Opiniao

Piscar à esquerda, virar à direita

O PS fala, fala, fala – mas uma vez no Governo acaba sempre por governar à direita.

O Partido Socialista, durante os últimos quatro anos, governou numa lógica de ‘faz de conta’.

António Costa fazia pisca para a esquerda, proclamava o seu amor pela esquerda, e depois discretamente virava à direita.

E o BE e o PCP colaboravam no engano.

Como?

Fingiam acreditar, por exemplo, nos orçamentos que Mário Centeno apresentava, sabendo de antemão que não eram para cumprir.

Aprovavam os orçamentos, embora soubessem que o ministro das Finanças não os respeitaria – pois faria as cativações que fossem necessárias para cumprir o défice.

Foi assim durante toda a legislatura.

Com a agravante de as cativações serem em áreas muito sensíveis para a esquerda, como a Saúde e os Transportes.

Além disso, tendo o PS protestado veementemente contra o brutal aumento de impostos decidido por Vítor Gaspar, não só não o revogou como o agravou.

Aquilo que Gaspar arrecadava em impostos diretos, de uma forma aberta, Centeno passou a amealhar de um modo sub-reptício, através de impostos indiretos.

E o PCP e o BE também fingiram não ver, nunca exigindo a diminuição da carga fiscal. 

Assim, o PS mantinha pela calada a política de austeridade que vinha do passado e o BE e o PCP assobiavam para o lado, tornando-se cúmplices da farsa.

Deve dizer-se, em abono de António Costa, que não se tratou de uma originalidade.

Sempre foi assim.

O PS fala, fala, fala – mas uma vez no Governo acaba sempre por governar à direita.

Recorde-se Mário Soares, que meteu «o socialismo na gaveta».

Recorde-se António Guterres, que escolheu uma «terceira via» para evitar o socialismo. 

Recorde-se José Sócrates, que liderou um dos governos mais liberais do passado recente, elogiado por todos os patrões, a começar por Ricardo Salgado.

Mas por que razão isto acontece?  Porque a esquerda, por natureza, é utópica.

A esquerda quer o impossível, não tem os pés no chão, vive de mitos – e por isso, quando chega ao poder, tem de governar com realismo e pragmatismo, ou seja, tem de governar à direita. 

Segundo se sabe, a rutura entre o BE e o PS que inviabilizou a repetição da ‘geringonça’ teve que ver com a legislação laboral.

O BE exigia a revogação imediata das leis laborais aprovadas no tempo do Governo de Passos Coelho, e o PS opôs-se.

E opôs-se porquê?

Porque alguém explicou a António Costa que os bons resultados que o seu Governo teve no desemprego – e que foram um dos grandes argumentos eleitorais do PS – se deveram em boa parte a essa legislação.

Dito de outro modo, se a lei fosse revertida existia o risco de o desemprego começar outra vez a derrapar.

Aí está um bom exemplo de como a esquerda vive de ilusões: para o BE o que interessava eram as aparências e não os resultados.

Outro dos trunfos eleitorais do Governo socialista foi o défice baixo. 

A esquerda defendia a derrapagem do défice para possibilitar melhores salários, mais investimento público, mais benefícios nos transportes e na saúde, etc.

Mas Costa e Centeno sabiam que a redução do défice, para lá de ser uma imposição da União Europeia, era fundamental para credibilizar o Governo e dar-lhe uma aura de responsabilidade junto dos setores moderados.
E não abriram mão deste princípio.

O que António Costa fez na anterior legislatura – e continuará a fazer nesta – é o que o PS (e em geral a esquerda, aqui e na Europa) faz sempre que chega ao poder: pisca à esquerda e volta à direita.

Foi, aliás, o que o próprio Syriza acabou por fazer na Grécia.

Claro que isto torna a vida mais difícil à oposição de direita – pois um Governo de esquerda que Governa à direita é muito mais difícil de bater.

P.S. – José Sócrates, ouvido pelo juiz de instrução, declarou-se completamente inocente e considerou a acusação «delirante». Lula da Silva, em recente entrevista à RTP, mostrou-se indignado com as acusações de que é alvo e reafirmou cem vezes a sua inocência. Azeredo Lopes continua declarar-se totalmente inocente no caso de Tancos. E o mesmo jura Ricardo Salgado no caso BES. Duarte Lima nega ter assassinado Rosalina Ribeiro. A mulher acusada de matar a mãe adotiva diz que não a matou. Rosa Grilo e o amante declaram nada ter que ver com a morte do triatleta. Pedro Dias, que já foi condenado, continua a afirmar que não assassinou ninguém. Não se arranjará para aí nenhum arguido que se declare culpado?