Dêem-me tempo para ler

Os encantos de uma cidade considerada cinzenta e feia

Porque por trás de uma bela capa pode esconder-se um livro banal ou aborrecido. Mas também há vezes em que ele nos dá acesso a um mundo fabuloso.

A capa de um livro é ao mesmo tempo o seu rosto, o seu cartão-de-visita e o seu portal de entrada. Ao franquearmos este portal, por vezes temos desilusões - porque por trás de uma bela capa pode esconder-se um livro banal ou aborrecido. Mas também há vezes em que ele nos dá acesso a um mundo fabuloso que vamos descobrindo à medida que viramos as páginas.

É o caso de O Arquivista, um álbum de BD de 1987 (mas publicado em Portugal em 2003), da autoria do ilustrador belga François Schuiten e do escritor, cenarista e especialista no universo de Tintin, Benoît Peeters. Juntos, criaram em 1983 a série a que deram o sugestivo título de ‘Les Cités Obscures’.

O protagonista desta história, a segunda do universo das ‘cités obscures’, é Isidore Louis, investigador do Instituto Central de Arquivos. Encarregado de investigar a ‘superstição’ que rodeia o caso das cidades obscuras, o arquivista fecha-se no seu pequeno gabinete numas águas-furtadas, para onde foi relegada a ‘subsecção dos mitos e lendas’.

Cada vez mais embrenhado no meio de uma montanha de papel, Louis vai descobrindo, para sua surpresa, provas da existência real destes lugares misteriosos.

Através dos desenhos magistrais de Schuitens, também nós nos vamos maravilhando com os edifícios ao mesmo tempo concretos e fantasiosos que vamos encontrando, ruínas de templos muito antigos, paisagens urbanas impregnadas como que por uma neblina de sonho e de melancolia.

Uma dessas misteriosas cidades chama-se Brüsel - uma recriação, evidentemente, de Bruxelas. «Ao chegar a Brüsel, o viajante não pode deixar de ficar surpreendido com o contraste entre a majestosa serenidade do Palácio dos Três Poderes - edificado pelo genial Joseph Poelaert, supostamente no lugar de uma torre lendária - e a desordem da baixa da cidade, emaranhado anárquico de construções sem volume e de vielas insalubres, labirinto funesto invadido por obras incessantes e desorganizadas», reza um documento encontrado pelo arquivista.

O edifício de Poelaert existe mesmo para lá destas páginas de banda desenhada - não se chama Palácio dos Três Poderes, mas sim Palácio da Justiça - e é a maior construção erguida em todo o mundo no século XIX.

Não deixa de ser curioso que Schuiten e Peteers tenham escolhido para a sua lista de cidades enigmáticas uma metrópole por muitos considerada feia e cinzenta. A verdade é que, por detrás desse aparente desinteresse, a capital belga esconde muitos encantos e surpresas. E alguns deles até estão num guia (Bruxelas - Percursos) que o próprio Schuiten ilustrou. Afinal de contas, talvez as cidades obscuras não sejam só uma fantasia.