Opiniao

Cidades verdes e digitais

Imaginem uma cidade com a capacidade de oferecer a cada cidadão um transporte público personalizado que responde ao toque do telemóvel...

As cidades de amanhã prometem ser mais verdes e digitais. 

Imaginem a era digital como o motor da transição para um novo sistema de transportes públicos. Imaginem uma cidade com a capacidade de oferecer a cada cidadão um transporte público personalizado que responde ao toque do telemóvel, onde as longas filas de espera nas paragens passam a memórias da inoperatividade de um qualquer tempo passado. Imaginem um sistema onde coexistem comboio, metropolitano e elétrico rápido em via dedicada, mas de onde desaparecem os autocarros com longas carreiras, sendo substituídos por veículos elétricos mais pequenos, operados pelos sistemas de inteligência artificial similares aos que fazem funcionar as plataformas Uber ou Waze.

Imaginem que o exponencial aumento da capacidade das comunicações equivale a um exponencial aumento de transparência na relação do cidadão com o Estado, permitindo que todos os pedidos, processos e procedimentos passem a ser monitorizados pelo cidadão de sua casa em tempo real. Imaginem que sabem quem é a pessoa que tem em mãos o vosso pedido, há quanto tempo o tem, e quanto tempo falta para sair a resposta, considerando a média de resposta daquela pessoa para aquele tipo de pedidos. Imaginem que o caminho de qualquer procedimento fica como que numa montra cristalina, transparente e pública, expondo qualquer desvio ao regular escrutínio dos cidadãos. 

Se a transformação digital promete mais transparência e eficiência é um movimento recente que começou a dar os primeiros passos seguros nestas últimas décadas. Para perceber o movimento da cidade mais verde temos de voltar ao século XVIII. 

No centro da Londres setecentista, a esperança média de vida era menos 10 anos do que nas áreas rurais envolventes. A vontade da cidade mais verde, como principio de salubridade e de sustentabilidade, floresceu desta realidade antes de ser confirmada como verdade científica com descobertas como o oxigénio e a fotossíntese. Desde então, foi pontuando o exponencial crescimento urbano da era industrial com jardins e parques no coração de cada novo bairro.

Em oitocentos, além dos jardins e parques, longas avenidas rasgaram as cidades com árvores e infraestruturas numa escala nunca antes vista. Hoje, quando caminhamos nestes jardins, parques e avenidas lançados pelos pioneiros de outros tempos, temos de encarar, como eles, o desafio do nosso tempo: a escassez de água. 

As infraestruturas urbanas de oitocentos e novecentos foram concebidas e construídas para encaminhar a água das chuvas em canalizações para os rios e para o mar. No entanto, hoje, a cidade mais verde precisa do oposto, ou seja, precisa de recolher a água da chuva como se de um bem raro e precioso se tratasse, seja para a sua utilização imediata, seja para que se volte a infiltrar no terreno permeável, reabastecendo os reservatórios de água potável subterrâneos. Este desafio obriga a redesenhar os nossos espaços urbanos aumentando o solo permeável e utilizando revestimentos que retardam o correr da água. 

E se que os veículos pequenos da cidade digital andarem em estradas revestidas por prado, ou por qualquer outro coberto vegetal, fazendo desaparecer por completo o asfalto das nossas cidades? Imaginem.