Opiniao

«1 dia sem ti, são 24 horas de infelicidade»

A felicidade é, pois, habitualmente, medida em função das nossas expetativas. Se temos expetativas demasiado altas, é natural que nos pareça que tudo fica aquém do que sonhámos e, como tal, nos sintamos infelizes. Pelo contrário, quando tudo corre como gostaríamos, parece que somos felizes.

Esta frase, fotografada pela Ângela, em Alenquer, apresenta uma bonita declaração de amor: «1 dia sem ti, são 24 horas de infelicidade».

Apesar da vírgula, que não deveria ter sido colocada, a pausa que esta provoca faz ecoar um suspiro pela tristeza que o afastamento da pessoa amada suscita. Adicionalmente, o facto de os números terem sido escritos com algarismos e não com palavras, permite equacionar mais visivelmente a diferença que, aparentemente, parece existir entre «1 dia» e «24 horas». Quando se ama verdadeiramente, passar um dia sem a pessoa amada pode parecer uma eternidade.

Efetivamente, o amor exige presença. Se não for a presença física, pelo menos que haja a presença espiritual. Por contraposição, a ausência do ser amado causa infelicidade.

Ora, a infelicidade é um conceito facilmente definível por contraposição a felicidade, conceito que é em si mesmo muito mais difícil de definir.

Para algumas pessoas a felicidade passa por ter muitos bens materiais. Pelo contrário, para outros, a felicidade assenta sobretudo na presença de bens imateriais, como ter saúde, assistir a uma peça de teatro ou um espetáculo de bailado, estar com os amigos, e saber que se é querido.

Mo Gawdat, engenheiro egípcio, escreveu o livro A Equação da Felicidade, em que procurou analisar o conceito de felicidade, aplicou­‑lhe uma análise de engenharia, ou seja, criou um algoritmo e traduziu­‑o para uma equação: «Comecei por fazer uma lista com momentos da minha vida em que me senti feliz. Cruzei gráficos para tentar encontrar um sentimento comum em todos eles e fiquei surpreendido. A felicidade é muito simples e pode ser resumida desta forma: é igual ou superior à diferença entre acontecimentos da sua vida e as suas expetativas do que a vida deve ser. Portanto, a infelicidade não vem tanto do que lhe acontece de bom ou mau, mas das expetativas que tem e não são correspondidas. A infelicidade é o seu cérebro a resolver a equação da felicidade e a garantir que está tudo bem. Se não estiver, ele avisa­‑a através de uma emoção: infelicidade, preocupação ou vergonha. Se um acontecimento iguala as suas expetativas o seu cérebro faz algo espetacular: cala­‑se. Não se queixa de nada e quando isso acontece é porque está feliz».

A felicidade é, pois, habitualmente, medida em função das nossas expetativas. Se temos expetativas demasiado altas, é natural que nos pareça que tudo fica aquém do que sonhámos e, como tal, nos sintamos infelizes. Pelo contrário, quando tudo corre como gostaríamos, parece que somos felizes.

No entanto, este tipo de análise, que é a mais comum, parece-me estar desviada do verdadeiro conceito de felicidade. Afinal, como diz Alberto Caeiro: «Nem tudo é dias de sol, / E a chuva, quando falta muito, pede-se. / Por isso tomo a infelicidade com a felicidade / Naturalmente, como quem não estranha / Que haja montanhas e planícies / E que haja rochedos e erva... // O que é preciso é ser-se natural e calmo / Na felicidade ou na infelicidade, / Sentir como quem olha, / Pensar como quem anda».

É muito importante, como diz Alberto Caeiro, tomar tudo com naturalidade, tanto a felicidade como a infelicidade.

Diz, sabiamente, Tolentino Mendonça, em O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas: «Vivemos dobrados sobre o restrito, aprisionados a um quotidiano utilitarista e estreito em que a vida perde a sua respiração». E ainda: «Idealizamos de tal maneira o que pode ser a vida que ela arrisca-se a perder o jogo por falta de comparência, sequestrada num plano cada vez mais mental e abstrato». E diagnostica o que está errado nesta análise mental e abstrata: «Não é um problema de conhecimento, é uma questão de olhar». «A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. O tesouro é a vida em si: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade».

A «vida embaciada» é efetivamente a vida, aquela que acontece todos os dias, e a felicidade passa por saber aceitá-la tal como ela é. Assim saibamos ser felizes com a vida que temos, guiando-nos por um destino que nos oriente, porque sem um destino é muito difícil navegar…

Maria Eugénia Leitão