Sociedade

MP quer prisão efetiva para Paulo Rodrigues no caso das agressões da PSP a adepto do Boavista

O Ministério Público solicitou a aplicação de uma pena de prisão efetiva até cinco anos para os onze agentes da PSP, incluindo o líder do maior dos sindicatos, Paulo Rodrigues, devido à agressão a um adepto do Boavista, que ficou cego, tendo os arguidos durante o julgamento feito um pacto de silêncio para confundir os juízes e tentar assim a absolvição, sendo que outro dos polícias antecedentes criminais por agressões na sua vida particular.

Para a defesa dos elementos do Corpo de Intervenção da Polícia de Segurança Pública, a absolvição seria o único caminho, já que em face do silêncio de todos os polícias arguidos, não ficou claro quem foram os três agressores diretos, escudados no anonimato das suas fardas, pois além do rosto tapado, têm a prerrogativa de não usar placa com a identidade.

Segundo o ministério Público, para ser feita a devida justiça, a pena deverá ser de cinco anos de prisão efetiva, mas admitindo que seja de pelo menos três anos e meio, sendo que nesta hipótese sabe-se que a confirmar-se implicaria ainda a expulsão dos agentes da PSP.

Pela agressão que provocou a cegueira a uma das vistas ao adepto do Boavista, João Pedro Adrião, os onze polícias, entre os quais o presidente da Associação Sócio-Profissional da Polícia (ASPP/PSP), o agente-principal Paulo Rodrigues, estão acusados dos crimes de ofensas à integridade física qualificada, com especial perversidade e dolo direto, tendo ja nas alegações finais, já esta quinta-feira, no Tribunal de Guimarães, a advogada da vítima, Maria Manuela Miranda, lamentado “um corporativismo que de forma alguma se poderá sobrepor à Lei e ai Direito”, uma vez que “a cortina de silêncio impediu que rapidamente se chegasse à verdade destes factos”, que considerou terem sido integralmente provados.

 

Sindicalista “escondeu-se” na RTP

O presidente da direção da ASPP, Paulo Rodrigues, é um dos onze polícias cujo início do julgamento está marcado para a manhã desta quarta-feira, por terem alegadamente cegado um adepto do Boavista, há cinco anos, nas imediações do Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, todos do Corpo de Intervenção do Comando Metropolitano PSP do Porto.

O agente Paulo Rodrigues, há 15 anos consecutivos líder da ASPP da PSP, meio ano após os factos pelos quais será está a ser julgado, aceitou sentar-se à mesa do Sexta às 9, da RTP, em frente à vítima das agressões, mas sem nunca revelar que ele próprio fazia parte deste grupo que é suspeito das graves agressões contra João Adrião, tendo então afirmado no programa conduzido pela jornalista Sandra Felgueiras, a propósito das imagens (do caso agora em julgamento não existem quaisquer imagens) das bastonadas desferidas a um adepto do Benfica, a 17 de maio, também em Guimarães, por outro elemento da PSP.

Por isso o Ministério Público entende que se no caso de bastonadas a pena foi de três anos e meio, para estes onze agentes da PSP deverá ser superior e neste caso de prisão efetiva.

 

Paulo Rodrigues não fala

O sindicalista, Paulo Rodrigues, sem fazer qualquer declaração de interesses, segundo a qual, enquanto profissional, colocado no Corpo de Intervenção da PSP do Porto, também era suspeito de fazer parte do grupo que cegou o seu colega de programa na RTP, ainda para mais no mesmo local, os acessos ao Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, admitiu, mas comentando as imagens do adepto do Benfica, que se encontrava com o pai e os dois filhos, dizendo “ser uma imagem que não agrada a ninguém, nem aos polícias”.

Na qualidade de presidente da ASPP, Paulo Rodrigues respondia assim ao alegado “pacto de silêncio” no seio da PSP, denunciado nesse mesmo programa da RTP, meio ano após o caso agora em julgamento, quando a própria Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) logo nos primeiros dias tinha já a identificação completa de todos os polícias que suspeitava estar no grupo e o prazo para a investigação preliminar foi de somente 45 dias.

No mesmo programa de Sandra Felgueiras, o agente Paulo Rodrigues realçou, contudo, sobre tais factos, os do adepto do Benfica, “haver situações que têm a ver com o futebol que são complexas, havendo uma quantidade polícias agredidos e que também é grande”.

Paulo Rodrigues é um dos arguidos, a par de dez outros polícias: José Manuel Quinteira Fernandes, Rui António Melo Branco,  Celso Rodrigues Barja, Rui Manuel Fernandes de São José Pereira, Pedro Miguel Pina Duarte, Mário José Nunes Dias, Mário Lourenço Moreira, Vítor Manuel Tavares Mota, José Pedro da Silva Veloso e José António dos Santos Gomes Oliva, para além do próprio agente-principal, Paulo Jorge Pires Rodrigues, sendo que Mário Lourenço Moreira já tem uma condenação por agredir um vizinho em 2013, por desavenças entre as suas mulheres, enquanto Celso Rodrigues Barja é praticante de artes marciais e ainda tesoureiro da Federação Portuguesa de Artes Marciais Chinesas.

 

Cego para toda a vida

Paulo Jorge Pires Rodrigues, com 45 anos, natural de Bragança, foi um dos pronunciados pelo Tribunal da Relação de Guimarães, acusados de grave agressão, em 2014, contra um jovem adepto do Boavista Futebol Clube, João Pedro Machado Gomes Freitas Adrião, tendo-o cegado logo de um olho, para além de diversas escoriações e equimoses sofridas, sendo o polícia sindicalista um antigo seminarista conhecido pela forma como defende os procedimentos legais e o Estado de Direito, em especial os próprios profissionais da PSP.

A vítima, João Adrião, à data das agressões com 35 anos, advogado de profissão, ficou cego do olho direito, passando a viver com dificuldades financeiras acrescidas, já que era pago como trabalhador independente, enquanto jurista, em ação liberal, a recibos verdes, enquanto a Inspeção-Geral da Administração Interna abriu um inquérito para apuramento dos factos, mas que só poderá ter consequências depois de transitado em julgado, isto é, já sem possibilidade de qualquer recurso, o processo cuja sentença será proferida no dia 7 de novembro, já pelo Tribunal de Grande Instância Criminal da Comarca de Guimarães.

Todos os polícias respondem pelo crime de ofensa à integridade física grave qualificada, por factos que remontam ao dia 3 de outubro de 2014, quando a equipa boavisteira jogou no Estádio do Vitória de Guimarães, em jogo da edição de 2014/15 da I Liga de Futebol.

A acusação, deduzida pelo Ministério Público diz que os onze arguidos pronunciados por aquele alto tribunal superior, tinham sido destacados, todos enquanto efetivos do Corpo de Intervenção Destacado no Comando Metropolitano da PSP do Porto (COMETPOR) para em Guimarães zelarem pelas questões de segurança colocadas pelo jogo de futebol, apesar do permanente mau estar dado então ainda não serem remunerados especialmente para esse efeito, o que foi recentemente conseguido por Paulo Rodrigues, depois da série de reuniões dos profissionais da Unidade Especial da PSP, com a hierarquia, em Lisboa.

 

Agredido sem dó nem piedade

Segundo o libelo acusatório, à chegada dos autocarros que transportavam os adeptos do Boavista, um dos onze polícias abordou um adepto, instando-o a que se movimentasse para determinado local, mas como este não teria obedecido de imediato, “derrubou-o ao solo, colocou-lhe um joelho por cima das costas e fê-lo permanecer deitado no solo de cara para baixo”, conforme diz o Ministério Público, baseado em investigações criminais.

O MP que o mesmo polícia, mais dois agentes da PSP, agora pronunciados, “bateram no referido adepto, nomeadamente com cotoveladas, pontapés, socos e também pancadas de cassetete, enquanto os demais [oito] arguidos os integraram no interior de um círculo que formaram, assim impedindo que lhe fosse prestado socorro”, facto considerado agravante.

Um juiz de instrução criminal do Tribunal de Guimarães tinha ditado o arquivamento dos autos, por considerar que não seria possível identificar os agressores, só que o Ministério Público e a vítima recorreram de imediato, tendo o Tribunal da Relação de Guimarães pronunciado os onze arguidos, pelo crime de ofensa à integridade física grave qualificada.

O adepto agredido é assistente no processo e tem vindo a pugnar por justiça, mesmo tendo em conta ter do lado oposto uma corporação conhecida por espírito de corpo pela negativa e segundo apurou o i, a vítima pretende levar o caso judicial até às últimas consequências.

João Adrião, anteriormente dirigente da Secção de Futsal do Boavista Futebol Clube, tem um filho atualmente com dez anos de idade, vivendo com o apoio da mulher e familiares.

Nessa ocasião das agressões, o então presidente do Boavista, João Loureiro, lamentou “a forma absolutamente desproporcionada” como foram cometidas, falando no Porto, à porta do Hospital de Santo António, para onde o adepto foi logo transferido, dada a gravidade das lesões, enquanto a PSP nos últimos cinco anos nunca quis pronunciar-se sobre o caso, assim como o agente-principal Paulo Rodrigues, já antes, durante e depois do julgamento.

“O Boavista não pede, o Boavista exige, que saiba o que se passou e quem são os autores destas bárbaras agressões”, afirmou também João Loureiro, iniciando-se desde então uma onda de solidariedade deste clube portuense e dos seus adeptos em redor de João Freitas.

“O que se passou foi uma coisa absolutamente inaudita e em que o nosso adepto a dado momento ficou prostrado no chão, a sangrar copiosamente, ele com uma parte da cara já completamente desfeita, não tendo deixado que pelo menos alguém da família se pudesse aproximar para o socorrer”, ainda segundo o então presidente do Boavista Futebol Clube.

Depois da alta médica e de diversas intervenções cirúrgicas para remover o olho direito, o adepto boavisteiro explicou aos jornalistas que os factos ocorreram no momento em que “eu estava fora do autocarro a aguardar pelo meu irmão, que ficou para trás, quando um agente disse ‘não pode estar aqui!’ e deu-me logo um encontrão, que me atirou ao chão”.

Segundo João Adrião, “foi mais do que um agente a baterem-me e muitos a assistirem, fui espancado e deixado no chão até vir a ambulância que me transportou ao hospital, mas a verdade é que não diz nada que provocasse aquilo, não tive qualquer atitude ou palavra”.