Internacional

Trump e a ofensiva turca

Turquia avança com ofensiva para expulsar milhões de refugiados. Trump diz que curdos não ajudaram os EUA na II Guerra Mundial.

Já há muito que Donald Trump vem prometendo uma retirada militar do Médio Oriente. Mas a decisão repentina de retirar as tropas norte-americanas do nordeste da Síria surpreendeu tudo e todos. Os Estados Unidos serviam como  força de bloqueio a uma ofensiva da Turquia sobre os curdos e, saídas as tropas, Ancara não demorou a avançar com o seu projeto de transferência demográfica forçada, que inclui a expulsão dos curdos da sua fronteira.

Embora as Forças Democráticas Sírias (FDS, uma aliança de milícias curdas, árabes e assírias) tenham sido aliadas cruciais na derrota do Estado Islâmico na região, o Presidente dos EUA dispensou-as na quinta-feira perentoriamente: «Eles não  nos ajudaram na II Guerra Mundial».

A decisão de Trump tem sido contestada dentro e fora da Casa Branca. Aliás, um dos seus mais ferozes aliados no Senado, Lindsey Graham, tomou a dianteira da oposição republicana à ordem de Trump. «Esta decisão impulsiva do Presidente desfez todos os ganhos que fizemos, atirando a região para um caos ainda maior», disse na segunda-feira à Fox News.

«Esta pode ser a decisão mais arriscada, em termos de segurança nacional, que ele tomou até hoje», vincou Richard Fontaine, do think tank neoconservador New American Century e antigo conselheiro de George W. Bush, ao New York Times, acrescentando: «Não sei se aprendemos alguma coisa sobre o estilo do processo de decisão do Presidente, mas revela os riscos muito significativos que esse estilo carrega».

O maior medo que agora ecoa nos corredores de Washington e da comunidade internacional é que a decisão de Trump refortaleça o Estado Islâmico – as FDS têm detidos cerca de 10 mil combatentes da organização extremista. Imagens partilhadas ontem no Twitter pelo jornalista Mustafa al-Ali mostram alegados familiares dos combatentes a protestar no campo de refugiados de Al Hawl, exigindo a sua libertação. À hora de fecho da edição, cinco militantes já tinham conseguido fugir de uma prisão, segundo o The Independent.

Nas primeiras 30 horas da Operação Fonte de Paz, foram empurrados para a Síria cerca de 70 mil civis, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, que opera no Reino Unido. A população curda fugia dos combates, bombardeamentos e ataques aéreos procurando abrigo em segurança, enquanto as forças turcas tomavam as suas vilas desertas, como presenciaram os Médicos Sem Fronteiras, ainda no terreno.

No terceiro dia da ofensiva militar, foram mortos 342 combatentes curdos, segundo o Ministério da Defesa turco. Contudo, as organizações independentes falam em números bem mais baixos do que os avançados pela Turquia. Do seu lado, Ancara confirmou ontem a primeira morte de um soldado turco.

 

Uma limpeza étnica

A Turquia é a casa de 3,6 milhões de refugiados sírios e o seu Presidente, Recep Tayyip Erdogan, quer relocalizá-los numa «área de segurança» a entrar por 30 quilómetros no nordeste da Síria, a ser controlada por Ancara.

O impacto da presença dos refugiados sírios tem desencadeado sentimentos de racismo e xenofobia entre a população turca. A opinião pública é «esmagadoramente contra» a sua presença no país, afirmou o jornalista curdo Mohammed Salih ao The Intercept, acrescentando que a relocalização dos sírios pode ser uma medida muito popular: «Isso aumentaria as credenciais de Erdogan com o eleitorado turco».

No Independent, também o jornalista especialista no Médio Oriente Patrick Cockburn assinalou que «a maioria dos líderes que contemplam uma limpeza étnica permanecem calados, mas o Presidente da Turquia, Erdogan, está a declarar abertamente que vai instalar dois milhões de refugiados árabes sírios de outras partes da Síria em terras curdas». Na verdade, é um dois em um para o Presidente da Turquia, que considera as Unidades de Proteção  Popular (YPG), que integram as FDS, parte do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), arqui-inimigo do Estado turco há décadas.

A Turquia vê os curdos como uma ameaça existencial  ao país e a hostilidade para com estes é, com exceção para o Partido Democrático do Povo, unânime no seu sistema partidário.