Internacional

Catalunha. Em guerra aberta

As autoridades espanholas bloquearam páginas e perfis das redes sociais da aplicação 'Tsunami Democrátic'.


Barricadas com fogueiras, very lights arremessados contra as autoridades, disparos, ruas cobertas de detritos, colunas com dezenas de carros das forças de segurança. Era este o cenário no fim de tarde e noite de ontem, numa Barcelona fora de controlo.

A cidade acordou para a «marcha da liberdade» esta sexta-feira feira e apesar de o dia ter sido maioritariamente pacífico, ao anoitecer a violência irrompeu repentinamente, transformando certas zonas no palco de uma autêntica batalha campal.

Imagens que não se viram no início do dia, com dezenas de estradas cortadas, uma maré de gente a percorrer as ruas, transportes públicos paralisados e até a icónica Sagrada Família foi bloqueada pelos manifestantes. Tudo de forma pacífica. Em dia da greve geral convocada pelos sindicatos independentistas contra as sentenças do procés, toda a Catalunha participou na marcha: meio de milhão de pessoas, segundo a Guardia Urbana.

A explosão de violência contrasta com a grande imagem da manhã de sexta-feira: milhares de pessoas a entrarem nas portas de Barcelona depois de três dias de caminhada, algumas depois terem percorrido cerca de 100 quilómetros, para participar nas ações convocadas pela Òmnium Cultural e pela Assembleia Nacional da Catalunha.

"As ruas serão sempre nossas", foi um dos muito gritos de ordem que se ouviram na Via Laietana, um dos epicentros da marcha que concentrou centenas de milhares de pessoas. Foi aí que começou a violência ao início da noite.

A adesão à greve afetou todos os setores, mas foram os estudantes que participaram em força para marchar pelo direito à autodeterminação catalã, deixando as universidades completamente vazias – fala-se em 90% de adesão do setor estudantil, segundo o El País. Outro dos setores que mais se mobilizaram foi o dos estivadores do Porto de Barcelona, não deixando alguns navios aportar, segundo o eldiario. Já o Aeroporto de El Prat funcionou com toda a normalidade: dos mil previstos, apenas 57 voos foram cancelados, de acordo com o El País.

Embora algum comércio tenha sido obrigado a fechar as portas, na verdade até existem indicações que a greve pode ter economizado eletricidade: 4,3% em média até à 1 hora da tarde, segundo a Rede Elétrica de Espanha. Obrigado a cumprir serviços mínimos, o metro da cidade registou uma adesão 50% inferior às médias de sexta-feira.

Para restringir a organização dos protestos, as autoridades espanholas bloquearam, durante a tarde de sexta-feira, as páginas de internet e os perfis das redes sociais do Tsunami Democrátic, aplicação 'coordenadora de ações pacíficas de desobediência civil', dos quais não se conhece os líderes por detrás do movimento. Isso não atemorizou os ativistas e em resposta, abriram outra plataforma, salientando a ineficácia da medida das autoridades: "Creem que se pode parar um Tsunami?", disse a organização em comunicado.

Por seu lado, o Comité de Defesa da República instou por ações mais radicais, apelando aos manifestantes para acamparem por tempo indefinido na Gran Via e na avenida Gràcia, no coração da cidade, a partir da tarde de sexta-feira: "Viemos para parar tudo. Revolta popular".

Não faltaram apelos ao Governo central para agir contra as manifestações dos últimos dias e o primeiro-ministro espanhol em funções, Pedro Sánchez, foi sendo claro em relação à sua abertura para usar mão de ferro contra os manifestantes. "A regra é clara: quem comete ilegalidades, responde [por elas]", disse a partir de Bruxelas. "O direito à manifestação deve ser exercido de forma absolutamente pacífica. Não haverá espaço para a impunidade", face à violência dos últimos dias, avisou, dizendo que agirá de acordo com a proporcionalidade.

Uma das vozes mais críticas à greve geral veio de Albert Rivera, líder nacional do Ciudadanos, que qualificou-a de "sabotagem geral". Reagindo às notícias da violência, Rivera fez questão de culpar os líderes independentistas pelo caos: "Os separatistas têm Barcelona em chamas" .

A polícia deteve cerca de uma centena de pessoas ao longo da semana mas ontem estes valores engrossaram. Os Mossos d’Esquadra têm sido acusados de violência indiscriminada desde que irromperam os protestos e esta sexta-feira não foi diferente. No final da tarde, surgiram filmagens que mostravam agentes a investirem contra ativistas independentistas que não ofereciam resistência.

 

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