pior do que antes. Costa objetou que se gastou mais dinheiro e se contratou pessoal, mas Rio mostrou que foram feitas menos consultas, indicador que geralmente serve para aferir a eficácia. Se se gastou mais dinheiro e se contratou pessoal, então houve má gestão.

Ainda na saúde, Costa não conseguiu explicar por que razão é contra as parcerias público-privadas.

Na educação, Rio conseguiu passar a ideia de que dialogaria melhor com os professores.

Na justiça, indignou-se com a ‘justiça popular’, feita nas páginas dos jornais, porque o Ministério Público não dá conta do recado.

No ambiente, Rui Rio seguiu outra tática: depois de Costa ter enumerado as várias medidas que o Governo tomou, Rio disse que o ambiente é uma questão de todos e não o usará para ganhar votos (insinuando que o PS o faz).

De resto, em alguns temas, Rio reconheceu estar de acordo com o primeiro-ministro – induzindo subliminarmente a ideia de que não estava ali para criticar por criticar. Se fazia críticas, era porque as coisas estavam mesmo mal.

Durante todo o debate, António Costa esteve à defesa.

Mas numa defesa frouxa, sem rasgo nem alma.

Pareceu abatido, quase apático, com falta de energia e capacidade de resposta.

Nunca teve a iniciativa do debate, como se estivesse incómodo naquele papel.

Ouvi dizer que foi ‘tática’.

Ora, em Portugal ou no estrangeiro, nunca vi um político deixar o adversário ganhar um debate por razões ‘táticas’.

Se outros motivos não houvesse, há o amor próprio, há o não querer dar trunfos ao adversário, há os militantes que precisam de ânimo e aguardam com expectativa estes momentos.

Costa perdeu porque nunca conseguiu superiorizar-se a Rui Rio.

Porque este argumentou melhor.

E também falou melhor, de uma forma simples e clara, com frases com princípio, meio e fim.

Já se sabe que António Costa come palavras, sobretudo quando quer falar depressa.

Mas além disso tem má dicção. Tem uma voz forte, de trovão, mas má dicção.

Por isso, o que Rio dizia era sempre mais audível, menos embrulhado.

Dir-se-á que Rio foi perdendo algum gás ao longo do debate.

Entrou muito vivo, e foi esmorecendo um pouco.

Só que Costa não tirou benefício disso: foi sempre monotonamente igual do princípio ao fim.

Nessa medida, parecia estarmos a assistir a um combate de boxe em que um dos contendores achava que já ganhara e não precisava de atacar mais – bastando-lhe gerir o tempo e esperar pelo gong final.

E assim foi.

Uma vitória aos pontos, pois Rui Rio não  forçou o KO técnico.