Pátio das Cantigas

Tancos no meio do furacão…

Tancos será  uma ‘espinha atravessada  na garganta’ de  Marcelo persuadido a não descurar  a ‘guarda’ em relação 
ao antigo pupilo 

Voltemos a Tancos, apesar de tudo o que já foi dito e escrito, incluindo o reaparecimento do ‘articulista’ José Sócrates, que saiu das brumas da Ericeira para zurzir no Ministério Público em ‘santa cruzada’, enquanto aguarda o veredicto de um juiz cuja atuação originou recentemente um inesperado título do Público, à largura da capa: Procuradores acusam Ivo Rosa de ‘minar’ o processo Marquês. Por este andar, ainda lhe erguem uma estátua…

O timing do Ministério Público, obedecendo a prazos, teve o condão de repor Tancos na agenda mediática, e mudou radicalmente os planos dos partidos em campanha. Uns nem se ouviram, outros fizeram por se ouvir ‘forte e feio’, e outros, ainda, fingiram que não era nada com eles. 

À direita, aproveitou-se o pretexto, servido de bandeja, e tanto o PSD como o CDS não perderam tempo a reagir. À esquerda, o embaraço foi notório e em crescendo, à medida que se ‘digeriam’ as mais de 500 páginas que descrevem as peripécias do assalto e as conclusões dos investigadores, concluindo-se pela implicação do ex-ministro da Defesa, a par de 22 arguidos, numa história rocambolesca, que envolve brios, encobrimentos e cumplicidades, que envergonham a instituição militar e o poder político. 

O Bloco e o PCP continuaram ‘atados de pés e mãos’ e fizeram coro com o slogan repetido à exaustão – ‘à Justiça o que é da Justiça’ –, o favorito de António Costa. 

O PS, apanhado aparentemente de surpresa – o que não deixa de ser surpreendente –, esbracejou entre a desvalorização do impacto das revelações e os remoques irritados à oposição, cujo silêncio lhe convinha. Não foi bonito. E não faltou sequer a ‘teoria da conspiração’, estampada no Expresso, que está a pôr-se cada vez mais a jeito para dar lastro a estes ‘recados’, plantados sob conveniente anonimato. Ficaram marcas. Se as relações azedaram entre António Costa e Rui Rio – porque com Assunção Cristas há muito que andavam azedas –, o ambiente não ficou menos turvo entre Belém e S. Bento, semeado de suspeitas mútuas.

Costa tardou a dizer que Marcelo «está acima de qualquer suspeita», e só o fez quando o seu silêncio se tornou ‘ensurdecedor’ perante a fuga cirúrgica de informação sobre o «papagaio-mor do reino» – uma carapuça com destinatário óbvio, visando desviar as atenções das responsabilidades do Governo. Aliás, sem o conseguir. 

O roubo de Tancos foi um dos episódios mais graves em democracia, se descontarmos as atribulações revolucionárias pós 25 de Abril, quando se arrombavam alegremente fechaduras e se distribuíam armas ‘ao povo’, feitos de que alguns posteriormente se gabaram com um sentimento misto de impunidade e insensatez. 

O facto é que uma unidade, supostamente de elite, foi violada com recurso a meios toscos e os seus paióis devassados sem que os intrusos fossem intercetados, circulando à vontade a ‘abastecerem-se’ de armas e munições.
Verificou-se que os sistemas de vigilância não funcionaram, por serem obsoletos ou estarem inoperacionais, e tão pouco as rondas normais primavam pela eficácia. Uma lástima ainda sem consequências disciplinares. 
O assalto pôs a nu a insegurança do Estado e suscitou naturais reservas internacionais, passada a fronteira da perplexidade. 

Recorde-se que Costa estava de férias e assim continuou, ficando Marcelo com a ‘batata quente’, a insistir que «deve ser apurado tudo, factos e responsabilidades, integralmente até ao fim». 

Já nessa altura, também – justiça seja feita –, Assunção Cristas apelava a Costa para voltar de férias e demitir os dois ministros, da Defesa e da Administração Interna, por causa de Tancos e dos incêndios de Pedrógão. Em vão.
Mas ouviria, depois, Costa argumentar no Parlamento, terçando armas por Azeredo, que «não é responsabilidade política de nenhum ministro estar à porta de um paiol a guardá-lo». 

Pois não. Mas não é suposto, também, trocar mensagens comprometedoras com Tiago Barbosa Ribeiro, destacado dirigente socialista do Porto, escrevendo, a propósito da ‘operação encoberta’ de ‘devolução’ das armas, que «eu sabia, mas tive de aguentar calado a porrada que levei. Mas, como é claro, não sabia que ia ser hoje». Uma confissão. 

Estes registos são importantes para se perceber porque foi Azeredo Lopes constituído arguido e acusado de crimes como abuso de poder, denegação de Justiça, prevaricação e favorecimento pessoal. Uma lista pouco invejável para um homem que distribuiu arrogância, quer enquanto presidente da ERC quer nas funções de ministro numa pasta que nunca lhe assentou bem.

É uma incógnita se os estilhaços desta ‘bomba’ ao retardador poderão influenciar as legislativas de domingo. Mas se o PS for vencedor sem maioria, só poderá queixar-se de si próprio e da forma displicente como Costa geriu este dossiê desde o primeiro momento. 

De caminho, e resultados eleitorais aparte, o arrefecimento das relações entre Belém e S. Bento, ou entre Costa e Rio, não será uma figura de estilo. 

Doravante, Tancos será uma ‘espinha atravessada na garganta’ de Marcelo, talvez definitivamente persuadido a não descurar a ‘guarda’ em relação ao antigo pupilo de Direito, que tem apadrinhado com zelo.

O PS é um partido ‘viciado’ no poder, do qual só esteve afastado quando os cofres ficaram vazios ou sob o efeito da ‘onda cavaquista’. Tem o seu pessoal fortemente ancorado no aparelho do Estado, desde a administração central às empresas públicas, incluindo zonas sensíveis como os media, da RTP-RDP à Lusa.

A ‘geringonça’ permitiu-lhe atrelar o Bloco e o PCP, com sinecuras que os bloquearam e tornaram irreconhecíveis, durante a campanha e antes, enquanto sobravam os pretextos para voltarem a ser ‘partidos de protesto’. 
Quanto a Rio, se ‘perder por poucochinho’, talvez ganhe um novo alento na liderança do PSD, ‘fintando’ os seus adversários internos à espreita. O pior, depois, será a sua visão populista da regionalização, além da Justiça e dos media, setores com os quais convive mal. 

Fragilizar os media ou a independência da Justiça, subordinando esta ao poder político, será o mesmo que abençoar o adiamento, sine die, dos casos mais polémicos. Não faltam as velas acesas por importantes devotos…
Com o Lorenzo a não provocar nos Açores tantos estragos como chegou a temer-se, o ‘furacão’ centrado em Tancos já acionou o ‘alerta’ laranja e ameaça passar a vermelho…