Desporto

Claques não cedem na guerra a Varandas

Embora sem adereços, Juve Leo e Diretivo XXI voltaram à ‘curva sul’ de Alvalade para apoiar a equipa. Já após o apito final, viram-se lenços brancos e voltaram os pedidos de demissão.

Passou pouco mais de um ano desde que Frederico Varandas tomou posse como novo presidente do Sporting. Desde setembro de 2018 que o antigo líder do departamento clínico do clube tinha consciência da missão que agora passava a ter em mãos no reino do leão. Caótico, endividado e sem conseguir apresentar resultados desportivos - sobretudo no que diz respeito ao desporto-rei, que continua a ser a principal fatia de receitas nos clubes. 

Os dias passaram, mas, em Alvalade, este caos continua a estar bem longe de ser uma ordem por decifrar. Os maus resultados em campo, cuja gota de água foi a derrota diante do Alverca, que determinou a eliminação do Sporting na terceira eliminatória da Taça de Portugal, competição em que os leões, recorde-se, defendiam o estatuto de campeões em título, acabaram por ter consequências visíveis essencialmente fora das quatro linhas.

Se a contestação ao presidente já era notória ainda antes deste encontro, de tal forma que o dirigente já tinha tentado apaziguar os ânimos com outras manobras de distração, como foi o caso, por exemplo, do despedimento do técnico holandês Marcel Keizer; a revolta acabou mesmo por subir de tom. 

Foi no passado sábado que os novos gritos de insatisfação para com a atual liderança do clube fizeram-se ouvir, desta feita durante a partida de futsal com os Leões de Porto Salvo, onde elementos afetos à Juventude Leonina e Directivo chegaram a invadir a bancada central do recinto, aproximando-se assim da zona onde estava o líder dos verdes-e-brancos. O episódio obrigou Varandas a sair com escolta policial depois da partida. 

Face  à gravidade do episódio, a direção tomou medidas drásticas, anunciado, já durante a noite de domingo, o final, com efeitos imediatos, dos protocolos celebrados com a Juve Leo e o Directivo. 

Assim, estes dois grupos organizados de adeptos (GOA) tomaram conhecimento que perderam as regalias até aqui oferecidas, estando estas relacionadas com a perda referente aos ingressos e aos lugares anuais em Alvalade - bem como à autorização para entrar com bandeiras, tarjas ou tambores. 

Traduzido em números, estas claques deixaram de ter acesso aos 875 convites, 500 bilhetes pré-pagos e uma reserva de dois mil bilhetes em cada jogo a preço de desconto, que não eram vendidos em bilheteira. Além disso, perderam também os privilégios relacionados com as Gameboxes (a que tinham acesso com um preço especial de 120 euros).

Após anunciar a medida, o Sporting lembrou que as claques não cumprem o protocolado com o clube e estão em dívida em relação à bilhética da época passada, pelo que a rescisão, garantiu, é «legalmente» justificada. 

Num comunicado, os leões sustentam a medida devido à «escalada de violência que culminou com tentativas de agressões físicas a dirigentes», lembrando ainda a recente invasão à Academia de Alcochete.

Esta não foi, de resto, a primeira vez que a direção de Frederico Varandas promoveu alterações nos protocolos com as claques, com os primeiros cortes a surgirem em julho último. Porém, e segundo disse ao SOL um dos elementos de uma dessas claques, os benefícios retirados na altura foram «irrisórios».  

Após ter tomado conhecimento da quebra de acordo através dos órgãos de comunicação social, a Juve Leo reagiu, lembrando que a claque foi fundada em 1976, «muito antes de existirem protocolos, apoios diretivos ou representantes de adeptos com cargos diretivos». «A posição tomada pela Administração do Sporting Clube de Portugal só representa, uma vez mais, a falta de rumo de um clube sem liderança, assente em incompetência e que necessita apenas de ‘bodes expiatórios’ para se livrar de atenções indesejadas», pode ler-se num longo comunicado publicado nas redes sociais na segunda-feira.

Escutado pelo nosso jornal, um dos adeptos reforça que a Juve Leo tem mais anos que o atual presidente, nascido em 1979.

O Sporting voltou entretanto a entrar em campo já na noite de quinta-feira, com a receção ao Rosenborg, que venceu, por 1-0, em jogo da fase de grupos da Liga Europa. No José Alvalade, as claques do Sporting respeitaram as restrições impostas pela direção e apoiaram a equipa durante os 90 minutos do encontro. Ainda assim, após o apito final, estes adeptos agitaram lenços brancos e voltaram a pedir a demissão de Varandas. Apesar do volume em que tocava a Marcha do Sporting, de Maria José Valério, foi bem audível a mais recente contestação ao líder.

Elementos destes grupos organizados de adeptos fizeram saber, de resto, que esta tomada de posição relativamente ao presidente promete continuar. Há quem defenda, aliás, que a era Frederico Varandas não chegue ao natal. 

A guerra entre claques e atual direção leonina está declarada, numa altura em que estes GOA confessam que ainda não sentiram os efeitos da mais recente decisão anunciada pelo clube. 

O Sporting volta a jogar já este domingo, com o V.Guimarães, em Alvalade, desta vez em jogo a contar para o campeonato, naquele que será mais um teste a este braço de ferro. 

Por agora e de acordo com as novas regras da cooperação com os grupos de adeptos organizados, as claques do Sporting vão passar a pagar os bilhetes para os jogos dos leões. De acordo com o Sporting e «contrariamente ao regime anterior, assente na atribuição de convites», será agora «exigido aos GOA o pagamento de quotas do clube e dos bilhetes». Já os apoios vão passar por descontos nas Gameboxes, deslocações e coreografias.

De resto, o emblema de Alvalade  já deixou claro que claques são também um problema do Estado, UEFA e FIFA. «Esta questão é demasiado séria», lembrou numa nota . «Apelamos que, não obstante divergências legítimas [...] haja o maior sentido de responsabilidade. Apelamos ao mais elevado sentido de Estado para quem quer verdadeiramente o bem-estar do Sporting», pode ler-se.

O financiamento está, de resto, na origem da tensão entre Frederico Varandas e as claques desde que este sucedeu a Bruno de Carvalho. Aliás, o ataque à academia parece mesmo representar o início de uma separação, que agora surge cada vez mais evidente.

Para algumas das principais figuras do universo leonino, caso de Dias da Cunha, antigo líder leonino, esta é uma campanha orquestrada para derrubar Varandas da presidência dos leões. 

As claques negam, porém, tal situação, garantindo que o objetivo não é  desestabilizar o clube, mas sim dar rumo ao Sporting. Recentemente, foi até criado um movimento intitulado Dar Futuro ao Sporting, que tem como propósito reunir os requisitos essenciais para poder convocar uma AG extraordinária para deliberar a revogação do mandato do atual Conselho Diretivo.

De resto, também antigos candidatos voltaram a dar que falar durante este período mais conturbado. José Maria Ricciardi mostrou-se disponível por momentos para voltar a concorrer à presidência do Sporting. Num vídeo publicado nas redes sociais (página Reerguer o Sporting), o banqueiro derrotado por Varandas nas últimas eleições anuncia que tem uma equipa renovada para apresentar aos sportinguistas. O sócio leonino acrescenta que tem o objetivo de «colocar o Sporting no lugar que merece». Sem abordar diretamente os incidentes entre atual direção e claques, Ricciardi finaliza: «Todos são importantes para o Sporting, sem qualquer exceção». Apesar da partilha, o banqueiro  garantiu entretanto que não é candidaro à presidência do Sporting uma vez que o clube «não está em período eleitoral».