Desporto

Famalicão. Caçadores de Dragões

Na 1.ª época dos minhotos na I Divisão (1946-47), o FCP foi encostado às cordas, com um empate no Lima (3-3) e uma derrota no Freião (1-2).

Em Março de 1993, numa noite chuvosa e fria nas Antas, vi o Famalicão bater o FC Porto por 1-0 e, nesse tempo, não era fácil vencer nas Antas, tivesse o visitante o nome que tivesse. Vieira, José Rafael Rios Soares Vieira, natural de Santo Tirso, marcou o golo aos 72 minutos e, como sempre acontece, não percebi na altura que estava a testemunhar um momento único e irrepetível até hoje.

É verdade que a última vez que Famalicão e FC Porto se encontraram, para a Taça da Liga de 2016, os famalicenses também triunfaram por 1-0, mas dessa vez em casa. Só que o tempo foi passando, o Famalicão caiu nas divisões secundárias e surge, hoje, de repente, tão súbita como surpreendentemente, no primeiro lugar isolado da classificação do campeonato nacional na véspera de se deslocar ao campo de um dragão que, ansioso, espera o momento certo para a machadada bruta que lhe permita saltar para a frente do seu opositor.

Vamos apenas para a oitava jornada, dirão os mais cépticos que esta liderança minhota está como fruta madura, pronta a colher, e um jogo como o deste domingo, às 17h30, ditará, finalmente, a queda do Famalicão para lugares mais de acordo com a sua autêntica categoria. Será ou não, logo se vê. Mas, e a despeito das maleitas que o Sporting anda a sofrer de forma que faz lembrar um São Sebastião mártir e cravado de flechas, há que recordar que se disse o mesmo quando os famalicenses foram a Alvalade e aconteceu aquilo que todos nós sabemos.

Adiante. A ideia era recordar os primeiro confrontos entre Famalicão e FC Porto para o campeonato, deitemos as mãos à obra. Na época de 1945-46, sob a supervisão de um húngaro que chegara à cidade quatro anos antes, Janos Szabo, professor de ginástica e jogador de técnica supimpa, o Famalicão ganhou os dez jogos da sua série da II Divisão e despachou o Boavista numa liguilha garantindo a subida. Tornava-se, orgulhosamente, depois do Vitória de Guimarães, o segundo clube a representar o Minho no topo do futebol nacional.

A aventura primodivisionária, como os nossos relatadores de antanho tanto gostavam de dizer, foi curta. Mas os jogos frente ao FC Porto acabariam por transformar-se em momentos de superação e orgulho.

Gritos de revolta!

No dia 2 de Março de 1947, foi o Famalicão até ao Estádio do Lima. Confiava na arte de Szabo, treinador-jogador, e do argentino Oscar Tellechea. A II Grande Guerra fizera chegar ao Portugal sossegado vários jogadores que desertaram dos destruídos clubes do centro da Europa. Era o caso destes dois artistas, tantas vezes fazedores da diferença. E havia Sansão, guarda-redes, e um guarda-redes que se chama Sansão tinha de assustar os avançados que lhe surgissem pela frente, no caso Araújo, Lourenço, Sanfins, Falcão e Zeca.

Quem observou e contou aquilo que os primeiros minutos do encontro ofereceram não deixou de se espantar. Com um descaramento divino, os famalicenses atiraram-se sobre o seu adversário e não tardaram a obrigar Joaquim a enfiar a bola dentro da própria baliza. Os portistas ficaram atarantados. Confiavam em Araújo, aquele moço franzino, o Homem de Paredes, de habilidade extraordinária e golos brilhando nos olhos. Aos 23 minutos fez o empate; três minutos depois revolveu o marcador.

Não desanima o Famalicão. Lança-se sobre a baliza de Valongo, beneficia de um penalti que Ferrão desperdiça. Logo no início do segundo tempo sofre o 3-1 por Zeca a recarga de remate de Sanfins. E agora? Haverá ainda entusiasmo?
Houve. E de que maneira. Tellechea impressiona pela sua altiva categoria, pelo seu futebol pleno de visão periférica. Um passe perfeito mete a bola entre Alfredo e Guilhar. É lá que se encontra Pires para bater Valongo. Faltam 13 minutos ainda. Szabo dá o grito de ataque. Adelino, Mendes e Álvaro Pereira obedecem cegamente. Os segundos vão desaparecendo com areia fina por entre os dedos mas, sobre o minuto 90, Álvaro Pereira rompe a defesa contrária como um jogador de râguebi na busca de um ensaio. O remate é potente, indefensável. 3-3! Ficava a desforra marcada para a segunda volta.

Alegria e tristeza

Na 24ª jornada, o Famalicão vivia momentos aflitivos no fundo da tabela classificativa. Acabaria por descer mas venderia cara a vida. No Campo do Freião, o povo correspondeu ao apelo da sua equipa que precisava de uma retaguarda entusiasmante. Há quem diga que foi a maior enchente de sempre, ali na estrada de Santo Tirso no meio de um frondoso bosque de freixos.

O FC Porto aparecia mais forte do que no jogo do Lima. Tinha na baliza o fantástico Barrigana e, na frente, para acompanhar Araújo, Boavida, Freitas e Lourenço, surgia Catolino, um portuense dos sete costados de antes quebrar que torcer.

Avelino deu cedo vantagem aos da casa. Ao contrário do que acontecera na jornada 11, a velocidade foi pouco utilizada de início. Parecia que ambos tinham assinado um pacto de não agressão e que os lances vigorosos eram evitados. Felizmente para o público, que de forma generosa acorrera para levar os seus ao colo, o cenário descrito só durou meia-hora.

O Famalicão rompe com o marasmo instalado e atira-se sobre o FC Porto na busca de novo golo. Aos 38 minutos, Pires corre por entre dois portistas e oferece a bola a Avelino, à entrada da grande-área. Este finge que vai sair pela esquerda de Alfredo, mas guina para a direita e isola-se face a Barrigana que nada pode fazer: 2-0.

Agora sim, a festa é azul. Azul-Famalicão, claro. Ao intervalo comentam-se os lances, criam-se esperanças, levanta-se a hipótese de ainda ser possível ultrapassar o Vitória de Setúbal e evitar a descida. Devaneios que o vento levou.

Cinco minutos após o recomeço, Boavida reduz. O árbitro de Lisboa, Borges Leal, é permissivo. Combate-se ferozmente dentro das quatro linhas como se os 22 jogadores estivessem no ringue do Parque Mayer. Os esforços não são negados, nem de um lado nem do outro. Os adeptos enervam-se, gritam, barafustam. Entradas violentas não são sancionadas, a todo o momento espera-se que ecluda uma batalha campal. Mas, a pouco e pouco, a energia abranda. Os avançados do FC Porto percebem, frustrados, que não conseguirão ultrapassar o muro que Armando, Cerqueira e Julio Costa ergueram frente a Sansão. O Famalicão abandona o campo vitorioso. A alegria duraria pouco. Muito pouco...