Opiniao

Um país de bufos e de abafadores

Portugal tem reconhecidamente dos melhores serviços secretos, com excelentes profissionais e informadores. Não é, aliás, à toa que o novo responsável pelos serviços europeus de informações é um português – Casimiro Morgado (há semanas nomeado diretor do Centro de Inteligência e Situação da União Europeia).

Também recentemente, no ano passado, as secretas e a Polícia Judiciária (internacionalmente reconhecida como uma polícia de investigação de excelência) portuguesas foram condecoradas pelo Papa Francisco, pela eficácia dos seus operacionais durante a visita do Sumo Pontífice a Fátima – sendo que, tirando o SOL e o i, nenhum outro meio de comunicação social deu relevância ao assunto.

A discrição das secretas e da PJ – ao contrário de muitas outras instituições no país que temos – faz parte do ADN dos seus profissionais e é uma das razões da sua eficácia e dos seus resultados de sucesso.

Por isso, é ainda mais absolutamente extraordinário que altos representantes do Estado e altas patentes das Forças Armadas Portuguesas tenham ‘engendrado’, participado ou admitido a fantochada do ‘achamento’ na Chamusca de armas roubadas dos paióis de Tancos e ‘acharem’ que podiam não sair chamuscados ou que a ‘coisa’ podia ‘passar’ sem ninguém dar por ela. 

Desde muito cedo, aliás, se percebeu que tudo o que estava relacionado com Tancos estava ‘mal contado’. 

A começar pelo próprio roubo. 

Face à gravidade do assunto, e mesmo em plena crise do incêndio de Pedrógão Grande, o Presidente da República e comandante Supremo das Forças Armadas convocou de emergência o presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro para reunião ao mais alto nível a fim de analisarem o roubo de armas de guerra e definir a resposta imediata, tanto interna como externa, perante os alarmes que logo soaram na própria NATO (vale a pena recuperar a capa do SOL de 1 de julho de 2017, poucos dias após o assalto).

Ora, em outubro de 2017, três meses depois do roubo e dias após o ‘achamento’ da Chamusca, Ferro Rodrigues deu uma entrevista à revista Visão em que já dizia que, se o assunto não fosse tão grave, o caso de Tancos até tinha «aspetos altamente cómicos».

Segunda figura do Estado, Ferro Rodrigues nunca chegou a especificar a que ‘aspetos’ se referia. Mas lá que também ele já sabia de muita coisa... Tanto que, na mesma entrevista, já referia que faltava «apurar quem promoveu, realmente, esta situação e quem ganhou com ela».

Pois bem, crê o Ministério Público ter apurado que o ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes, e o ex-chefe da Casa Militar da Presidência da República, tenente-general  João Cordeiro,  estavam a par de toda a famigerada operação de ‘achamento’ das armas. E que ambos mentiram.

Para quem conhece Azeredo Lopes, é difícil de conceber que tenha trocado informações com segundas linhas do PS sobre o assunto e, em face de tamanha gravidade do mesmo, tenha escondido essas mesmas informações do seu primeiro-ministro.

Do mesmo modo, tratando-se de um militar de alta patente a quem o Presidente elogiou a «exemplar lealdade e enorme dedicação» no comunicado oficial de aceitação da sua resignação como chefe da Casa Militar, em dezembro de 2017, também não é concebível que o tenente-general João Cordeiro tenha tido, afinal, tamanha deslealdade e incumprimento dos seus mais elementares deveres (no dia em que os militares desrespeitarem as hierarquias...) para com o Comandante Supremo das Forças Armadas... a quem servia.

Confrontado em Nova Iorque com os novos dados do caso Tancos, Marcelo voltou a reafirmar que a Justiça deve levar a investigação «até às últimas consequências e doa a quem doer» e afiançou que «o Presidente não é criminoso».

Ora, isso não está em causa. Até porque o MP não procedeu criminalmente contra o ex-chefe da Casa Civil do Presidente da República, uma vez que os crimes que este poderia ter cometido, porque puníveis com pena de prisão não superior a três anos, não admitiam a produção de prova pelos meios de que o MP dispõe nos autos.

Estamos, pois, esclarecidos. 

E, ao contrário de Ferro Rodrigues, sem achar piada alguma ao que quer que seja neste caso gravíssimo de Tancos.
Só fica uma dúvida: sabendo-se num país de bufos, por que razão os abafadores não se lembraram do segredo de Estado?