Cultura

‘Procuro intensamente o belo’

Começou a escrever poesia na juventude e o bichinho foi ficando. Fernando Pessoa não tinha cão é o novo livro do pediatra Mário Cordeiro, uma homenagem ao poeta que não gostava de os ouvir latir mas talvez mudasse de ideias se tivesse conhecido Tenrinha, a cadela que um dia a sogra do médico resgatou da rua e nos últimos anos se tornou parte da família. É a musa dos versos que agora dá à estampa, num livro que será apresentado este sábado numa sessão da Dog Summit, no Centro de Interpretação de Monsanto.

Começa com uma nota histórica, que a curiosidade é uma das características de Mário Cordeiro, pediatra, leitor ávido e amante de poesia. «José Correia, técnico da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, teve a enorme amabilidade de me informar que o grande Pessoa nunca teve um cão. Inclusivamente, José Paulo Cavalcanti Filho, na sua obra Fernando Pessoa – Uma Quase Autobiografia, menciona que: ‘Simpatia tem pouca ou mesmo nenhuma, por cães a ganir... e telefones’». Mais sobre esta suposta incompatibilidade de Pessoa com os patudos, a que ainda assim legou alguns versos, sabe-se por Ophelia. «O Fernando era muito supersticioso, especialmente com cães a ganir. Dizia que, quando ia para casa, à sua passagem, os cães ganiam, e que isso significava haver qualquer coisa nele que os fazia ganir». Longe das superstições, uma interrogação principia então o livro: e se Pessoa tivesse tido um cão, ou mais, ou, quem sabe, conhecido a Tenrinha? O pano abre-se sobre uma coleção de poemas, apontamentos do quotidiano, escritos nos últimos anos, muitos em que a musa foi – é – esta companheira de quatro patas, que antes deste Fernando Pessoa não Tinha Cão já tinha inspirado Mais de Mil Passeios. 

Ao sexto livro de poesia, Mário Cordeiro diz que já está a pensar no próximo, num hobby que vem de miúdo, e que serve também partilhar os seus pensamentos sobre a vida.«Comecei a escrever na infância, mas o primeiro poema de que me recordo com estruturação foi por volta dos 16 anos. Fui escrevendo, com lapiseira, guardando numa gaveta (ainda não havia computadores), por vezes escrevia-os à máquina, e mais tarde já com o teclado do computador. Escrevo versos ou simplesmente frases, mesmo quando passeio o cão ou estou a contemplar qualquer coisa bela, ou simplesmente na praia a ver o mar. Quando não tenho papel, escrevo no telemóvel e mando uma mensagem a mim próprio, para não me esquecer», conta. 

A relação com os animais e com a natureza é cada vez mais profunda e a Tenrinha tem ajudado a afinar a perspetiva. Foi herdada com a morte da sogra, que um dia a resgatou da rua maltratada e já teve a sua dose de sobressaltos, o último uma falência orgânica múltipla. Não sabendo ao certo da idade, já não vai para nova e recuperou, com alguns achaques, «como todos nós», diz Mário Cordeiro. «A sua presença dá-nos uma enorme paz. Mesmo quando está a dormir, tranquila, divertimo-nos a olhar para ela e tudo o que faz (que, no fundo, é o que um cão faz) é motivo de regozijo, um autêntico hino à vida, e o seu jogo de sedução connosco é um prazer.»

E é assim que as palavras se encontram. 

Ah.

Estás acordada.

E eu a pensar que te estava a ler poemas
de Pessoa
Para nada. 

«Todos os dias me surpreendem, e sou daqueles que pensa que quanto mais gostamos de animais e os tratamos bem, melhores seres humanos seremos e mais da Humanidade gostaremos, tratando também as pessoas melhor.» Sobre uma certa sapiência dos animais escreveu curiosamente Pessoa: O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não. Faz sentido ao poeta que atentamente segue as pisadas de Tenrinha? «Totalmente. Salvaguardando que não se devem humanizar os animais nem pensar que ‘é tudo igual’, parece-me evidente que os animais devem ser observados, contemplados, protegidos e defendidos com afeto e consideração. Os animais, sobretudo os cães (ou os cavalos) têm uma enorme presciência, agem com o seu saber ancestral e genético (a que chamamos instinto) e, quanto aos cães, há perto de 20.000 anos que temos uma relação com eles (os gatos há apenas 7.000). A sua fidelidade e gratidão não têm limites, reproduzindo em muito a vivência da alcateia de canis lupus, de onde provêm os canis canis. Temos muito a aprender com eles, sobretudo no inter-relacionamento afetivo, gratidão, paciência e humildade e pouca arrogância e exigência».

Aos 64 anos, Mário Cordeiro tem reforçado a intervenção na proteção dos animais e é assessor do PSIRA – Programa de Sensibilização na Infância para o Respeito pelos Animais da Provedoria dos Animais de Lisboa. Está na altura de prescrever mais contacto com a natureza? «Sempre o prescrevi e sempre cultivei essa vertente, até porque, quando os meus filhos mais velhos nasceram eu vivia no concelho da Lourinhã, com o mar de um lado e o campo do outro. Aprecio o Belo, aliás, procuro intensamente o Belo, e a poesia e a Natureza andam de mãos dadas no que toca a expressarem-se de forma singela, quase lacónica, mas com uma intensidade e uma profundidade do tamanho do mundo. Os animais, especialmente os cães, interessam-me porque nos tornam a vida variada, plena, simples, quase néscia, mas oferecem tanto e a tão baixo custo que, cada vez mais, me repugnam a cupidez, a ganância, o narcisismo e o show-off do ‘ter por ter’ ou o exclusivamente ‘fazer’. Gosto cada vez mais do ‘ser’ e do ‘estar’, e os animais e as árvores e plantas ajudam a cultivar essa parte de nós próprios, tão saborosa e reconfortante.» 

Para a apresentação deste sábado na Dog Summit, no Centro de Interpretação de Monsanto, haverá versos e também conselhos aos pais. «Sem humanizar os cães, vou insistir para que sejamos cada vez mais humanos, na nossa condição, e menos enfatuados, pesporrentes, intolerantes e jactantes. Mais: creio que os pais e educadores que pretendem dar um rumo de amor pela natureza e intransigência na sua defesa, não podem desistir, mesmo que sejam vistos como ETs. Este livro é uma reflexão sobre a vida, a morte, a angústia existencial, a natureza, e a procura interminável do Belo. Há quem lhe chame Deus, eu como agnóstico chamo-lhe Belo. Nas pessoas, na natureza e… nos animais. A Tenrinha é um exemplo. E desta vez ‘ofereceu-me’ 384 páginas, porventura inspiradas por Pessoa.» Que talvez lhe fizesse uma festa, ou apenas se debruçasse sobre a metafísica do seu ladrar à distância.