Desporto

Kiko Maria. Acelerar é um trabalho de equipa

Recém-consagrado campeão nacional de velocidade de PréMoto 3, o piloto de 15 anos iniciou-se no motociclismo há três. Aos 11, quando pediu aos pais a primeira moto, ainda nem sabia andar de bicicleta. A evolução do jovem natural do Porto tem sido notória e o segredo desta caminhada passa também pelo trabalho de equipa feito em família. No próximo ano segue na linha de crescimento para um dia chegar ao Moto GP.

Aos 12 anos esperam-se vários pedidos por parte dos filhos. No que diz respeito às atividades extra extracurriculares é normal haver um sem fim de vontades e de universos por explorar. A ginástica, o judo, a vela, os desportos de combate, o futebol... Foi, aliás, dentro das quatro linhas, como tantos miúdos, que Francisco Maria Pereira deu entrada no mundo desportivo._Seria, entretanto, como Kiko Maria que ficaria conhecido no motociclismo. Influenciado pelo avô, seguidor atento da modalidade, o sonho de ser piloto começou a ganhar forma na pré-adolescência. Primeiro abordou a mãe sobre este interesse e só mais tarde revelou esta vontade ao pai, que inicialmente nem recebeu a novidade com agrado uma vez que já tinha estado a recuperar de uma lesão grave devido às motos.

Ultrapassada a primeira barreira, o desejo de receber uma moto acabaria mesmo por ser realizado, curiosamente numa altura em que Kiko Maria ainda nem sabia andar de bicicleta.

Assim, aos 12 anos, a bola de futebol ficava definitivamente fora de jogo, iniciando-se uma nova etapa, desta feita na Lorenzo School, em Coimbra, do tricampeão mundial de Moto GP Jorge Lorenzo. É, de resto, a partir deste momento que o percurso do jovem natural do Porto começa a ser feito sobre rodas. Literalmente. Desde que deu entrada na escola do piloto espanhol até alinhar na sua primeira corrida passaram cerca de 15 dias: em julho de 2016, em Navarra, numa prova do Campeonato de Espanha de Minivelocidade, aos comandos de uma minimoto, Kiko Maria, com 12 anos, estreou-se com um pódio, ao alcançar o terceiro lugar, resultado que deu força para que existissem novas metas no motociclismo.

 

O primeiro título e o fecho da temporada

Neste caso em concreto pode dizer-se que à terceira foi de vez. No terceiro ano em que disputou o campeonato nacional de velocidade, na categoria de PréMoto 3, Kiko Maria (Moto Action Team) sagrou-se campeão, no final do passado mês de outubro, no Autódromo do Estoril. Depois de um quarto lugar na época de estreia, em 2017, e de um segundo lugar em 2018, o jovem piloto confirmou, aos 15 anos, esta evolução, que já tinha colocado os holofotes na sua direção. Com cinco vitórias em seis rondas da prova, as motos são já um assunto sério na vida da família, que organiza as suas rotinas em função do calendário (muito) preenchido de Kiko. «Um dos meus objetivos definidos para este ano era ser campeão nacional. Depois de uma época como a de 2018, já sabia que ia lutar pelo título, e foi o que fiz. Ganhei e por uma margem muito maior do que o registo do ano passado em termos de corridas», diz ao b,i. Kiko Maria. Além de disputar a prova portuguesa, o jovem piloto compete ainda no campeonato espanhol, com a mesma equipa, e no European Talent Cup (Leopard Impala Junior Team). Também no país vizinho o nortenho tem dado que falar e voltou a brilhar no último fim de semana (2 e 3 de novembro), ao fechar a temporada com a sua melhor classificação no campeonato espanhol de velocidade na mesma categoria. O recém-consagrado campeão nacional de PréMoto 3 cruzou a meta em quarto lugar na última corrida do ESBK 2019, no circuito de Jerez de La Frontera, terminando em 6.º lugar na geral. Apesar de ter chegado a apontar ao top5, Kiko Maria não esconde a sua satisfação, sustentada nas diferenças evidentes entre as provas portuguesa e espanhola – bem como nas características da moto.

«Foi um campeonato bastante difícil desde o princípio. O meu principal foco era lutar pelos cinco primeiros lugares e consegui nesta última corrida», revela, lembrando que nem sempre competiu com as mesmas condições que os adversários. «Foi pena só termos tido as mesmas condições que os outros a meio do campeonato, mas sei que com condições iguais podia ter lutado claramente pelo top5 ou até pelo top4», assegura, reforçando que as melhorias foram evidentes a partir de metade do campeonato, altura em que trocou para uma moto «mais potente».

Além disso, o jovem de 15 anos comenta ainda o fator competitividade, com um nível muito maior em Espanha, país em que a modalidade se encontra noutro patamar em vários aspetos, com o mais evidente a ser logo à partida o número de praticantes . «Começam muito mais cedo, têm muito mais circuitos onde treinar e andam muitos muitos dias de moto. O nível do campeonato espanhol é muito competitivo mas também por isso é onde se aprende mais», ressalva Kiko Maria.

Este fim de semana (9 e 10 de novembro), e pela última vez esta época, o número 4 volta a entrar em ação, desta vez na jornada derradeira do European Talent Cup, que se irá disputar no Circuito Ricardo Tormo, em Valência. Na competição, considerada o topo dos escalões de formação do motociclismo de velocidade, com 55 pilotos de 18 nacionalidades em 2019, pontuar seria uma espécie de despedida desta época com chave de ouro, uma vez que seria um resultado histórico. A competir pela segunda época na prova, em que participou pela primeira vez em 2017 com o estatuto de wildcard na ronda do Estoril (19.º classificado na primeira corrida que disputou), o jovem piloto português acredita que pode haver surpresas. «Acho que em Valência podia dar uma surpresa a toda a gente porque até agora foi das melhores corridas, sem dúvida nenhuma, que já fiz na minha carreira. Vou trabalhar para isso. No Campeonato da Europa menos uma décima por volta pode significar quatro ou cinco lugares e, por isso, tudo pode acontecer», alertou o jovem.

 

A rotina, os sacrifícios e o trabalho de equipa

Quem corre por gosto cansa-se, mas continua a correr. Com uma vida desportiva muito dividida entre Portugal e Espanha, Kiko Maria tem ainda outro foco que não descura. Consciente da importância de ter um plano b, o jovem, que agora frequenta o 10.º ano na Escola Alemã de Lisboa, optou por dedicar-se à engenharia mecânica como área de estudo. Sempre gostou de matemática e de números embora, revela, esta tenha sido uma escolha que foi em grande parte influenciada pelo primo. «Ter visto o meu primo a tirar uma das melhores médias na faculdade de engenharia dos últimos 30 anos motivou-me também a seguir os passos dele e tentar tirar também uma boa média», conta. «Tenho sempre de ter um plano b porque as probabilidades de chegar ao Moto GP são muito reduzidas e, por isso mesmo, é que tenho sempre de estudar muito quando estou em prova», confessa.

Há, de resto, entre várias fatores, a chamada regra de ouro neste percurso de Kiko Maria: sem um bom rendimento escolar, não há motos.

A logística não é, naturalmente, simples e o jovem piloto tem consciência dos sacrifícios que estão implicados. «É óbvio que não posso passar tanto tempo com os meus amigos como gostaria, mas sinto que não estou com eles por um bom motivo, para seguir o meu sonho. É preciso fazer certos sacrifícios como o de não ter uma vida social tão ativa mas, como sou tão focado, olho sempre para o que posso concretizar com este esforço», diz, de forma prática e sem rodeios. O dia-a-dia, dividido entre escola, ginásio, provas e dias de recuperação, é bastante preenchido e, por isso, a organização é o segredo do sucesso. Porém, Kiko Maria sabe que não está sozinho e tem na família o principal pilar. Mais do que isso: os pais e os avós são dois dos ingredientes principais que permitem a evolução notória destes últimos três anos. Um verdadeiro projeto de família em que as melhorias apresentadas só existem por estarmos perante um trabalho de equipa. Em que todos somam.

O trabalho fora das pistas pode chegar a ser tão relevante como as provas e, por isso, também neste campo há várias áreas a desenvolver. Exemplo vivo disto mesmo é a gestão analítica que os pais procuram fazer ao percurso feito até agora – avaliando, entre outros dados, a idade real versus idade desportiva, em que a meta primordial continua a ser ter estes dois vetores alinhados.

«À parte da escola, que é o mais importante, vou ao ginásio diariamente. Quando há provas costumo sair na quarta-feira para andar quinta, sexta, sábado e domingo. Relativamente à escola, mesmo quando estou nas motas, em prova ou a treinar, tenho sempre que estudar», reafirma.

Por enquanto, e ainda sem poder abrir portas sobre a temporada 2020, Kiko Maria revela que o próximo ano segue na linha do crescimento que o permita fazer chegar um dia ao MotoGP, onde corre atualmente o piloto português Miguel Oliveira.

Diga-se também que o almadense, a par do veterano piloto italiano Valentino Rossi, são duas das principais referências do recém-campeão nacional. «Sim, os meus ídolos são o Miguel e o Rossi, inspiram-me bastante, mas de forma diferente. Fazem-me acreditar muito. Ver o Rossi com uma idade bem mais avançada [40 anos] que os outros e ainda assim conseguir lutar pelos pódios e por vezes ganhar, que é algo nunca visto no mundo das motas, motiva-me todos os dias. Claro que aprendo muito com eles em pista. Sempre que vejo as suas corridas tento perceber como gerem as coisas», admite.

Todavia, o jovem sabe que até chegar ao topo do motociclismo o caminho é longo, mas que está disponível e focado para fazê-lo. A acelerar quando a velocidade for pedida, mas atento às opções que a próxima curva vai exigir. A personalidade de Kiko Maria está, aliás, bem patente na condução: racional, inteligente e destemido.

Contas feitas, entre este primeiro título, e até atingir a classe rainha, há vários degraus, que o piloto ordena de uma forma lógica: primeiro o Mundial de Júniores de Moto3, que é seguido pelo Mundial de Moto3, depois o Mundial de Moto2 e, finalmente, o tão ambicionado Moto GP.

Apesar de já ser olhado como a principal jovem promessa do motociclismo português, Kiko Maria liberta-se do peso que pode estar associado ao rótulo. A energia está toda direcionada para o que realmente importa, o trabalho fora e dentro da pista. Que traz, no final do dia, várias histórias para contar. Em Espanha, por exemplo, Kiko Maria é já o principal intérprete entre os pilotos de várias nacionalidades (italianos, suíços, americanos e ingleses). O motociclismo tem também sido uma janela para o mundo, que permite conhecer outras culturas e aprender novas línguas. Tanto assim é que depois de ter aprendido a língua espanhola, já fala também fluentemente o catalão, que treina apenas com a convivência nas provas disputadas no país vizinho.

A sua entrada na competição espanhola foi, de resto, parte crucial nesta jornada uma vez que Kiko admite que a paixão pelas motos só se tornou séria quando passou a competir fora de portas.

«Quando entrei nas motas não tinha noção se era uma coisa séria ou não, sabia que era algo que gostava muito de fazer e que gostaria de chegar ao topo, ao Moto GP. Só quando me apercebi de todos os sacrifícios que tinha que fazer e o trabalho envolvente é que, de um momento para o outro, sobretudo quando entrei no campeonato espanhol, senti que se era para entrar nisto era para dar o melhor e de forma séria para ter bons resultados desportivos», recorda. E continua: «Eu via as corridas com os meus avós, principalmente com o meu avô, que anda de mota. Não tinha muita ideia do que era o motociclismo mas gostava de ver porque havia uma emoção muito grande».

 

O número 4

Nascido a 4.4.2004, não é preciso ser muito perspicaz para entender a razão da escolha do número com que se apresenta em pista: o 4, pois claro. Curiosamente, para o ano será a sua quarta época no motociclismo, uma coincidência que desvaloriza. A instantes de fechar o plano oficial desta temporada, Kiko Maria começa de imediato a preparar a próxima época. Mas para os mais distraídos, o jovem piloto deixa o alerta: «Muita gente se calhar não vai estar à espera do que vai acontecer».

Por agora, ainda é tempo de espreitar o que será capaz de fazer este fim de semana em Valência – e as últimas duas provas, primeiro no campeonato português e, depois, no espanhol, fazem acreditar que tudo pode acontecer no Ricardo Tormo.