Olhar ao Centro

O voto útil em Rui Rio

A campanha eleitoral chegou ao fim. Apesar de alguns anúncios de abandono dos roteiros da ‘carne assada’ e afins, ainda houve almoços e jantaradas (curiosamente, até alguns partidos da extrema-esquerda, apoiantes da ‘geringonça’, usaram e abusaram dos mesmos...). Quem diria. 

« Hoje, as personagens são todas feministas, ecologistas, respeitadoras das minorias. E os leitores começam a ficar cansados disso».

Arturo Pérez-Reverte

A campanha eleitoral chegou ao fim. O tempo de campanha foi muito maior do que a lei prevê. Foi uma campanha em que já pouco ou nada se viram de meios como carros de som, bandeirolas nos postes e pontes, papelada em barda, caravanas de carros, plásticos para todos os gostos, etc., etc. 

Apesar de alguns anúncios de abandono dos roteiros da ‘carne assada’ e afins, ainda houve almoços e jantaradas (curiosamente, até alguns partidos da extrema-esquerda, apoiantes da ‘geringonça’, usaram e abusaram dos mesmos...). Quem diria. 

O figurino de vários atos de campanha de alguns dos principais partidos políticos mudou para melhor. Forte campanha digital, institucional. Lápis em vez de canetas. Conversas com os eleitores em vez de refeições com os eleitores. 

Sobre os conteúdos programáticos, mais uma vez não se debateu o suficiente para se perceber o que distingue no essencial os candidatos a primeiro-ministro. É caso para afirmar que em muitos programas eleitorais existem várias ilusões e até mentiras. Os debates no espaço do audiovisual foram os momentos mais racionais. 

De entre outras razões para se encontrarem as diferenças entre António Costa e Rui Rio, viu-se que o líder da oposição, Rui Rio, é melhor em campanha do que António Costa. 

Mais descontraído, solto, próximo, simpático, certeiro, com linguagem mais acessível e com mais ‘killer instint’. António Costa pareceu estar muito institucional, metido numa camisa de onze varas por ser primeiro-ministro. Entre um e outro as diferenças ficaram mais acentuadas. Um com virtudes que agradam mais a determinados eleitores. Bem como com alguns defeitos que até determinados eleitores suportam. 

Passada a campanha, independentemente dos resultados, Rui Rio sai melhor do que entrou: tem defeitos que agradam e virtudes que assustam (mas que são necessárias na gestão da coisa pública). 

Desde logo, com Rui Rio a troika saiu de vez de dentro do PSD. Algo que para alguns eleitores era perturbador. Uma campanha onde até o Bloco de Esquerda (o Bloco?) se assumiu como social-democrata... Foi pena que algumas sondagens, estudos de opinião quantitativos e qualitativos, realizados antes das férias de Verão para aferir quem poderia ter melhor resultado eleitoral para o PSD (sem Rui Rio como candidato a primeiro-ministro) não tivessem sido do conhecimento público, para se perceber o quanto Rui Rio acrescenta ao PSD e não o contrário. Mas isso fica para outra oportunidade. Até porque essas sondagens existem. 

Domingo os portugueses vão votar. E será que Daniel Innerarity tem razão quando diz que que os eleitores na Europa estão a votar mais ‘contra’ do que ‘a favor’? «Estamos a prestar uma grande atenção aos provocadores», afirma, para chamar a atenção para os extremos e antissistema. Será que esses epifenómenos vão fazer-se sentir através do voto no próximo domingo? Ou os partidos tradicionais e institucionais vão segurar (senão mesmo aumentar) o seu peso eleitoral? Com menos (nuns casos) e mais (noutros casos) até há uns meses atrás muitos vaticínios (com muita amplificação de vários media que às vezes mais não parecem do que autênticos projetos ideológicos e partidários...) diziam que o sistema partidário português ia implodir em outubro de 2019. 

Para quem, com todo o respeito, acompanhou as campanhas eleitorais dos chamados ‘novos’ partidos políticos e dos partidos fora do arco parlamentar, é difícil prever que tal irá acontecer. Apesar de existirem vários sinais de que as democracias liberais, na Europa e no Ocidente, já não estão tão sólidas e já não são tão consensuais como seria desejável. Alguns estudos atestam que o interesse na política está a descer cada vez mais, o reconhecimento e a valorização da importância de viver em democracia também, bem como, por exemplo, o apoio a um Governo militar começa a aumentar em vários países.

Indicadores associados a outros que indiciam que os antissistema, ansiolítica, antipolíticos, antipartidos, têm em Portugal caminho para crescer.

Uma coisa é certa: esta campanha eleitoral confirmou que estão em disputa dois projetos diferentes para Portugal e para os portugueses - um personificado por Rui Rio e o PSD, e outro por António Costa e o PS. Aguardaremos para confirmar se os portugueses vão ou não usar o voto útil, num e noutro candidato a primeiro-ministro. 

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