Internacional

Hong Kong está a chegar “ao ponto de não retorno”

Um manifestante foi baleado à queima-roupa por um agente da polícia. Horas depois uma pessoa foi queimada viva por manifestantes.

O dia de ontem marcou um ponto particularmente baixo para Hong Kong. No espaço de algumas horas, um manifestante foi baleado à queima-roupa por um polícia e manifestantes queimaram vivo um homem que os confrontou. Ambos os ataques foram filmados e divulgados nas redes sociais, e as vítimas hospitalizadas em estado crítico.

A tensão já estava em alta de manhã, apó um fim-de-semana de protestos e vigílias, pela morte de Alex Chow, um estudante de 22 anos, que morreu na sexta-feira, após uma queda da berma de um parque automóvel, durante uma operação policial, quando fugia do gás lacrimogéneo. Sucederam-se os confrontos entre polícias e manifestantes, incluindo no bairro de Sai Wan Ho, no nordeste da cidade, onde manifestantes bloquearam o tráfego.

Pouco antes das oito da manhã, numa rua repleta de destroços, um agente foi filmado em direto para as redes sociais a perseguir manifestantes, afastando-se quando estes se juntam a transeuntes. Mas algo faz o polícia regressar. Vira-se, saca da arma, e aponta-a a um manifestante, aparentemente desarmado. Agarra-o pelo pescoço e arrasta-o. De imediato, dois outros manifestantes aproximam-se. O agente dispara sobre um deles, e ouvem-se mais dois tiros. Nesse momento junta-se outro agente e dois dos manifestantes são detidos.

“É totalmente inaceitável para mim ver uma força policial brutal simplesmente chegar aqui e atingir uma pessoa”, lamentou um residente, Callum Lau, em declarações ao site hongconguês rthk.hk. É a terceira vez desde o início dos protestos que um manifestante é atingido com fogo real. Mas as autoridades garantiram que as acusações de uso indiscriminado de armas de fogo não passam de “rumores online”, “totalmente falsos”.

Os confrontos intensificaram-se, com os habitantes a gritar “assassinos”, segundo a CNN, incendiando barricadas e fechando universidades. As autoridades dispararam gás lacrimogéneo, inclusive no distrito financeiro de Hong Kong - algo incomum em dias de semana.

Do outro lado de Hong Kong Horas depois, nos Novos Territórios, na periferia da cidade, um grupo de cerca de 20 manifestantes, vestidos de preto, vandalizaram a estação de comboios de Ma On Shan. De acordo com o South China Morning Post, um trabalhador da construção civil que estava de folga, Leung Chi-cheung, de 57 anos, confrontou os manifestantes: “Vocês não são chineses”, gritou. Os manifestantes responderam: “Somos hongcongueses”.

O que se seguiu foi filmado e divulgado nas redes sociais. Dois manifestantes atiram um líquido inflamável a Chi-cheung, Um dos criminosos ateou o líquido com um isqueiro e todos se afastaram, entre gritos dos presentes e da vítima, que fugiu envolta em chamas. Chi-cheung, pai de duas meninas, sofreu queimaduras de segundo grau em 28% do corpo, segundo disseram os bombeiros ao South China Morning Post.

Hong Kong está a chegar “ao ponto de não retorno”, assegurou a líder do Executivo, Carrie Lam. E tudo indica que tem razão.