Opiniao

A arruaça de Costa

Como vivemos numa república das bananas, Costa, ao invés de ser penalizado nas urnas pelo comportamento arruaceiro que evidenciou, bem pelo contrário, graças, sobretudo, à generosidade de uma submissa imprensa, escrita e falada, saiu incólume da arruaça em que se envolveu, tendo, quem sabe, colhido até mais alguns votos dos que ainda se encontravam na pasta dos indecisos.

O último dia da campanha eleitoral ficou tristemente marcado pelo incidente que Costa protagonizou com um popular, quando este o confrontou com uma acusação não verídica, a de que ele estaria de férias quando ocorreram os incêndios de Pedrógão.

As fúrias de Sócrates, de quem o actual inquilino de S. Bento foi discípulo, ficaram célebres, com ataques de mau génio dirigidos aos seus colaboradores, que incluíam destruição de telemóveis, arremessados contra o chão, para além, certamente, de outros danos provocados em mobiliário pago com o dinheiro dos contribuintes.

Costa sempre quis estar à altura do seu mestre, pelo que entendeu por bem seguir-lhe as pisadas, especializando-se igualmente em fitas incontroladas de fúria, quando as coisas não lhe correm de feição.

Mas Costa conseguiu superar o governante em quem se inspirou, e a quem serviu como imediato, dando-se ao luxo de direccionar o seu execrável feitio contra o cidadão comum, conforme se comprovou na passada sexta-feira.

As arruadas tão do agrado dos políticos, mas que a elas somente recorrem quando abre a caça aos votos, são férteis em episódios como os registados com a caravana socialista, em pleno Terreiro do Paço, sendo comum os candidatos terem de esgrimir argumentos com populares que a eles se dirigem, única altura em que conseguem estar de cara a  cara com alguém que os governa.

Costa, ao contrário de contra-argumentar de forma educada e cívica, apresentando dados correctos que desmascarassem a infundada denúncia de que fora alvo, preferiu reagir com violência verbal, envolvendo-se numa peixarada indigna de quem exerce as altas funções de que foi investido, só não chegando ao contacto físico com o seu oponente porque a isso foi impedido pelos seus próprios seguranças.

Costa é especialista em vitimizar-se, sobretudo quando os estudos de opinião sugerem um decréscimo da sua aceitação popular, pelo que foi exactamente a isso que recorreu, com a esperteza que lhe é peculiar, desviando as atenções de outros factos bem mais graves.

Senão, vejamos, e se estivesse realmente de férias no dia em que Pedrógão começou a arder, haveria lugar a recriminações? A que propósito, não sendo ele dotado do poder de antecipar catástrofes? Quanto muito teria sido penalizado, naturalmente, caso não tivesse interrompido a licença logo após a calamidade que se abateu sobre portugueses inocentes.

Não se percebe, por isso, tanta irritação perante um comentário que está muito longe de se poder associar a um crime de difamação ou de injúrias, fazendo fé nas notícias que dão conta de que no Largo do Rato se estuda uma eventual participação criminal contra o idoso que esteve muito perto de levar uma lambada do chefe do governo da Nação.

Mas esse mesmo idoso, que não soube estudar bem a lição e preocupou-se apenas com os seus cinco minutos de fama, teria sido bem certeiro se tivesse acusado Costa com aquilo que ele realmente fez, que foi entrar de férias escassos dias depois dos incêndios que enlutaram o País!

O primeiro-ministro tinha férias escalonadas para a primeira semana de Julho (os fogos deflagraram a 17 de Junho), em Palma de Maiorca, e não as adiou, ausentando-se do leme da governação quando Portugal ainda chorava os seus mortos e as cinzas da tragédia permaneciam acesas.

As chuvas de críticas, então endereçadas por vários sectores da sociedade, e com particular veemência pelos partidos da oposição à direita do PS, tiveram como base esse facto indesmentível, a de ter ido a banhos quando a sua presença em S. Bento se justificava prementemente, e não, como erradamente agora Costa nos pretende fazer crer, por não estar em território nacional quando foram ateadas as primeiras chamas que dizimaram pessoas e bens.

Como vivemos numa república das bananas, Costa, ao invés de ser penalizado nas urnas pelo comportamento arruaceiro que evidenciou, bem pelo contrário, graças, sobretudo, à generosidade de uma submissa imprensa, escrita e falada, saiu incólume da arruaça em que se envolveu, tendo, quem sabe, colhido até mais alguns votos dos que ainda se encontravam na pasta dos indecisos.

Os jornaleiros do costume apressaram-se, de imediato, a desvalorizar o comportamento da principal figura de cartaz do PS, apresentando-o como humano e, consequentemente, como susceptível, tal como qualquer outro cidadão, a reagir intempestivamente perante uma calúnia atentatória da sua honra.

Omitiram, claro está, um pequeno, mas significativo, pormenor, o de que Costa não é um cidadão comum, mas sim passeava-se por aquele lugar público como candidato à chefia do governo, cargo, aliás, que já exerce há quatro anos!

De um primeiro-ministro exige-se contenção nos actos, mesmo quando se vê forçado a actuar sob pressão, esperando-se que se constitua num exemplo de civismo, de moderação e de respeito pelo próximo.

Costa fez precisamente o contrário, não tendo sido capaz de se distinguir de um qualquer desordeiro a quem agentes de autoridade se viram constrangidos a usar da força para evitar uma alteração da ordem pública.

Mas pior ainda, facto demonstrativo da sua natureza rancorosa e da manifesta ausência de carácter de que tem dado sucessivas provas, a uma mentira, não ofensiva, Costa respondeu com outra mentira, essa sim susceptível de ofender a honra e a honorabilidade dos visados, a de que o PSD e o CDS tinham plantado ali aquele homem com o propósito de o provocar.

Sem provas, sem qualquer indício palpável que pudesse confirmar essa sua suposição.

Infelizmente, sou obrigado a reconhecer que nós, portugueses, somos merecedores destas figuras menores que nos desgovernam. O eleitorado, em vez de castigar Costa pela vergonha dos seus actos, premiou-o com a vitória nas urnas.

Pode-se argumentar que foram apenas cerca de 1 milhão e 800 mil portugueses, num universo de mais de 10 milhões de recenseados, que deram o seu voto ao PS, mas a apatia que hoje caracteriza este povo a isso nos conduz.

A partidocracia institucionalizada não se caracteriza por dar voz às maiorias, mas sim por permitir que os nossos governantes sejam escolhidos por uma minoria.

São as regras do jogo, que aceitamos sem pestanejar, por isso merecemos ter o Costa que temos!

 

Pedro Ochôa