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Lula da Silva. "Bolsonaro nunca fez um discurso que prestasse"

Após ser libertado da prisão, o ex-presidente do Brasil diz que quer contribuir para a reconstrução do país, apontando já às eleições de 2022

Lula da Silva. "Bolsonaro nunca fez um discurso que prestasse"

Um dia depois de ser libertado da prisão, Lula da Silva fez um discurso dirigido aos milhares de apoiantes que o receberam em São Paulo. O antigo presidente da República do Brasil foi muito crítico para com Jair Bolsonaro, apontando para as próximas eleições presidenciais, agendadas para 2022.

"Não posso ver o país que construimos ser destruído. Se as pessoas tiverem onde trabalhar, se tiverem salário, se tiverem onde estudar, se tiverem acesso à cultura, a violência vai cair. Temos de viver contra a distribuição de armas do Bolsonaro. Vamos distribuir livros, vamos distribuir emprego, vamos distribuir o acesso à cultura. Este é o país que o Brasil quer e sabe construir", frisou Lula, antes de virar agulhas para Bolsonaro, "um presidente que nunca fez um discurso que prestasse": "Encontrou-se com um príncipe que matou e esquartejou e fez carne moída de um jornalista", disparou, referindo-se ao príncipe saudita Mohammed bin Salman e associando-o à morte do jornalista Jamal Khashoggi. "Queremos que esta gente saiba que este país é nosso", acrescentou.

Garantindo que o objetivo é chegar às próximas eleições presidenciais - "Tenho a certeza que, se tivermos juízo e soubermos trabalhar direitinho, em 2022 a chamada esquerda de que o Bolsonaro tem tanto medo vai derrotar a ultradireita que nós tanto queremos derrotar" -, Lula da Silva disse ainda que preferiu ser preso a refugiar-se numa embaixada ou noutro país "para provar um ponto". "Fui para lá para provar que o juiz [Sérgio] Moro [atual ministro da Justiça] era um canalha que me estava a julgar, para provar que o procurador Deltan Dallagnol não representa o Ministério Público, que é uma instituição pública, e que montou uma quadrilha com a Lava Jato. Se eu saísse do Brasil ia ser tratado como fugitivo, mas decidi enfrentar as feras", atirou.

O antigo chefe de Estado do Brasil, hoje com 74 anos, governou o Brasil entre 2003 e 2010, tendo sido preso após ser condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), num processo sobre a posse de um apartamento, que os procuradores alegam ter-lhe sido dado como suborno em troca de vantagens em contratos com a estatal petrolífera Petrobras pela construtora OAS. Esta sexta-feira, depois de 580 dias de cárcere, viu a sua libertação decidida por um juiz em menos de 24 horas após uma decisão do STF, na quinta-feira, ter alterado a jurisprudência e proibir a prisão após condenação em segunda instância dos réus que recorrem para tribunais superiores.

"Cá estou eu, livre como um passarinho, durmo toda a noite, com a consciência tranquila dos homens justos e honestos. Duvido que o Moro e Dallagnol durmam tranquilos como eu. Duvido que o Bolsonaro durma com a consciência tranquila como eu, que o ministro Guedes [da Economia], destruidor de sonhos e de empregos, durma de consciência tranquila", disparou o histórico líder do Partido dos Trabalhadores, garantindo não querer "vingança" mas sim a "reconstrução do Brasil".

Ainda antes deste discurso, Lula da Silva havia enviado uma mensagem em vídeo dirigida a líderes da esquerda latino-americana reunidos em Buenos Aires onde disse estar com "muita disposição para lutar contra o lado podre da Justiça, da polícia e da imprensa brasileira". "Estou com muita disposição de andar pelo Brasil, com muita vontade de viajar pela América Latina. E estou com muita disposição de combater o lado podre do Poder Judiciário, o lado podre da Polícia Federal, o lado podre da Receita Federal, o lado podre do Ministério Público e o lado podre da imprensa brasileira", refere o antigo presidente do Brasil no vídeo enviado à reunião do Grupo de Puebla, acrescentando: "A elite latino-americana é muito conservadora e não aceita a ideia de um povo pobre subir um degrau na escala das conquistas sociais".

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