Opiniao

As redes de cidades na geopolítica global

É urgente reinventar as cidades, renovar o espaço político e reavaliar permanentemente a sustentabilidade das nossas decisões

Numa das últimas reuniões da rede Eurocities, em Bruxelas, os representantes das Câmaras de Londres e de Manchester formularam um pedido: «Reforcem as redes de cidades na Europa. Se o Brexit avançar, e o Reino Unido sair, nós ficamos». Nesta afirmação ecoaram, para mim, as palavras de Michael Bloomberg de 2017. O ex-presidente da Câmara de Nova Iorque dizia: «Se o Presidente sair do Acordo de Paris,  as cidades, os negócios e os Estados cumprem». Pouco depois, mesmo sem o apoio de Trump, o esforço provava-se capaz de cumprir aquilo a que os Estados Unidos se tinham comprometido em 2015. 

Estes dois episódios servem para ilustrar o papel das redes de cidades na atual geopolítica global em mudança. As cidades podem organizar-se em redes orientadas para desafios comuns entre si, muito para além dos desafios das nações. Esta alteração é ainda acelerada pela liberdade de movimentação de ideias e de pessoas da era digital. Embora o poder permaneça centrado nas Nações e nos compromissos fixados por acordos internacionais, afirma-se uma nova possibilidade de fragmentação de difícil apreensão, consolidada sobre a velha máxima «os desafios globais requerem soluções locais».

Eis-nos distantes das cidades-Estado bem delimitadas onde floresceu a civilização europeia ao longo de séculos. Eis-nos nos antípodas do Tratado de Tordesilhas da era dos descobrimentos, quando foi possível desenhar claras fronteiras de separação entre dois grandes impérios. 

Hoje, a velocidade e a liberdade das comunicações entre pessoas e povos aparecem como fenómenos impossíveis de conter e de controlar. Esta liberdade, receada por tantos como fonte de males, aparece-me como a energia fundamental do novo mundo em rede. Dinâmica, resiliente e orgânica, a liberdade permite-nos comunicar, construir e reafirmar ideias assentes na ciência, na solidariedade e no bem comum. 
 
Em Portugal, a nível local, há autarcas com visão e capacidade de execução para acompanhar esta realidade. No entanto, permanecem dois obstáculos que nos travam o caminho. Por um lado, carregamos uma das dívidas públicas maiores da Europa, o que limita sempre a nossa ambição; e, por outro lado, convivemos com a herança de uma cultura de compadrio enquistada e difícil de erradicar.  Nenhum destes obstáculos pode ser ultrapassado sem remover o outro, e, juntos, travam o desenvolvimento do país, além de indicar aos nossos jovens que este país não é para eles. 

É urgente reinventar as cidades, renovar o espaço político e reavaliar permanentemente a sustentabilidade das nossas decisões, com a certeza de que, como afirmava Martin Luther King, o «arco do universo moral é longo, mas inclina-se para a justiça».  A rapidez com que o conseguimos dobrar depende apenas da determinação do nosso empenho. 
Enquanto os dados do jogo parecerem viciados à partida, nós continuaremos a projetar os sonhos e a ter saudades de futuro. Quando, algum dia, tivermos coragem de mudar, poderemos começar a vivê-lo.