Opiniao

Eleições à vista!

Estamos a um passo das eleições legislativas. Não falta muito para que cada um de nós seja chamado a intervir, escolhendo quem, no seu entender, deve ficar à frente dos destinos do país. Votar é um ato extremamente importante e de muita responsabilidade que deve ser encarado com respeito e com toda a atenção. Por isso, nunca é demais insistir: no próximo dia 6 de outubro, ninguém falte ao cumprimento do seu dever.

Nos últimos tempos, vamos assistindo àquilo que já é habitual nestas ocasiões: à tentativa, por parte do Governo, de arrumar a casa e mostrar trabalho feito. A um piscar d’olho em diferentes direções, para ganhar votos em variados setores. É um comportamento normal, que não condeno nem aprovo, e ao qual já estamos habituados. Quer se queira quer não, continuaremos a ter de conviver no futuro com comportamentos deste tipo.

Em todas as áreas são visíveis sinais dessa preocupação, a ponto de se comentar: ‘Eleições à vista’. O meu setor, o da saúde, não foge à regra e os sinais estão à vista de toda a gente, não só pelo que tem sido mostrado como também pelas promessas para o futup

Na Medicina Familiar, o que mais se destaca é a atribuição de médico de família a cada português, só que feita atabalhoadamente e a correr, como se não exigisse ponderação e um estudo prévio. Essa tarefa, tal como eu próprio e por diversas vezes aqui o referi, é fundamental e prioritária. Porém, duas questões se me levantam: porquê só agora e quais os critérios utilizados? A resposta à primeira pergunta é óbvia: ‘Eleições à vista!’. Mas, quanto à segunda, já é mais difícil encontrar explicação.

Se tudo isto fosse feito com rigor e bom senso, seria eu o primeiro a aplaudir de pé esta medida, que só pecaria por vir demasiado tarde. Contudo, a distribuição de utentes pelos vários clínicos não tem sido pacífica, gera controvérsia, e os critérios utilizados nem sempre são entendidos pelas partes envolvidas. Se não, vejamos: faz algum sentido separar famílias, atribuindo no mesmo centro um médico diferente para cada um dos membros?

Tem alguma lógica deslocar cidadãos que residem nas proximidades de certas unidades para locais mais afastados, com os consequentes prejuízos pessoais e financeiros para eles? A justificação com a morada fiscal será suficiente para explicar este procedimento?

Depois, outra questão se pode ainda colocar: como se irão constituir as novas listas de utentes? Antigamente, as listas eram exageradamente elevadas. Os médicos aceitavam todos os utentes sem prévia seleção, e mesmo assim havia portugueses sem médico de família. Hoje, pretende-se que cada cidadão tenha o seu médico (o que é louvável). Os doentes são menos – mas, ao mesmo tempo, vejo os jovens médicos muito preocupados com a composição da sua lista, colocando reservas à entrada de alguns elementos, de modo a não ultrapassarem certos parâmetros. O que, de algum modo, poderá condicionar a acessibilidade dos utentes aos serviços.

Convém ter em conta que o centro de saúde é a porta de entrada no sistema e que o acesso aos cuidados de saúde deve estar sempre garantido. 

Germano de Sousa, antigo bastonário da Ordem dos Médicos, com toda a sua experiência e o seu profundo conhecimento na matéria, ainda há bem pouco chamava a atenção para este ponto, deixando bem clara a necessidade de serem dadas garantias de acesso a todos os portugueses.

Daí eu olhar com apreensão para o assunto; pois, como não acredito em golpes de mágica, tenho sérias dúvidas de que esta medida, apesar das suas ‘boas intenções’, não possa tornar-se numa ‘mistura explosiva’. O futuro o dirá.

A resolução do problema passa sempre pela colocação de mais clínicos nas unidades mais carenciadas. É desejável que as listas de utentes não sejam muito aumentadas para não ficarem ingeríveis, mas com a acessibilidade sempre garantida.

É isto que espero e desejo para os médicos que sucederem à minha geração. Corrijam os nossos erros do passado, mas mantenham o que conseguimos de positivo. Os doentes para quem trabalhamos e por quem lutamos bem o merecem.