Contra a corrente

Médio Oriente - Uma leitura

 EUA constituíram um ‘Comando Central’ que manejava todas as forças, institucionais ou ‘informais’, políticas, religiosas e armadas, suscetíveis de virem a contribuir para esses objetivos, mesmo que com objetivos específicos contraditórios...

Começo por recordar as declarações públicas do general Wesley Clark, ex-Comandante Supremo Aliado na Europa, sobre a decisão norte-americana, no tempo de Bush-filho, de, em 5 anos, promoveram uma ‘mudança de regime’ em sete países: Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irão. Tal programa, com as necessárias alterações e ajustamentos, continuou a ser seguido no tempo de Obama-Hilary. Ele visava criar uma retaguarda segura na zona do Norte de África e Médio-Oriente para a submissão e minagem da União Europeia e fazer implodir a Rússia a partir da Ásia Central e do Cáucaso.

Foi assim que os EUA constituíram um ‘Comando Central’ que manejava todas as forças, institucionais ou ‘informais’, políticas, religiosas e armadas, suscetíveis de virem a contribuir para esses objetivos, mesmo que com objetivos específicos contraditórios...

Assim se envolveram alguns países europeus, a Turquia, a Irmandade Muçulmana, os vários Daesh’s, Israel e a Arábia Saudita, a Geórgia, os Curdos (que haviam ficado órfãos após a queda da URSS), etc. Todas eles a serem manejados adequadamente em cada momento e circunstância da execução do ‘plano’.

Um dos objetivos táticos era negar o acesso da Rússia ao Mediterrâneo (Jugoslávia, Líbia, Síria e, eventualmente, o Egito) e, logo a seguir, ao Mar Negro. Neste particular entrava a Ucrânia (acrescentada à lista) e a Turquia (através da promessa de apoio à reconstituição do antigo império otomano (Mar Negro e Síria, para começar, continuando através do Egito de Morsi para outros lados...).

Este ‘grande plano’ falhou, tanto por decidida interposição da Rússia na Síria como pela queda do Egito da Irmandade Muçulmana. Quando Erdogan começou a ter dúvidas sobre o sucesso do plano e a negar-se a imolar-se numa guerra direta com a Rússia, os EUA tentaram derrubá-lo através de um golpe de estado militar que a Rússia (prestando informações vitais) ajudou a anular.

Restava à Turquia juntar-se ao grupo sírio-russo-iraniano (de Astana) para a resolução do problema sírio em moldes adequados à sua segurança futura, isto é, sem dar aos curdos uma retaguarda segura para desmantelar territorialmente a Turquia. Erdogan não iria aceitar que, falido o projeto imperial otomano, ainda viesse a ficar sem 1/3 do território da Turquia a favor de um novo estado Curdo.

Os norte-americanos ficaram assim, na zona, só com os curdos a quem haviam prometido um Curdistão independente a partir de partes do Iraque, da Síria, da Turquia e do Irão. Derrotados têm de ‘largar’ os curdos e regressar para casa.

Os curdos, feitos fortes com o apoio e armamentos americanos, não vão ser capazes, nas atuais circunstâncias, de fazer impor, pela força, o seu Curdistão, tendo de voltar a integrar-se nas sociedades e nos países que habitam. Mais à frente, com a estabilidade geral da região garantida e por métodos democráticos e equilibrados, deverão ver realizado esse legítimo e merecido sonho.

Na Síria, vão ter de renunciar ao seu exército próprio e a ‘autonomias’ excessivas (com a maior parte do petróleo sírio, que conquistaram com o apoio americano), e negociar a sua reintegração cívico-política e militar na sociedade e no sistema político sírio, renunciando fazer deste país uma plataforma de ataque e desmembramento da Turquia. Parece simples, para já.

Entretanto, a Rússia, constituindo-se em garante da estabilidade territorial, da segurança e da cooperação entre todos os países da região (Síria, Turquia, Arábia Saudita, Egito, Irão e estados do Golfo, do Iémen, da Jordânia e do Líbano e, especialmente, de Israel, poderá vir a constituir-se como o maior aliado da Europa quando à segurança das suas fronteiras e na estabilidade social de toda a bacia do Mediterrâneo.