Cultura

‘Aquilo que fiz de mais interessante na vida foram coisas que custaram muito’

Antigo administrador do CCB e da Culturgest, aos 70 anos estreia-se no cinema como ator – e logo como protagonista – no filme Technoboss, onde canta e dança. Ao princípio não se conseguia ver e temia que dissessem que tinha participado ‘por uma vaidade qualquer’. Agora já está pacificado.

A sala de estar do seu apartamento em Benfica é dominada por uma enorme estante com milhares de CDs, metodicamente organizados por ordem alfabética. Quando, pela primeira vez na vida, montou a casa ao seu gosto, quis que a música ocupasse a zona mais nobre. É o testemunho de uma paixão que lhe foi incutida pelo pai e que dura desde então, mas também do seu percurso como gestor cultural.

Licenciado em Direito, Miguel Lobo Antunes participou na Europalia e adquiriu notoriedade como administrador do Centro Cultural de Belém e da Culturgest, cargo este que ocupou até há cerca de dois anos.

A reforma trouxe-lhe algo de inesperado:o convite para participar num casting para um filme. Aceitou o desafio e acabou selecionado. O resultado está aí:Technoboss, de João Nicolau, estreou-se esta quinta-feira nas salas portuguesas. Antes disso já tinha sido exibido em Locarno, onde o desempenho deste ator por acidente mereceu elogios da crítica.

Como é que alguém entra pela primeira vez num filme aos 70 anos, ainda por cima como protagonista?
O João [Nicolau, o realizador] escreveu este filme a pensar num ator profissional. Ele estava a fazer um casting com atores e cantores profissionais e a meio desse processo encontrou-me numa festa, a dançar – gosto muito de dançar. Como ele é amigo do meu filho mais novo, pediu o meu contacto e telefonou-me. Contou-me vagamente o filme e perguntou se eu me importava de fazer o casting. Eu estava à beira de passar à reforma e achava graça a ver como se faz. Mas a minha ideia era fazer o casting e acabou, nunca pensei que fosse selecionado.


E esforçou-se?
Esforcei-me imenso. Ele deu-me umas cenas para decorar e uma canção. Passei à segunda eliminatória, que era uma final, e ao fim de um tempo disse que eu tinha sido escolhido. E eu não tinha argumento para dizer que não.


Porque já contavam consigo?
Se ao fim de fazer um casting com dezenas de pessoas ele achava que eu era a pessoa indicada, eu só tinha que ter confiança. Eu arriscava, porque é chato um tipo chegar aos 70 anos, fazer um filme e dizerem: ‘Porque é que ele se meteu naquilo? É mesmo parvo, não se conhece, tem uma ilusão, uma vaidade qualquer’. Isso era horrível. Mas era pior ainda para ele. E como ele era muito preciso nas indicações e estava contente com a forma como eu respondia, confiei nele.


Pôs-se nas mãos dele.
Exatamente. Costumo dizer que [como ator] sou uma criação do João: não só o personagem, mas o tipo que faz do personagem é uma criação do João.


Mas também terá muito de si...
Eu esforcei-me imenso, trabalhei brutalmente. Aquilo custou-me horrores, foi uma coisa muito, muito difícil, mas se não fosse ele e as indicações que ele me dava, nunca teria feito o trabalho que fiz.


Pediu conselhos a alguém?
Nem sequer tinha tempo para isso. Só uma vez, quando estava a ensaiar sozinho cá em casa. Uma das minhas noras é atriz, vieram cá almoçar, e eu mostrei-lhe: ‘Vou fazer assim, o que é que achas?’. Ela disse que estava bem, portanto... Mas a minha primeira preocupação era decorar o texto. 

É difícil?
Para mim é difícil, porque não exercito a memória desde que acabei o curso há 50 anos, e porque um tipo vai perdendo capacidades. As canções que tive de cantar têm subtilezas várias e às vezes trocava alguma palavra. Estava sempre nervosíssimo com essa parte de decorar o texto, preocupava-me mais com isso do que com a maneira de representar. Em relação à representação, achei que quanto mais contida fosse a representação, mais hipóteses tinha de não fazer asneira. Olhando agora para o filme, é verdade que em muitas cenas vê-se uma cara fechada sem grande expressão, mas há outras cenas em que é um bocado palhaçada. [risos] Eu também gosto de fazer palhaçada.

Uma vez disse-me que não gostava de ver a sua cara nos jornais.
É verdade.

Para alguém que preza o recato, como lida com esta exposição?
No início não era capaz de ver. Quando houve algumas cenas que tive de retificar, passava um bocadinho de imagem e eu ficava horrorizado. Ao princípio tinha uma enorme dificuldade. E a primeira vez que vi o filme, em Locarno, estava sempre a olhar para mim, mas só para ver os erros que fazia.

Os defeitos.
Estava obcecado. [Dá um murro no sofá] ‘Fizeste mal aquilo’.


Estava demasiado concentrado no seu desempenho?
Naquilo que fazia de mal. E tinha na cabeça que ia ver uma vez e nunca mais via. Depois percebi que precisava de saber minimamente o que tinha passado. Então estive a ver no computador repetidamente. À terceira vez já comecei a afastar-me. E depois tive a sorte – isso foi muito importante – de terem saído críticas em Locarno a dizer bem do que eu fazia.

Isso deu-lhe segurança?
Exatamente. Portanto disse: ‘Calma! Se há pessoas que dizem que fizeste um bom trabalho, tem calma, não estejas assim’. Já vi três vezes em sala, e vou ver mais vezes, pacificamente. Foi uma questão de as outras pessoas reconhecerem que o trabalho não está mal feito e então fiquei mais à vontade comigo próprio e a achar que não tinha feito má figura.

Apesar de não ter gostado das filmagens e de não estar muito convencido, conseguiu retirar algo de bom desta experiência?
De alguma maneira isto transformou a minha velhice. Primeiro foi a rodagem, depois os festivais, a promoção – tenho de ir a muitos sítios em Portugal apresentar o filme. É completamente improvável aos 70 anos acontecer isto, é uma coisa que não cabe na cabeça de um tinhoso, e há que aproveitar isto que a vida me deu. Vai passar, mas durante dois anos a minha reforma, que era no início uma coisa pesada, aliviou e fiquei numa espécie de nova vida. Porque houve pessoas que disseram ‘isto está bem’ – claro que ninguém se aproxima para dizer ‘fizeste uma porcaria de trabalho’ –, começo a pensar que não faço má figura. Retroativamente, todas as histórias que passei na filmagem passam a ser filtradas pela memória, e as brincadeiras, as histórias que posso contar um dia aos meus netos ou aos amigos, começam a aparecer. ‘Estás a ver esta cena? Estava todo torto, cheio de dores nas costas’.


Houve alguma coisa que tenha sido particularmente difícil?
Houve cenas que foram de tal modo difíceis para mim, que quando a coisa saía e o João achava bem, por três vezes eu desatei a chorar. Estava de tal forma concentrado, era tão difícil fazer aquilo, que explodia. Foi tudo feito assim, com enorme sacrifício. E no final da rodagem estava estourado. Completamente.

Mentalmente ou fisicamente?
As duas coisas. Tinha dores, estava sempre a tomar paracetamol, tinha cãibras, não conseguia dormir...


Isso parece quase um calvário!
Descrito assim, parece, mas de facto foi muito difícil. E a dificuldade foi aumentando com o desgaste. Porque eu não sou novo e filmava onze horas por dia, seis dias por semana. Havia um dia para descansar, em que eu não descansava porque ia tentar não me esquecer. Foram sete semanas... Dito assim parece que estava em grande sofrimento. Não exageremos – não fui crucificado, mas não tenho dúvida nenhuma que foi a coisa mais difícil que fiz na vida, e cheguei ao fim completamente estiolado. A última cena eu pensava que não era capaz de a fazer. Quando se filma na autoestrada, para repetir tem de sair da autoestrada, voltar tudo para trás, retomar, ir ao sítio. Isto demora muito tempo. Era uma da manhã, uma e meia. E eu pensava ‘não sou capaz de guiar o carro a seguir, tem de vir alguém comigo escondido no banco de trás’. E fartei-me de berrar com eles: ‘Eu não consigo fazer isto!’. Estava completamente exausto. A cena em que estou a dançar foi com whisky para ajudar. As pessoas felizmente não reparam, pensam que estou ali à vontade, mas não estava nada.


Disse que este filme transformou a sua reforma. Tinha feito planos?
Não. E não tenho. E este estado de excitação, de adrenalina, vai acabar. Entretanto adaptei-me e encontrei algumas formas de contrariar o que a reforma tem de mau.

Foi criando rotinas?
Uma das coisas más é que um tipo está em casa e não vê outras pessoas. E é fundamental estar com pessoas de várias idades, não posso estar só com reformados, porque estão todos a queixar-se de que lhes dói o joelho, foram ao médico, e não estão abertos a novidades. É um bocado deprimente. Portanto convido para almoçar pessoas de várias idades, homens e mulheres, é uma forma de sair de casa. E comecei a perceber que tinha liberdade e podia usar essa liberdade de uma forma agradável. Apetece-me ir passear a Sintra, pego no carro e vou.

E pegar, por exemplo, num livro que nunca teve tempo para ler?
Está ali o Dom Quixote.


Está a ler o Dom Quixote?
Estou a ler os clássicos. Grandes. O Homem sem Qualidades, do Musil, o Proust...

Todos ao mesmo tempo?!
[Risos] Do Musil li o primeiro volume, que é um calhamaço. Pousei, e agora estou a ler o Proust, e este [D. Quixote] leio um bocadinho de cada vez. De vez em quando leio livros mais pequenos. A leitura é uma das ocupações, como a música. Mas aquilo que nos faz mais felizes são as relações afetivas, estar com os outros, portanto tento cultivar isso. É muito melhor do que ler um livro.


E sente falta de ter um sítio para onde ir?
No início era uma coisa terrível. O reformado trata de assuntos. Agora tenho de ir fazer a vacina contra a gripe. Isso para um reformado ocupa uma manhã – é uma satisfação [risos]. Já tenho com que me ocupar. Passei a ir ao supermercado a horas a que nunca fui, a dias a que nunca fui. Passei a ter o tempo todo à minha disposição. Agora o que faço com isto?


Quando se chega à reforma é uma altura para ver o que se fez na vida e tentar pôr isso em perspetiva?
O que fiz está feito e não lhe posso mexer. Não vale a pena pensar nisso. Não fiz nada que fosse planeado, que fosse um objetivo de vida. Sempre achei que o sentido da vida era uma coisa que se construía – a não ser quando era católico, aí o sentido da vida era ser santo. Fora disso esforçava-me para fazer bem, de uma forma honesta e aplicada, aquilo que profissionalmente me era dado fazer. Não olho para trás para fazer um balanço da vida, mas acho que a vida foi muito generosa comigo. Tive uma vida profissional, afetiva, etc., muito rica. Para outras pessoas talvez não fosse assim – e não é preciso ser administrador do CCB para se ser feliz, para se ter uma boa impressão sobre si próprio. Curiosamente, tudo aquilo que fiz de mais interessante foram coisas que custaram muito. Dar aulas, por exemplo. Eu nunca tinha dado aulas na vida e custou-me horrores.

Foi como agora ser ator?
Exatamente. Estava aflito a fazer aquilo. Sofria, suava das mãos, não estava nada à vontade. Nesse sentido não tenho um dom, nunca estou seguro, nunca estou descontraído, exceto em duas vezes ou três que só tinha de mandar bocas. Ou a fazer coisas jurídicas. Nisso estava mais à vontade

E quando deixou de ser católico? Foi em jovem, em adulto?
Já estava casado. Desde menino andei na catequese, no liceu fui dirigente da JEC [Juventude Escolar Católica], e mais tarde da JUC [Juventude Universitária Católica]. Também fiz parte de um movimento que se chama Schoenstatt. Isto passa-se quando tinha 15, 16, 17 anos. E levava a religião muito a sério. Era a coisa mais importante na minha vida, a relação com Deus influenciava tudo o que eu fazia. As pessoas acham um bocadinho esquisito eu dizer que queria ser santo, mas isso não tem nada de especial. Não é ser santo de milagres.

Era ter uma vida exemplar?
Era procurar seguir os mandamentos do amor. E baseava a minha vida nessa forma de ver o mundo. Havia uma tendência para reduzir a religião a preceitos morais – é preciso ser bom, não roubar, não isto, não aquilo. Mas isso é uma dimensão muito horizontal. A religião é mais do que isso, é uma relação com a divindade. Uma dimensão vertical, se quiser. E foi essa dimensão vertical que eu perdi. A certa altura da vida achei que era uma construção minha, que Deus era criado pelos homens e não os homens criados por Deus. Há muita gente que pensa assim.


Houve algum acontecimento que o levasse a chegar a essa conclusão?
Acho que houve duas coisas que contribuíram. Até começar a trabalhar, a religião era vivida em grupo. Depois passei a ir à missa da paróquia, mas aquilo não me dizia nada. Além disso a minha mulher não era católica. Mas sempre vivi pacificamente com o meu ponto de vista de ateu, que é o que eu acho que sou. Não era capaz de ser agnóstico, porque se fosse agnóstico eu não descansava enquanto soubesse se havia ou se não havia Deus.

Este bairro de Benfica é zona da sua família, não é?
Esta zona é mais Carnide, estrada da Luz. A casa dos meus pais, que agora é de dois sobrinhos, já é muito perto da igreja. Mas não estou longe.


Tanto o Miguel como outros irmãos seus são pessoas que se notabilizaram nas respetivas áreas. Acha que isso se deve aos genes ou ao tipo de educação que tiveram?
Somos feitos das duas coisas. Há obviamente uma componente genética, há uma componente da educação e há uma componente de todas as contribuições que fomos recebendo ao longo da vida, desde os professores aos amigos, às coisas que nos aconteceram. Somos um produto disso tudo. Agora, de facto, quer o António quer o João são pessoas que se destacaram imenso, mas em coisas muito diferentes…


Se bem que ambos na área da medicina e na escrita.
Sim, mas o António nunca foi conhecido por ser um bom médico, embora eu esteja convencido de que era um bom psiquiatra. É pela literatura. E o João foi por ser médico e pela intervenção que teve como professor e a importância que teve na investigação. E porque escreveu várias coisas que ajudavam a pensar, teve uma intervenção cívica – uma coisa muito vasta. O António é muito focado na literatura. São pessoas excecionais. Isso também tem influência na maneira como as pessoas olham para nós – para os outros que não são tão excecionais.

Quando diz que ele é muito focado na literatura é porque canaliza tudo o que faz para a literatura, porque está sempre a pensar nisso?
É o que ele faz. Ainda ontem por acaso estivemos a jantar e ele contava-me isso. A vida dele é essa, levanta-se às seis da manhã e acaba à noite, com um intervalo para almoçar e um intervalo para lanchar uma coisinha. E é o que faz todos os dias.

Isso é quase um sacerdócio.
Não é um sacerdócio – é, como ele diz, a sua neurose. É a maneira de ele sobreviver. Se não escreve, entra em depressão. Precisa de escrever para não entrar em depressão. Há muito isso nos criadores – aquilo que os leva a serem escritores, músicos, artistas plásticos, resulta de uma necessidade interior, de um impulso interior que muitas vezes é a forma de as pessoas se sentirem mais felizes, de atingirem uma estabilidade emocional e psíquica.

Há pouco, a propósito da educação que tiveram, não lhe perguntei: era uma educação exigente?
A minha mãe tinha o papel que as senhoras tinham naquela altura – era mais apaziguar, cuidar do quotidiano. Era dona de casa, tinha a quarta classe. Mas o meu pai tinha uma preocupação muito grande de transmitir-nos aquilo de que ele gostava – e gostava de música, gostava de literatura, gostava de pintura. Cinema era raríssimo e espetáculos nunca via. E mesmo a pintura era através de livros, porque ele saía pouco.


Provavelmente livros ainda com reproduções a preto e branco...
Ele tinha muito jeito para desenhar, e ensinava aos dois mais velhos, porque gostava de partilhar essas coisas. A casa dos meus pais tinha rés-do-chão e primeiro andar, a casa de jantar era em baixo, o escritório dele era em cima, e de vez em quando levantava-se para ir buscar um livro e ler um bocado para a gente. Depois os meus irmãos mais velhos tinham cada um a sua biblioteca. Como os irmãos competem pelo afeto dos pais, eu tentava de alguma forma imitá-los, e comecei também a comprar os meus livros, a ler os livros deles. E havia essa cultura – que eu hoje acho abominável – uma espécie de superioridade daquele que é sensível ou sabe quem é Mozart, Bach ou Beethoven, sobre aqueles que não sabem; aquele que é capaz de apreciar um Caravaggio e aqueles que não sabem. Havia os inteligentes e cultos e havia os burros.

Lá em casa cultivavam isso?
Cultivava-se a inteligência como um valor muito importante. Hoje em dia estou completamente contra isso – não há nenhuma relação de superioridade entre aqueles que gostam e os que não gostam, os que têm mais cultura e os que têm menos – somos iguais, uns têm umas capacidades, os outros têm outras. Claro que gosto imenso de conversar com pessoas inteligentes, dá-me imenso gozo ver uma inteligência a trabalhar. Isso foi uma herança paterna, e dos meus irmãos. A diferença grande entre os meus irmãos e eu, mais novo, é que o meu pai não investiu tanto em mim como investiu neles, mas eu estava sempre a tentar chamar a atenção: ‘Pai, olhe que eu também não sou mau!’ [risos].
 

Hoje ainda partilham descobertas que fazem?

O núcleo primeiro era dos quatro mais velhos, seis anos depois vem o Nuno e dez anos depois vem o Manel. Hoje em dia, desses quatro, os dois do meio [João e Pedro] desapareceram, há o primeiro e o último. A minha ligação com o António era mediada pelos outros irmãos e agora...

E agora têm uma ligação direta.
Tenho uma relação agora com ele que não tinha, porque fomos os dois que ficámos. Também há o Nuno, mas não vivemos as mesmas coisas. Mas gosto no Natal e nos anos de dar ao Nuno um disco que ele não conhecia. A mesma coisa para o António. Procuro um livro que ele não tenha, que ele não saiba que existe – se consigo acertar fico todo contente. Há essa coisa de partilhar as descobertas. Mas eu vou ao cinema e a espetáculos e os meus irmãos não vão.


O Miguel licenciou-se em Direito e trabalhou como jurista. Como se dá a sua passagem da área jurídica para a de gestor cultural?
Por convite. O primeiro sítio onde estive foi o Instituto Português de Cinema [IPC], com o Luís Salgado de Matos, que estava em França na mesma altura em que a minha mulher também lá estava. Quando foi para presidente do IPC veio cá a casa, conversámos e convidou-me para ir com ele. Para a Europalia [grande exposição de cultura portuguesa em Bruxelas, em 1991] foi o Rui Vilar que me convidou, acho que foi a Teresa Gouveia que lhe deu indicação. Foi sempre assim, fui respondendo a convites.


E quando deu por si já estava perfeitamente integrado no meio…
Hoje em dia há imensos cursos, pós-graduações, tudo e mais alguma coisa. Naquele tempo havia muito pouca gente que trabalhasse neste campo, portanto valorizava-se a experiência. Como fizemos um bom trabalho na Europalia, todas essas pessoas foram para outros sítios. Hoje é diferente, aparece muito gente com capacidades e com formação e investigação nessas áreas. Eu não tinha nada disso.

Mas também não lhe fez falta.
Ninguém é bom juiz em causa própria. Trabalhávamos muito em equipa – e você compara em vitalidade o CCB daquele tempo e o de agora… Claro que naquela altura não havia mais nada, era só o CCB e a Culturgest, o mundo mudou muito e a vida cultural de Lisboa é completamente diferente. Porventura era mais fácil fazer com que o CCB fosse um centro muito ativo e do que é agora.


Trouxe para cá a Festa da Música. Como surgiu essa ideia?
A Festa da Música nasceu em França, em Nantes, pela mão de um tipo de quem eu era muito amigo, o René Martin. Isto começou quando eu era administrador do CCB e a adida cultural da embaixada francesa me disse: ‘Há aqui uma coisa que acontece em Nantes que se calhar você achava graça ir ver. Pagamos-lhe viagem e estadia’. Assisti àquilo e achei extraordinário.


Não havia nada parecido.
Nunca tinha visto tanta gente a ouvir música clássica. Havia famílias inteiras a assistir a concertos. Lembro-me de ver um casal mais velho a comer da marmita porque não tinha dinheiro para ir ao restaurante. E tinha uma unidade de espaço, porque era um centro de congressos, exatamente o que era possível fazer no CCB porque também tem muitas salas. Então pensei importar a ideia, e escrevi ao René: ‘Gostava de fazer uma coisa parecida em Portugal, mas a ideia é sua, portanto queria saber se autoriza’. E o René respondeu: ‘Eu vou aí’. E veio. Uma das primeiras coisas que fez foi ir à Fnac para ver os discos que se vendiam, para perceber a vida musical em Lisboa. Esteve a ver os espaços do CCB, conversou muito com a equipa, e disse: ‘Eu faço’. A programação era ele que fazia. Só ele é que sabia fazer aquilo, porque é preciso saber as durações dos concertos, como é que tudo aquilo se encaixa.


O seu gosto pela música nasceu, como me disse, do entusiasmo que lhe foi transmitido pelo seu pai. Mas depois aprofundou, aprendeu algum instrumento?
Não mas tinha pena. Os meus irmãos mais velhos ainda tiveram aulas das minhas tias – receberam aquela educação…


... à antiga.
Aprendiam a tocar piano, a falar francês. Algumas das minhas tias tiraram o conservatório e o meu avô dava um piano a cada filha. Os meus irmãos tiveram aulas com uma das tias. Mas já não chegou para mim [risos]. Nunca percebi porque é que os meus pais nem sequer sugeriram a hipótese de eu também ter aulas. Provavelmente não tinha jeito nenhum, mas teria gostado. A música era uma coisa muito presente lá em casa, o meu pai estava sempre a ouvir música. Tinha um gosto muito eclético – introduziu-se no jazz por um amigo e começou a ouvir numa altura em que era muito difícil encontrar discos de jazz em Lisboa.


No seu caso foi eminentemente autodidata?
Sim, mas aprendi muito com amigos. Lembro-me do padre Miguel Ponces de Carvalho, de quem eu era muito amigo. Punha um disco com uma sonata, punha a pauta e tocava piano por cima. Eu via a pauta e conseguia associar uma coisa à outra, e percebia como a música era construída. Também aprendi muito com o António Pinho Vargas e outros amigos. Sem saber música, sei mais que a generalidade dos meus amigos.


O suficiente para apreciar…
E para entusiasmar as pessoas.


Disse que não colocava a carreira em perspetiva. Em todo o caso, houve algum cargo que tivesse particular prazer em desempenhar?
É claro que o CCB e a Culturgest foram as coisas que mais prazer me deram. E fiquei com a impressão, que pode não ser verdadeira, que nos cinco anos que a gente lá passou o CCB cresceu muito.

Foram os tempos áureos do CCB?
Aquele equipamento custou muito dinheiro. Era fundamental que as pessoas o habitassem... agora usa-se muito essa expressão mas não é isso que queria dizer. O defeito das palavras da moda é a que a gente tem dificuldade em fugir-lhes. Detesto as palavras da moda. Aquilo tem uma arquitetura aparentemente fechada, de bunker, mas desde que se entre é muito agradável. Queríamos que houvesse mais pessoas a entrar e a usufruir, nem que fosse só para passear com família, para verem aqueles jardins, que são bonitos, irem aos cafés, estarem na praça, não é necessário que vão ver os espetáculos ou as exposições. Procurámos fazer isso e de facto aquilo tinha uma vida. E a Festa da Música inseria-se nessa mesmo plano, nessa orientação de abrir, abrir, abrir o CCB ao maior número de pessoas. E em parte resultou.


Uma última questão. Já tive em mais de uma ocasião oportunidade de verificar que é muito direto e frontal. Isso nunca lhe trouxe problemas ou zangas?
Nenhuma, nunca. Às vezes dizia a pessoas que apresentavam projetos: ‘O projeto não presta por isto e por isto’. Duas ou três vezes as pessoas reagiram mal. Mas em geral agradeciam-me a frontalidade.


Não tem medo de desiludir as pessoas?
No fim de um espetáculo não vou dirigir-me às pessoas e dizer: ‘Vocês fizeram uma merda’. Há bom senso. Mas procuro ser frontal. Mais vale assim do que ser dissimulado.