Cultura

Vitalina e o modo de fazer de Pedro Costa

Vitalina Varela, que deu a Pedro Costa o Leopardo de Ouro em Locarno, chegou às salas. Protagonizado por Vitalina, que, no panteão a que o cineasta eleva as suas personagens, se junta a Ventura e a Vanda.

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Era o tempo de Cavalo Dinheiro ainda, que em 2014, venceu o Leopardo de Prata de Melhor Realizaçã, protagonizado por Ventura, personagem chegada ao cinema de Pedro Costa já na década anterior, em Juventude em Marcha (2006), que contava ainda com Vanda Duarte, a protagonista de No Quarto da Vanda (2000). Pedro Costa procurava um espaço interior para filmar uma cena. Falaram-lhe na casa de um homem que já lá não estava. Era a casa de Joaquim, que tinha morrido fazia pouco tempo. Em direção à casa, na Cova da Moura, foram andando, esperando encontrar nada, mas a porta abriu-se. Diante deles, uma mulher: Vitalina Varela, acabada de chegar de Cabo Verde, depois de ter recebido a notícia de que o marido que em 1977 a largara em Figueira das Naus morrera. Lá, onde se casaram e na casa que juntos, tijolo a tijolo, construiram, Vitalina esperou por ele toda uma vida, até ao dia em que não houve mais por que esperar.

Virão desse encontro aquelas cenas em que, em Vitalina Varela, a sétima longa-metragem de Pedro Costa (excluindo os documentários Onde Jaz o Teu Sorriso?, de 2001, e Ne change rien, de 2009), a presença de Vitalina vai surpreendendo os que passam à porta da casa de Joaquim, ali encontrado morto uns dias antes. «Acredito no sobrenatural, acredito nestas coisas, para fazer algo de concreto», contou na apresentação do filme em Toronto sobre o momento em que descobriu Vitalina, a quem entregaria o seu próximo filme, chegado nesta quinta-feira às salas. «Estava a tentar começar a trabalhar na Zara, a fazer limpeza, ia ganhar cinco euros à hora. Consegui oferecer-lhe sete».

Juntos, entre as muitas visitas, as muitas conversas e a construção de relação de proximidade que desde No Quarto da Vanda caraterizam o processo de Pedro Costa, começaram a trabalhar no que o cineasta sonhava que pudesse dar um filme. «O filme começou a ganhar forma quando comecei a visitar a Vitalina no bairro da Cova da Moura e a conversar com ela todos os dias. Tivemos longas conversas. Quando percebi a quantidade de dor e pesar que a Vitalina estava a ter de suportar, pensei que o filme seria impossível», recordou, em entrevista ao Cine-file, um projeto colaborativo dedicado ao cinema independente e underground fundado em Chicago, onde Vitalina Varela acaba de ser premiado com um Silver Hugo. «Disse-lhe que podia não resultar. Ela continuou a dizer: ‘Se houver amor, as coisas vão funcionar’. Eu continuava a dizer-lhe: ‘Mas as suas palavras vão estar no filme, elas vão ser o filme’». 

Mas, de amor, Vitalina sabe. Aprendeu-o a vida inteira que, em Figueira das Naus, passou à espera: à espera que Joaquim voltasse, à espera de mais uma carta, de um telefonema que fosse, à espera daquele bilhete de avião para Lisboa que ficou como promessa fatalmente incumprida. A partir daí, com amor, como notou Vitalina em entrevista ao Festival de Locarno, e sobre amor fizeram um filme. 

«Tenho a sorte de ter os melhores argumentistas», disse ainda Costa, cujo cinema evoluiu para uma forma de trabalhar marcada pela ausência de argumentos escritos, antes anos de preparação e muitas horas (são dezenas de takes até encontrar cada cena) de rodagem, nessa mesma entrevista, concedida a Michael Glover Smith. «Claro que mantenho uma ordem nas coisas, faço as minhas sugestões, às vezes adiciono detalhes, associo e cruzo um pouco, mas o meu trabalho é sobretudo o de concentrar, ir afunilando».

Vem sobretudo dessa forma de partilha, de fazer quase sozinho (com equipas muito reduzidas, com um máximo de quarto pessoas), mas em conjunto o que distingue a forma de fazer cinema de Pedro Costa. Desde o momento em que, regressado de Cabo Verde, do seu segundo filme, Casa de Lava, com um conjunto cartas para entregar no bairro das Fontainhas, conheceu Vanda. E depois Ventura. E depois Vitalina. De volta à entrevista ao Cine-file: «Todos sabemos que pessoas como a Vitalina ou o Ventura ou a Vanda estão condenadas. Quando o seu barco deixa o porto, no minuto em que o seu avião levanta do chão, estão condenados. Desde o dia em que nasceram. E talvez estivessem condenados desde muito antes disso. [...] Não posso dar muito aos meus amigos cabo-verdianos. Não posso dar-lhes muito dinheiro, não posso dar-lhes um futuro radiante, não posso dar-lhes esperança. Mas talvez tenhamos tudo a ganhar com o nosso trabalho em cinema. O cinema pode ser esclarecedor e, de alguma forma, aqueles que foram prejudicados serão vingados. Um doce milagre, de facto. O Ventura cita a carta de São Paulo aos filipenses: ‘O nosso país é no céu’. E acrescenta: ‘Mas o medo também pode entrar no paraíso’».